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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

18
Mai12

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos


 

NEVES O PASSADOR

 

Estava um fim de tarde gelado de um qualquer dia de Janeiro. O céu plúmbeo fazia adivinhar grande nevão. A noite caía célere, era preciso ir cá botar o gado que pastava no lameiro do Belão. O criado encarregava-se disso. O Ti Moreiras enchia o eido de lenha de carvalho. Os potes fervilhavam ao lume na promessa de que o cozido de palheiro afagasse o corpo e a alma.


Tudo, enfim, decorria na santa paz dos dias do Senhor.


Ceava-se já quando alguém bateu, com os punhos, na porta carral de zinco do pátio. Estava escuro como breu.


— Quem poderia ser àquela hora? — Pensava o Ti Moreiras.


O afitrião, envolvendo os pés nuns carpins de merino, aconchegava-os à beira do borralho, sobre umas placas de cortiça, por causa da cinza que o braseiro espargia. Calçou os socos abertos de pau de amieiro e apressou-se escaleiras abaixo para o pátio.


— Quem bate à porta? — Perguntou com voz de sarronco!


— É o Neves, Ti Moreiras. Abra!


O Neves era um moço dos seus trinta anos, filho de um grande amigo de Carrazedo, e que andava permanentemente fugido à pide. Havia alturas em que não aquecia lugar algum. Era passador. Angariava homens lá para a Terra Quente que passava a salto para a França por Vila Verde da Raia e a quem cobrava boa maquia. O Neves tinha a teia bem montada, fazia-os chegar à fronteira, onde, a coberto da noite passavam a salto pelo ribeiro. De seguida, em Feces de Abaixo, entregava-os a um galego que os fazia chegar aos Pirinéus. Tratava-se de um homem sério, ao contrário de alguns seus companheiros de profissão que eram uns salafrários. Uma das formas mais usuais de enganarem os desgraçados emigrantes e que o retrato rasgado veio resolver, consistia mais ou menos no seguinte: os homens vindos dos lados de Mirandela, chegavam ao Planalto estafados das longas horas que, propositadamente, sofriam em cima de apinhadas camionetas de carga que percorriam lenta e penosamente as estradas esburacadas de terra batida. Na borda do Brunheiro, à vista da iluminação da cidade de Chaves, fica uma povoação chamada France. Chegados aí, com a placa da aldeia à vista, mandavam-nos apear. Que haviam chegado a França, que lessem na placa, que lá em baixo era já a cidade de Paris, que dali para a frente teriam de seguir a pé por causa da polícia! Só na manhã seguinte se apercebiam da marosca. Sem dinheiro e sem transporte, muitos deles suicidavam-se, por mor da dívida contraída para emigrarem e que agora não viam jeitos de poder pagar. Outros faziam-se à vida como podiam, angustiados.


Continuando.


Ao entrar no pátio o Neves tiritava, não sei se do frio se do medo!


— Ó Ti Moreiras, vossemecê tem de me safar. A pide anda atrás de mim!


— Sou muito amigo do teu pai, mas sabes que não quero problemas com a polícia. Ficas cá esta noite mas amanhã cedo pões-te a milhas! Sobe. Vem sentar-te e comer qualquera coisa.


Ainda mal se tinham alapado e já voltavam a bater à porta, agora com mais ferocidade.


— São os filhos da puta! — Disse o Neves assustado.


— Não há que saber, ó Carolina, leva o rapaz para a adega e mete-o no tonel grande que está vazio. Eu demoro a abrir.


Chegados à adega, retiraram a portinhola da vasilha e o Neves meteu a cabeça e passou-se para dentro do tonel. O dito cujo havia sido lavado há pouco tempo, no entanto o sarro ainda libertava vapores abafadiços. O Neves, depois de dominar a custo a claustrofobia, encostou os queixos ao bueiro da rolha para respirar ar fresco.


— Quem bate? — Perguntou o Ti Moreiras, com uma voz segura.


— Polícia, abra!


Abriu.


Assomaram à soleira dois pimpões que, mesmo à paisana, não enganavam ninguém. Eram mesmo da secreta.


— Boas noites, meus senhores! A que devo a honra da vossa visita a estas horas da noite? — Perguntou o dono da casa num tom irónico de disfarce. É que o Ti Moreiras foi calejado pela Grande Guerra e só temia a Deus.


— Temos a informação de que vossemecê alberga um criminoso em sua casa. Queremos passar uma busca.

Claro que o Ti Moreiras nem ousou perguntar pelo respectivo mandato. Pudera!...


— Albergo, sim senhor! Eu próprio! Sou criminoso de guerra por ter passado alguns boches à baioneta lá por terras de França! Mas façam favor de entrar e estar à vontade. A casa é vossa!...

Entraram.


Viraram tudo do avesso. Nada.


Contudo, quando revistaram a adega, temeu-se o pior. É que quase dava para ouvir a respiração ofegante do desgraçado do Neves. Porém, o Ti Moreiras não perdeu o sangue frio – olha quem! – Disparou em tom de gozo:


— Vai um copinho meus senhores? Tenho neste tonel uma pinga de arrebimb’ó malho!


— Não senhor, obrigado. Não bebemos em serviço.


Foi a sorte do Neves e provavelmente a do Ti Moreiras!...


Os polícias saíram a espumar de raiva. Pareciam cães com o rabo entre as pernas! Descorçoados!


No dia seguinte, manhã cedo, o Neves foi despachado, já devidamente pensado e recuperado do cagaço da noite anterior.

 

Gil Santos

18
Mai12

Capela de S.Roque - Madalena - Chaves


 

Ainda ontem aqui trazia um caso de falhas numa obra, coisa pequena,  mas que fazem a diferença em espaços que se querem tratados, pois tais espaços são dados como cartões de visita da nossa cidade de Chaves,  e como tal, atraem quem nos visita, logo querem-se tratados com tudo no sítio. Às vezes não custa nada e dói muito menos tratar desses pequenos casos para lhes dar ou devolver o atrativo e beleza que merecem, como foi o caso recente de devolver o reboco à Capela de S.Roque, na Madalena. A capela e a respetiva praceta/jardim agradecem, e nós também. Está muito mais bonito assim.

 

Para já ficamos com esta imagem. Por mea culpa não temos o habitual “Discurso sobre a cidade”,  pois esqueci-me de avisar a tempo e horas o discursante de hoje. Mas, embora tarde,  o aviso seguiu e pode ser que ainda hoje ele chegue aqui.

 


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