Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos
NEVES O PASSADOR
Estava um fim de tarde gelado de um qualquer dia de Janeiro. O céu plúmbeo fazia adivinhar grande nevão. A noite caía célere, era preciso ir cá botar o gado que pastava no lameiro do Belão. O criado encarregava-se disso. O Ti Moreiras enchia o eido de lenha de carvalho. Os potes fervilhavam ao lume na promessa de que o cozido de palheiro afagasse o corpo e a alma.
Tudo, enfim, decorria na santa paz dos dias do Senhor.
Ceava-se já quando alguém bateu, com os punhos, na porta carral de zinco do pátio. Estava escuro como breu.
— Quem poderia ser àquela hora? — Pensava o Ti Moreiras.
O afitrião, envolvendo os pés nuns carpins de merino, aconchegava-os à beira do borralho, sobre umas placas de cortiça, por causa da cinza que o braseiro espargia. Calçou os socos abertos de pau de amieiro e apressou-se escaleiras abaixo para o pátio.
— Quem bate à porta? — Perguntou com voz de sarronco!
— É o Neves, Ti Moreiras. Abra!
O Neves era um moço dos seus trinta anos, filho de um grande amigo de Carrazedo, e que andava permanentemente fugido à pide. Havia alturas em que não aquecia lugar algum. Era passador. Angariava homens lá para a Terra Quente que passava a salto para a França por Vila Verde da Raia e a quem cobrava boa maquia. O Neves tinha a teia bem montada, fazia-os chegar à fronteira, onde, a coberto da noite passavam a salto pelo ribeiro. De seguida, em Feces de Abaixo, entregava-os a um galego que os fazia chegar aos Pirinéus. Tratava-se de um homem sério, ao contrário de alguns seus companheiros de profissão que eram uns salafrários. Uma das formas mais usuais de enganarem os desgraçados emigrantes e que o retrato rasgado veio resolver, consistia mais ou menos no seguinte: os homens vindos dos lados de Mirandela, chegavam ao Planalto estafados das longas horas que, propositadamente, sofriam em cima de apinhadas camionetas de carga que percorriam lenta e penosamente as estradas esburacadas de terra batida. Na borda do Brunheiro, à vista da iluminação da cidade de Chaves, fica uma povoação chamada France. Chegados aí, com a placa da aldeia à vista, mandavam-nos apear. Que haviam chegado a França, que lessem na placa, que lá em baixo era já a cidade de Paris, que dali para a frente teriam de seguir a pé por causa da polícia! Só na manhã seguinte se apercebiam da marosca. Sem dinheiro e sem transporte, muitos deles suicidavam-se, por mor da dívida contraída para emigrarem e que agora não viam jeitos de poder pagar. Outros faziam-se à vida como podiam, angustiados.
Continuando.
Ao entrar no pátio o Neves tiritava, não sei se do frio se do medo!
— Ó Ti Moreiras, vossemecê tem de me safar. A pide anda atrás de mim!
— Sou muito amigo do teu pai, mas sabes que não quero problemas com a polícia. Ficas cá esta noite mas amanhã cedo pões-te a milhas! Sobe. Vem sentar-te e comer qualquera coisa.
Ainda mal se tinham alapado e já voltavam a bater à porta, agora com mais ferocidade.
— São os filhos da puta! — Disse o Neves assustado.
— Não há que saber, ó Carolina, leva o rapaz para a adega e mete-o no tonel grande que está vazio. Eu demoro a abrir.
Chegados à adega, retiraram a portinhola da vasilha e o Neves meteu a cabeça e passou-se para dentro do tonel. O dito cujo havia sido lavado há pouco tempo, no entanto o sarro ainda libertava vapores abafadiços. O Neves, depois de dominar a custo a claustrofobia, encostou os queixos ao bueiro da rolha para respirar ar fresco.
— Quem bate? — Perguntou o Ti Moreiras, com uma voz segura.
— Polícia, abra!
Abriu.
Assomaram à soleira dois pimpões que, mesmo à paisana, não enganavam ninguém. Eram mesmo da secreta.
— Boas noites, meus senhores! A que devo a honra da vossa visita a estas horas da noite? — Perguntou o dono da casa num tom irónico de disfarce. É que o Ti Moreiras foi calejado pela Grande Guerra e só temia a Deus.
— Temos a informação de que vossemecê alberga um criminoso em sua casa. Queremos passar uma busca.
Claro que o Ti Moreiras nem ousou perguntar pelo respectivo mandato. Pudera!...
— Albergo, sim senhor! Eu próprio! Sou criminoso de guerra por ter passado alguns boches à baioneta lá por terras de França! Mas façam favor de entrar e estar à vontade. A casa é vossa!...
Entraram.
Viraram tudo do avesso. Nada.
Contudo, quando revistaram a adega, temeu-se o pior. É que quase dava para ouvir a respiração ofegante do desgraçado do Neves. Porém, o Ti Moreiras não perdeu o sangue frio – olha quem! – Disparou em tom de gozo:
— Vai um copinho meus senhores? Tenho neste tonel uma pinga de arrebimb’ó malho!
— Não senhor, obrigado. Não bebemos em serviço.
Foi a sorte do Neves e provavelmente a do Ti Moreiras!...
Os polícias saíram a espumar de raiva. Pareciam cães com o rabo entre as pernas! Descorçoados!
No dia seguinte, manhã cedo, o Neves foi despachado, já devidamente pensado e recuperado do cagaço da noite anterior.
Gil Santos





