Pedra de Toque - Às vezes a Noite
ÀS VEZES A NOITE…
Às vezes a noite surge tão escura e tão longa.
Apetece então dormir na quietude de uns braços, na quentura de um corpo, horas incontáveis nos relógios da vida.
Estou só mas cercado por ti por tudo que é lado.
Tu que moras num prédio alto da cidade cosmopolita não me escondas mais as gardénias que sempre vi no teu sorriso, as algas azuis que se confundem com as espigas loiras semeadas nos teus cabelos.
Vem e traz-me a humidade da tua boca, o veludo da tua pele e sacia a fome que tenho de serenidade.
Se calhar amo-te, se calhar…
Só tenho a certeza que te quero, que preciso das tuas palavras, dos teus gestos desenhados pelas tuas mãos, torres de catedral, porto de abrigo.
Eu sei que tu existes, que estás algures a ler, letra a letra, as frases que aqui vou desenhando para ti.
Quando te vejo fugaz na bruma dos dias, no rio que corre para o dealbar do destino, desapareces por magia nas ramagens verdes e lisas.
Era tão bom que hoje aparecesses… Eu sei que tu me procuras com tanto frémito como eu.
Hoje é a noite em que as pessoas brindam, se juntam e nós vamos estar sós. Não poderemos virar a duas mãos a folha do calendário.
Se nos encontrássemos seria uma altura divina para planearmos o amor que tarda.
Vou fazer aos deuses uma prece para que assim seja.
Ora comigo.
António Roque




