Intermitências - Por Sandra Pereira
Gente produtiva
Estava decidido. Desta vez não ia vacilar. Estava farta de ouvir, e sentir na pele, a vontade desperdiçada. “Não sigas os outros que esperam no café os 500 e poucos euros de cada mês…”. Palavra do primo João, seladas com a garantia que, nos “States”, muito trabalho faz sorrir e o “stress” mantém a gente activa, tão veloz como a rotação da Terra e em sintonia com a velocidade dos dias. Ainda seria o “El Dorado” da geração anterior? “Se ganhas 400, queres 1000. Se ganhas 1000, queres 3000… Mas pelo menos a malta aprende a ser gente produtiva! Quem fica na conversa, não interessa a ninguém”, apregoava o jovem emigrante nas escassas visitas à aldeia natal, despertando rubores, olhares fulminantes e pontas de inveja. Já não era como o pai, da remessa dos que deram “o salto”. O primo João já era da 4G(eração), como o telemóvel que ostentava no bolso, curtir a “Big Apple” fazia parte da sua agenda diária.
Também do Brasil, a tia Rosalina enviava cartas a informar que lá, “os velhos duram mais tempo”, pois “o Inverno é só em Julho e Agosto”. Com 80 anos e sem conhecer os mais novos da “família de Portugal”, dera-se, mesmo assim, ao trabalho de ir ao consulado informar-se de como podia ajudar essa geração “formada”, mas “à rasca” a vir trabalhar para o “futuro”. A 10 minutos do metro e a meia hora das areias de Copacabana. Que mais podia pedir?
E a Lili que se não calava com o Oriente! Fartava-se de postar fotografias dela no Facebook, a sorrir com os dentes todos nas ruas de Xangai (onde deambulava imbuída nos vibrantes néones publicitários depois do trabalho), numa praia da Tailândia (onde passara as últimas férias), ou a provar comidas bizarras no Japão (onde fora em viagem de negócios). No seu caso, tudo começara com um estágio de três meses, mas rápido a Lili se habituou ao ritmo das cidades que nunca dormem. Lá, sentia-se “viva” e “produtiva”, dizia-lhe muitas vezes no “chat”. De resto, até a mãe lhe falava do filho “engenheiro” dos vizinhos que correra atrás do “brilho” de Angola, ou do filho do patrão do pai, que convencera o “velho” a mostrar as “engenhocas” numa feira internacional na Alemanha e tinha agora viagem reservada para ir negociar para o Qatar. “E esta hein?”, ria-se a mãe.
Sempre estivera reticente. Fazia parte da geração “500 euros” com “emprego” na caixa do supermercado, mas pelo menos, convencera-se, podia dar-se ao luxo de ter tempo para pensar, aborrecer-se e escrever no blogue, o seu verdadeiro “trabalho”. “Gosto das tuas crónicas, mas porque não escreves sobre o mundo?”, disseram-lhe uma vez, numa noite de copos. O mundo? Que mundo? Sempre pensara ter um mundo sem fronteiras e inesgotável dentro da cabeça…
Guess what? I'm in Xangai!
Começou a reparar na vida diária. No final, resumiu as conversas de uma semana inteira em dois temas – falta de dinheiro e episódios amorosos de vidas alheias – e a sua auto-aprendizagem a um livro de 300 páginas que finalmente acabara de ler num espaço de… quatro meses. Foi nesse momento que percebeu que o tempo parara no seu país.
Via a “crise” como um feitiço assombrado que transforma tudo o que é lindo em coisas feias. Como se o facto de haver limitações de dinheiro tivesse também limitado totalmente a capacidade de movimento das pessoas. Na televisão, sucedem-se “dramas reais”, “vidas difíceis”, “vergonhas escandalosas”, e aqueles irritantes apelos ao “empreendedorismo” dos “jovens” que só querem ser empregados, ou como já vira em letras gordas num jornal, receber “sem mexer uma palha”, num país que afinal lhes coloca a todos uma corda ao pescoço, que aperta mais a uns que a outros. Pior do que isso, procuram-se culpados! Pois condenem-se os pais, que quiseram aproveitar a oportunidade que a democracia lhes deu de ver os filhos “estudados” em vez de os deixar a “amargar” no campo! Condene-se o sistema de ensino, cuja cartilha sempre privilegiou o intelecto, a teoria e o “marranço”, sem se preocupar com a aplicação dos mesmos ao grande mercado que é a vida! Condenem-se os políticos e as elites, cuja ganância e novo-riquismo lhes cega o bom senso e corta o apetite de satisfazer as vontades do povo que os elegeu, optando antes por construir um país de “compadres”? Houve tempos em que todo um país acreditou na utopia do progresso, mas, ontem como hoje, lá se vai ouvindo por aí: “salve-se quem puder”.
Hoje é tempo de voltarmos ao mar, acredita-se. Hoje também é esta a cartilha, e aqui o “salve-se quem puder” também serve. Ela chegara ao ponto de revisitar os livros de História para perceber quem foi o “pobre esfomeado” que lançou a ideia dos Descobrimentos. Quem lhe disse que havia mais e melhor terra que a dele? Quais seriam as suas chagas quotidianas para largar amarras, partir sem medos e ainda convencer uns quantos a segui-lo?
No momento em que percebeu que o país parado era uma má influência para ela, de acção desperdiçada e coração despedaçado, começou a apontar a bússola e deixou de ouvir fado, para não cair na tentação de equacionar a malfadada saudade na lista dos “prós e contras” da partida. Tal como os antepassados, a geração actual também tinha aperfeiçoado os instrumentos de navegação: internet e “social network” eram os mais sofisticados. Compilado em duas folhas digitais, o seu “jovem potencial motivado e determinado” chegava em segundos aos quatro cantos do mundo. Então e a mãe que a criara? Bem, no fundo esta só desejava que a filha “Historiadora de formação – professora de História desempregada – funcionária (temporária) de supermercado – escritora amadora” tivesse a mesma sorte que o filho “engenheiro” dos vizinhos, em vez de a ver envelhecer com ela.
Mas, e agora? Onde iria ser “gente produtiva”? Da Europa, ninguém lhe estendera a mão. Como num casamento, os países da União Europa juraram “amor eterno” na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, “até que a morte os separe”, e agora com algumas esposas em “cuidados continuados”, era um continente inteiro que estava deprimido. Infelizmente teria mesmo de esvaziar a conta-poupança para paragens mais longínquas.
Tanto “network”, tanto “know-how”, tanta “connection” e nenhuma resposta ao fim de 250 CVs enviados para os destinos do primo João, da tia Rosalina e da amiga Lili. Havia dias em que sentia que, em nome da evolução profissional, crescimento pessoal e conforto financeiro, tinha de remar contra a maré fatalista nem que regressasse três meses depois quando o visto expirasse. Outros dias, achava que em nenhum outro lugar conseguiria combinar de modo tão perfeito aconchego, amor, amizade, lazer e comida como na sua terra. De qualquer modo, nenhuma resposta “curricular” chegava, ao contrário dos incentivos cada vez mais frequentes dos seus “emigrantes”.
Não, não. Estava decidido. Desta vez não ia vacilar. Precisava de confirmar o seu valor e ser acarinhada e cobiçada por “gente produtiva” em países que avançam, precisava de estar no "futuro". Sim, sim. Estava decidido. Ela própria se iria armar em profeta e bater portas nos próximos três meses.
No dia da partida para Xangai, além do aperto apreensivo no estômago e da adrenalina a acelerar-lhe o coração, na mala levava o Fernando Pessoa, a companhia ideal para as horas solitárias e nostálgicas, a “Viagem à India” de Gonçalo M. Tavares, a versão da epopeia de Luís de Camões “adaptada a almas jovens e angustiadas”, e um texto do seu filósofo preferido, Eduardo Lourenço. Neste último, tinha sublinhado uma frase: “Não viajamos para nenhum paraíso. Todas as viagens são sempre um regresso ao passado de onde nunca saímos”. Face ao exagero de lágrimas descontroladas da mãe antes do embarque, ela sorria. Algures, ia ser escritora.
Sandra Pereira







