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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

ENSAIO SOBRE O MUNDO RURAL

04.05.12 | Fer.Ribeiro

Fotografia de Ana Luisa Monteiro

 

 

ENSAIO SOBRE O MUNDO RURAL

 

a propósito de As Verticalidades/Horizontalidades de Barroso,

 

livro de fotografia de Ana Luísa Pires Monteiro

 

 

um texto de José Carlos Barros


 

Este não é um livro de fotografias. É quase um livro de fotografia. E seria verdadeiramente um livro de fotografia se não tivesse texto.

 

Porque as fotografias devolvem-nos um único e mesmo olhar. Não é um olhar curioso de quem procura descobrir as coisas e nos dá os resultados dessa busca, dessa curiosidade, desse maravilhamento com as descobertas. Não é o olhar de quem procura tempos e lugares de calendário, de catálogo, esmagando-os em beleza, alegria, grandeza ou exaltação festiva. Não: o olhar que estas fotografias nos devolvem é feito de sedimentação, de coisas desvendadas, de depuração. De lentidão. De uma urgência feita de saber esperar.

 

E por isso todas estas fotografias são uma mesma e única fotografia. 

 

E que fotografia é essa?

 

Comecemos pela epígrafe e pelo texto introdutório da autora: um louvor das terras de Barroso, um poema de amor ao Barroso. E olhemos, depois do anúncio deste propósito, as fotografias -- ou a fotografia única que estas fotografias são. O que vemos assim de repente? Abandono, ausência, desolação, devastação.

 

Fotografia de Ana Luisa Monteiro

 

Começa por surpreender-nos, pois, necessariamente, esta contradição aparente: como se um hino de amor pudesse ser dado pelos momentos em que esse amor exigiu esforço ou abdicação, e não pelos momentos feitos de alegria e exaltação.

 

E é essa, a meu ver, a chave do livro, o segredo desta única fotografia que resulta do conjunto de todas.

 

Vamos por partes.

 

O que vemos no conjunto de fragmentos que cada uma destas fotografias é, como peças de um puzzle que se desvenda juntando o conjunto das peças?

 

Fotografia de Ana Luisa Monteiro

 

A devastação dos incêndios. A cinza e os troncos queimados. As guardas em granito de uma ponte que parece levar a lado nenhum. Degraus que já ninguém sobe. Nomes antigos de lugares como esse de que Torga dizia: "entro nestas aldeias sagradas a tremer de vergonha". Placas direccionais como metáfora das encruzilhadas. Cruzes ou cruzeiros como memórias de crucificação. Um anjo como se fosse um fantasma antigo que já não pudesse proteger-nos. A linha do horizonte separada de nós por uma trama, uma rede, uma vedação. Rebanhos sem pastor. Veredas, caminhos de sombra. Pedras de memórias da morte ou da desistência. Objectos hoje sem uso, ferramentas sem a mão que um dia as justificou. Ruínas, paredes derruídas. Caixas de correio à espera de cartas que já ninguém escreve. O esqueleto de canastros -- imagem negativa, invertida, da abundância. Rara vegetação a emergir da neve sobre os campos. Vãos abertos em paredes de granito a mostrar o silêncio, a ausência, o céu ao fundo como o desenho de uma impossibilidade. Portas fechadas. Uma porta e outra. Uma porta carral. Portas que talvez não mais possam abrir-se para lugar nenhum.

 

Fotografia de Ana Luisa Monteiro

 

E nenhum rosto. Nenhuma figura humana.

 

É isto que vemos. É isto que nos mostra, e deste modo que nos mostra, quem procura mostrar-nos o amor à sua terra.

 

Esta aparenta contradição é a chave do livro. É a sua força. E está em linha com o que a arte tem de melhor para nos dar: inquietação, interrogação, sobressalto.

 

Contradição, claro, como se vê, só aparente.

 

Porque, de facto, o amor não se revela tanto no que nos dá, mas no que nos custa. Porque o amor se revela mais no que nos exige de abdicação do que naquilo que nos dá em sossego e pacificação. Porque o amor se revela mais na capacidade que tivermos de construí-lo, pedra sobre pedra, e menos no que nos devolve sem cicatrizes nem inquietude.

 

Este é o modo como nas imagens do livro se revela o amor às terras de Barroso que vinha anunciado como propósito na epígrafe e no texto introdutório da autora:

 

por um lado numa procura do que é essencial, do que é elemental, do que é matricial, do que é já tudo sem ainda o ser. Numa procura de possibilidades, de mundo a haver;

 

por outro lado através desse jogo de mostrar o que se esconde, ou de esconder o que se mostra.

 

Regressemos a uma das mais perfeitas metáforas desta fotografia: a das portas; a das portas fechadas.

 

Na porta fechada somos confrontados com o que está além dela. Ana Luisa, de um modo sage, de uma maneira depurada, sedimentada, enuncia sem dizer, alude sem mostrar. Estas fotografias, portanto, deixam-nos no limiar de uma parede, de um muro, de uma porta fechada: para que seja cada um de nós a descobrir o que lá não está, para que seja cada um de nós a estabelecer a sua própria narrativa. Porque a arte não existe nunca se for sentido único: a arte exige sempre essa partilha, essa procura conjunta dos segredos e dos milagres.

 

Fotografia de Ana Luisa Monteiro

 

Não podemos esquecer que a fotografia é hoje a forma artística, digamos, mais democrática. Todos podemos fotografar. Fotografar não exige mais que apontar a máquina e premir um botão. Ora a fotografia, enquanto arte -- e arte maior --, não existe se não for capaz de nos mostrar sobretudo o que lá não está: o que se insinua, o que se adivinha, o que se pressente, o que nos sobressalta de sermos cúmplices dessa procura e desse entendimento.

 

Mas a autora decidiu que estas fotografias deviam ser acompanhadas por textos. E pediu a familiares, a amigos, que escrevessem um texto para cada uma das fotografias.

 

Como seria de esperar, a multiplicidade de intervenientes dá-nos uma multiplicidade de olhares: aqui, nos textos, perde-se em unidade -- ganha-se, é certo, em emoções, em cumplicidades.

 

Os textos são díspares: pequenos apontamentos, textos que procuram acompanhar as fotografias, textos que se impõem por si mesmos independentemente da fotografia. Textos literários, comentários, frases soltas.

 

E histórias.

 

Uma delas serve-me para procurar clarificar aquilo que pretendi dizer ao falar destas fotografias, desta fotografia. O texto de Xavier Barreto.

 

Antes: este livro passava bem sem os textos. Não é preciso explicar o que está por detrás de uma fotografia. O que faz sentido é procurar, perdermo-nos, encontrar um caminho, voltar atrás, regressar de novo aos segredos e interrogações da imagem. Mas o texto do Xavier é um bom exemplo.

 

Numa das fotografias há uma casa abandonada, de paredes derruídas, feita de ausências, perdas, abandono. E cada um de nós sente o sobressalto, a necessidade de procurar ver o que está além da casa: vidas, segredos, narrativas que nos é possível inventar. Pois Xavier desvenda-nos os segredos desta casa ao contar-nos a história  deliciosa de António Afonso. Foi há mais de 150 anos. António estava apaixonado. O pai da noiva, no entanto, não lhe entregou a filha porque António só tinha três vacas. O pai da noiva não lhe entregou a filha para casamento com o argumento de que se precisasse de fazer duas juntas de vacas teria que pedir uma vaca emprestada aos vizinhos. E Xavier conta-nos, a partir deste episódio, toda a história da casa e de uma família ao longo de várias gerações. Mas além da história, além do texto, permanece a imagem sem legenda. E a nós, leitores, fica-nos a possibilidade de, a partir desta imagem assim de novo revelada, reinventar o resto do mundo.

 

Fotografia de Ana Luisa Monteiro

 

Os textos, maioritariamente, falam de

 

ausências ("alimentam-se as ausências", escreve Ana de Almeida Santos),

 

de solidão ("corpos forjados no tempo encadeado em solidão", nas palavras de Alfonso Láuzara Martinez),

 

de rudeza, de granito, de dificuldades, de sangue e de lágrimas, de um tempo em que "a solidão da noite te adormeceu no colchão de palha" (cf. Narciso Miranda),

 

de "cadeias que uniram", como diz J.B.César,

 

de milagre, de mistério, de tragédia.

 

Nádia Ferreira pergunta: "que segredos escondem estas paredes?"

 

E Fátima Vale lembra que "a mão de sangue está marcada em todas as portas".

 

Minês Castanheira, a propósito de uma escaleira improvável, diz que "fomos feitos para estes lugares de passagem".

 

Altino Rio vai em busca dessa ideia de património, material e imaterial, e recupera-nos "a porta de serventia".

 

Em grande parte destes textos o que emerge é isso: o que se perdeu, as casas em ruína, o abandono, o que não é possível recuperar, os impossíveis regressos, a cinza, a fuligem que desistiu de esperar e se desfez em estilhaços, como insiste Hermínio Fernandes.

 

E a devastação e o desejo (uma já impossibilidade) de que, em vez das árvores depois do fogo, pelo menos permanecesse "a labareda, o vermelho vivo ateado solenemente", como é possível ler num belíssimo poema de Rui Almeida.

 

É curioso -- talvez por efeito das fotografias que são o ponto de partida destes textos -- como o que prevalece é a associação destes lugares às dificuldades e às ausências e ao abandono -- numa espécie de contraponto à bonomia urbana, ao conforto da urbe, aos seus risos estrídulos.

 

Curiosamente -- talvez o tempo presente, por entre todas as suas desgraças, nos esteja a ensinar que não é bem assim; que talvez tenhamos que rever a matéria toda; e que talvez não haja outro caminho que não seja o de rever os nossos áridos caminhos antigos. Que talvez, antes de tudo o mais, seja indispensável redefinirmos as nossas prioridades.

 

Talvez então compreendamos que não iremos a lado nenhum se não regressarmos ao que é essencial. A essa crueza. A esse chão de pedra. A essa pedra da lareira. A esse ramo de árvore. A essa terra inicial e elemental a partir da qual, como numa coisa que se constrói em conjunto, na adversidade, tudo passa a ser possível.

 

A fotografia de Ana Luisa é isso que procura e nos propõe: um regresso ao que é essencial. A essa elementaridade. Deixando-nos a nós procurar ou adivinhar o que está do outro lado de uma porta fechada. Porque estes retratos mostram-nos sobretudo, ou revelam-nos sobretudo, o que as imagens não mostram mas já lá está inscrito.

 

Às vezes é no meio dos desastres que as mais inspiradoras e iluminadas luzes se acendem.