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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

30
Set12

proposta da reorganização das freguesias levou chumbo...

Para memória futura fica aqui a atual divisão do concelho em freguesias e a reorganização administrativa territorial autárquica proposta do PSD local, com agregação de algumas freguesias. A proposta foi rejeitada pela Assembleia Municipal.


Mapa atual do concelho - Freguesias



Como não estive presente na Assembleia Municipal nem conheço a fundamentação que levou à proposta apresentada, deixo a leitura da proposta por vossa conta para a qual acrescento a notícia publicada no Diário Atual (e semanário Voz de Chaves), à qual acrescento o mapa do concelho com a divisão atual em freguesias e o mapa do concelho com a proposta rejeitada. O mapa da nova divisão fica assim para ser traçado pelos senhores de Lisboa, sendo para já uma incógnita, no entanto, podemos ter já a certeza que o novo mapa também não vai agradar nem a “gregos nem a troianos”  e que, por muito justo que pretenda vir a ser, nunca o será, pois se nem os cá conhecem a realidade das aldeias, a sua história,  os seus sentimentos, amores e quezílias com vizinhos, os de Lisboa, nem com um canudo conseguirão enxergar seja o que seja, e nem sequer vão estar ralados com isso.


Mapa com a Proposta do PSD (chumbada em Assembleia Municipal)

(a cores a proposta das novas fregesias após agregação)



Ficam também algumas imagens de duas freguesias que iam à vida (Tronco e Seara Velha) e que agora ficam a aguardar o que se ditar em Lisboa.

 

Fica então a notícia publicada no Diário Atual/Voz de Chaves:

 

Pela diferença de um voto, Assembleia Municipal chumba proposta da reorganização das freguesias


Assembleia Municipal de Chaves não aprovou a proposta de Reorganização Administrativa Territorial Autárquica, apresentada pelo grupo Municipal do PSD, realizada na quarta-feira, dia 26 de Setembro.


Com 34 votos contra, 33 a favor, e 17 abstenções foi o resultado da votação da Moção apresentada pelo PSD local sobre a reorganização das freguesias, que propunha a extinção de 13 das actuais 51 freguesias do concelho.


Gorada a criação de uma comissão, no âmbito da Assembleia Municipal, com o objectivo de elaborar uma proposta para a reorganização das freguesias, o PSD de Chaves, Comissão Política e Grupo Municipal, avançou com uma proposta de trabalho na Assembleia Municipal, a qual foi aprovada, as assembleias de freguesia foram chamadas a pronunciarem-se. Resultado deste processo foi levada à Assembleia Municipal de 26 de Setembro uma proposta final.


Com a intenção de dar cumprimento à Lei, que impõe a reorganização das freguesias, e beneficiando com isso das prerrogativas mais favoráveis, em caso de a Assembleia Municipal aprovasse uma proposta, foram os argumentos mais fortes que o PSD apresentou para que a proposta fosse aprovada, cujo critério se baseou na agregação das freguesias com menor número de habitantes.




Dentre as vantagens, salienta-se a prerrogativa de, no caso do concelho de Chaves, beneficiar da redução de menos três freguesias; de um aumento das transferências financeiras para as freguesias a agregar; e evitar que, sendo esta Lei implementada, que a agregação se faça por uma Comissão da Assembleia da República “a régua e esquadro”, argumento frequentemente utilizado. Também, em benefício da aprovação desta proposta, mesmo que, no futuro, esta Reorganização não seja levada a cabo e a Lei não se efetive, ao existir, com esta proposta garante-se que a reorganização seja feita pelas pessoas do concelho, com os benefícios que a própria Lei concede.




Os argumentos contra esta proposta, nomeadamente da CDU e do PS, assim como de alguns deputados do PSD, passam pela não concordância com esta Lei, por “ser injusta e inadequada” e não servir as populações, manifestações que já haviam sido referidas em assembleias anteriores.


Durante a discussão, também foram aduzidos argumentos no sentido de não se concordar com esta proposta em concreto, no entanto, não foram apresentadas alternativas.


Feita a votação, a Assembleia Municipal não aprovou a proposta com 34 votos contra. A favor foram 33 votos e 17 abstenções.


Paulo Chaves




Proposta Final


Freguesia da Castanheira (União das Freguesias de Cimo de Vila da Castanheira e de Sanfins) com sede em Cimo de Vila da Castanheira


Freguesia de Vidago (União das freguesias de Arcossó, Selhariz, Vidago e Vilarinho das Paranheiras) com sede em Vidago


União das Freguesias de Calvão e Soutelinho da Raia, com sede em Calvão


União das Freguesias de Loivos e Póvoa de Agreções, com sede em Loivos


União das Freguesias de São Julião de Montenegro e cela, com sede em São Julião de Montenegro




União das Freguesias de Soutelo e Seara Velha, com sede em Soutelo


União das Freguesias de Travancas, São Vicente e Roriz, com sede em Travancas


União das Freguesias de Tronco, Oucidres e Bobadela, com sede em Bobadela


União das Freguesias de Vilela do Tâmega e Vilas Boas, com sede em Vilela do Tâmega


(Antes do início da discussão deste ponto na ordem de trabalhos da Assembleia Municipal, houve uma proposta de alteração a Moção inicialmente apresentada, nomeadamente a agregação de Vilas Boas, que inicialmente se agregaria com Vidago, passou a agregar-se com Vilela do Tâmega. Esta proposta foi aprovada pela Assembleia Municipal.




Número de freguesias a agregar


O regime jurídico da reorganização administrativa territorial autárquica, segundo as características do concelho de Chaves, com 51 freguesias, impõe a redução global do número de freguesias do lugar urbano de Chaves em 50%, ou seja 6 freguesias (11 freguesias x 0,50 = 5,5 = 6 freguesias) e a redução do número de freguesias fora do lugar urbano de Chaves em 25%, ou seja, 10 freguesias (40 freguesias x 0,25 = 10 freguesias), resultando, assim, um total de 16 freguesias a agregar.


Com a pronúncia da Assembleia Municipal, há uma flexibilidade de 20%, relativo ao número global de freguesias a reduzir (16 x 0,20 = 3,2 = 3), o que passará de 16 para 13.



29
Set12

Pecados e Picardias - Por Isabel Seixas

 

 

Ó epifania 

DO SR. Fulano de Tal

Ó epifania do desejo último

Engalanada pela sociedade e moral

Que enleva a verdadeira aparição num púlpito

Onde nasce cresce e floresce o Sr. Fulano de Tal

 

Ó epifania  do respeito total

Só encontras eco nos palcos desertos de vazios

Afogada nos  caminhos sinuosos de mares e de rios

Procurada nos ventos e no juízo final

À procura do estatuto do Sr. Fulano de tal

 

Ó epifania dos mistérios humanos

Que escreves em linhas de dolo e Mal

Escondes verdades alimentas vaidades, mesmo estando mal

Só porque queres ser como o Sr. Fulano de tal

 

Ó epifania da pena e compaixão

Prisioneira do sucesso no qual não tens mão

Ardes da febre com  que te perdes  de ti normal

Quando persegues e corres atrás do ter como Sr. Fulaninho de tal

 

Ó epifania da mania atual

 

Que luz acrescentas à  ancestral direção

Com que  bússola te orientas para teres razão

Afinal quem é e que faz pelos outros o Sr. Fulano de tal

 

Isabel Seixas

28
Set12

Discursos Sobre a Cidade - Por Francisco Chaves de Melo

 

A  Cidade  Sonhada

 

 

Nasci no largo de Camões. Passados dez anos palmilhava diariamente o Forte de São Francisco, hoje hotel. Na primeira metade de oitenta espairecia no ex-Convento das Religiosas da Senhora da Conceição e suas imediações, hoje sede do agrupamento de escolas Fernão de Magalhães. No primeiro ano da segunda metade dessa década frequentei a Escola Industrial e Comercial de Chaves. Depois estive fora meia dúzia de anos.


No regresso vi que a cidade estava maior, mais urbanizada, com comércio abundante e diversificado, onde os citadinos e os do campo se encontravam. Falava-se numa primavera na gestão autárquica. Podia dizer-se que, utilizando o critério de saúde de um governo como o serviço do interesse geral, que a cidade estava saudável.


Vinte anos passados, que podemos dizer hoje da cidade?


Confesso que ao pensar na resposta a dar à questão, veio-me à memória o terceiro episódio da saga Guerra das Estrelas, intitulado Star Wars: Episode III - Revenge of the Sith (Star Wars: Episódio 3 - A Vingança dos Sith), lançado em 2005. Nessa altura os comentadores de cinema chamavam a atenção para a mensagem do filme que, resumidamente, se ajustava ao seguinte “O regresso das tendências despóticas é sempre possível.”


Voltemos à cidade de hoje. Esta, em termos de paisagem urbana, mostra como grande marca da contemporaneidade, a troca das flores e das árvores que embelezavam as antigas praças (Camões, República, Freiras, Anjo) pela pedra, uma lascada outra com outros preparos. Espalhou-se pedra por todo lado, tendo a jóia da pedra, o rococó desta arte, ex-líbris em frente ao Quartel (RI19). O obelisco colocado, embora pequeno para o que simboliza, tem valor, mas está bordeado de pedras coloridas, Fantástico! Fantasia!


Por outro lado, o que pensar de teimosia patente no “buraco” do Arrabalde, num dos locais mais belos da cidade. Local de postais, de entrada na urbe de Trajano. (Terá data para ser fechado?)!?


Que pensar ainda de teimosias como as que levam erguer a eito pavilhões em terrenos agro-florestais, num ermo, e depois chamar-lhe “parque de localização de empresas” ou outra designação pomposa, mas despejada de verdade. Com o preço da gasolina a aumentar e os ordenados a diminuir já se vê a sorte dos poucos que diariamente lá trabalham! Não veremos todos que a estação de serviço de Vidago, na Auto-Estrada, junta mais camiões a pernoitar num dia do que à área empresarial e o viaduto construído para lhe aceder num ano? Quem não acreditar que passe lá à noite e os conte. Quando se vai recuperar o dinheiro público gasto?


Que pensar …… (Não vou escrever mais, seria maçador. Fica por tua conta, internauta atento, continuares com os exemplos que conheces.)


Temo que estejamos próximo de perverter o primado do interesse geral, se já não aconteceu. Sabemos que a sua perversão é o primado do interesse particular dos governantes que dificultam a própria finalidade da cidade: o <<viver bem>> em conjunto. Bem sabemos que a relação original dos homens entre eles é uma relação conflituosa, que põe em jogo duas paixões fundamentais: a vaidade, ou o desejo de reconhecimento, e o medo da morte violenta.


Não deveria ser diferente?

 

Francisco Chaves de Melo

28
Set12

Uma imagem

 

Para já fica uma imagem flaviense, bem flaviense, da Rua Direita de sempre e pela certa, ou sem qualquer dúvida, uma das ruas mais antigas da cidade de Chaves e que, segundo reza a história,  é direita porque era aquela que ia direita ao coração da cidade. Mas hoje aproveito-me dela para ir direito àquilo que aqui queria anunciar, ou seja, a chegada de um novo colaborador a este blog, que,  mensalmente,  irá por aqui discursar na habitual rúbrica das sextas-feiras dos “Discursos Sobre a Cidade”. O novo discursante dá pelo nome de Francisco Chaves Melo.

 

Até já com o seu primeiro discurso.



27
Set12

O Homem sem Memória (121) - Por João Madureira

 

O Homem Sem Memória

Texto de João Madureira

Blog terçOLHO 

Ficção

 

121 “E de novo tentei. Tentei e tornei a tentar. Agarrei-me ao «Manifesto» como um náufrago a uma tábua. Mas, pelos vistos, a tábua era de ferro. E fui ao fundo. Fui ao fundo e voltei. Ou melhor, ia ao fundo e voltava à tona de vez em quando.


Tentei ler o prefácio à segunda edição russa de 1882. Começava assim: “A primeira edição russa do MPC, na tradução de Bakúnine, foi publicada no princípio dos anos sessenta na tipografia Kolokol (1).”

Pois, lá estavam de novo as notas. E esta dizia: “(1) Em Genebra, em 1869. A tradução de Bakúnine distorcia certos passos; esses erros foram corrigidos na 2ª edição russa, agora da responsabilidade de Plekhánov.” Mas eu não sabia quem era Plekhánov, nem tinha nada ali à mão que me pudesse deslindar o mistério. Mas, mesmo assim, porfiei na leitura: “O Ocidente nessa altura podia ver nela” (na edição russa do “Manifesto”) “uma curiosidade literária (VIII).”


E lá estava inteirinha mais outra nota. Esta, em numeração romana, a avisar-me que era das que se encontravam no fim do livro. E para lá me dirigi com o entusiasmo de, qual Jean Valjean, um condenado às galés. E li com os olhos já pisqueiros: “Também Lenine, durante os anos passados em Samara (1889-1893), escreveu uma tradução russa do «Manifesto» para o círculo marxista local. Passava de mão em mão num caderno manus…”


Fui-me abaixo. Foi de novo tiro e queda. Que tranquilidade. Sono, ressonadelas, ressonadelas, mais sono, mais ressonadelas… Que satisfação. Sono, ressonadelas, mais ressonadelas, mais sono, mais algumas ressonadelas… E lá acordei sarapantado com o choro do meu irmão mais novo que estava com uma amigdalite formidável. Ele a chamar pela mãe e eu a evocar a santa paciência.


Como estava frio no quarto, liguei o aquecedor elétrico de barras, coloquei-o em cima da cama, virado na direção das mãos e do rosto, e lá voltei a tentar mais uma vez ler o “Manifesto”. Passei então ao prefácio da edição alemã de 1883.

 

Mal comecei a ler fiquei imediatamente desconsolado. É que o preâmbulo, da autoria de Engels, que eu tinha abandonado ainda há pouco foi o último escrito e assinado por Marx. Eu transcrevo: “O prefácio à presente edição tem de vir, infelizmente, assinado só por mim. Marx, o homem a quem a classe operária da Europa e da América na sua totalidade deve mais do que qualquer outro – Marx repousa no cemitério de Highgate, e sobre o seu túmulo já cresce a primeira relva. Desde a sua morte (1)”, [nova nota, mas esta era pequenina], e dizia: “Em Março de 1883 deixou de ser possível pensar sequer em refundir ou completar o «Manifesto». Pelo que se torna tanto mais necessário afirmar aqui, expressamente, de novo o seguinte: O pensamento basilar que percorre o «Manifesto» (X)”… E lá estava outra nota.


De novo fui até ao fim do livro e pus-me a ler: “(X) É graças à interpretação materialista da história que”… Pus-me a contar as linhas: 25.


Voltei ao prefácio. Página 37, linha 11… a saber: “que a produção económi”… Olhei para as linhas que restavam até ao fim da página e vi que cinco linhas abaixo estava à minha espera a nota (XI) e quatro linhas depois estava quietinha a nota (XII). Por causa das coisas, fui novamente ao sítio das notas, página 120, e reparei, para mal dos meus pecados, que a nota (XI) preenchia duas páginas de denso texto, e começava assim: “Luta de classes: não pode ser ignorado o facto que nem Marx nem Engels nunca se atribuírem o mérito de haverem sido os”…


Fui à procura da nota (XII). Por norma devia estar depois da (XI). Mas não se encontrava lá. Em seu lugar estava a nota (XIII) que não se achava neste prefácio. Intrigado fui até ao prefácio seguinte, ver se lá se encontrava a nota (XIII). Mas dela nem vestígios. No prefácio seguinte as notas começavam na nota (XIV). Afinal os comunistas também se enganam, sejam eles editores, “prefacistas”, escritores, “notistas”, etc. O problema é que poucos, ou nenhuns, leitores se apercebem destes lapsos. Nem os autores. Ora adivinhem lá por que razão? Ai não adivinham? Então voltemos às notas.


Página 37, linha 11… a saber: “que a produção económi… tem sido… sem ao mesmo tempo… da opressão… e das lutas de… pensamento basilar… a Marx (*).”


E outra nota. Esta de asterisco. “(*) (Nota à edição alemã de 1890) «Já… na minha opinião… a provocar na história o que a teoria de Darwin provocou na biologia. Até que ponto eu tinha progredido por mim próprio em direção a ela… já ele tinha formulado e… quase… a expus.”


E fui-me novamente abaixo. Desabei em cima da almofada. Que tranquilidade. Soninho, ressonadelas, ressonadelas, mais soninho, mais ressonadelas… Que satisfação. Soninho, ressonadelas, mais ressonadelas, mais soninho, mais algumas ressonadelas, mais algum soninho… E lá acordei outra vez sarapantado com o som inquietante do aquecedor que tinha caído ao chão. A minha mãe entrou no quarto inquieta e voltou a sair depois de ver que eu já estava de novo desperto. Disse-me: “Dorme.” Eu respondi-lhe que não podia. Que tinha de ler o livro. Ela respondeu-me que o livro ainda me ia levar à perdição.


Nunca me tinha visto nesta consumição de adormecer sucessivamente ao ler um livro. Eu disse-lhe que este não era um livro qualquer. Ela disse: “Esse é um livro do Demónio. Com esses dois barbudos vermelhos na capa só pode ser comunista. Não sei como te deu para te colares a esses defensores da foice e do martelo. Que coisa feia. Além disso tu sempre detestaste trabalhar. Nunca te vi agarrar numa ferramenta.” “Ó mãe”, disse eu quase a dar-lhe razão, “o trabalho não se resume à prática das tarefas braçais. Ler e escrever também é trabalho. E talvez bem mais importante do que cavar uma terra ou fazer um banco. Ela respondeu-me: “Lérias. Já algum dia viste alguém comer um livro? Ou vestir uma folha de um jornal?” “Ó mãe!”, disse eu. “Ó filho”, disse ela! “Vai-te deitar”, aconselhei-a. “Ó mãe”, chamou no outro quarto o meu irmão mais novo. E lá foi ela. Coloquei de novo o aquecedor na posição inicial e voltei ao «Manifesto». A minha mãe avisou: “Cuidado com o aquecedor.” “Sim, mãe.”


“Prefácio à edição inglesa de 1888. O «Manifesto» foi publicado como plataforma da Liga dos Comu… num congresso… prático e teórico completo do partido (XIV). Nota (XIV), página 123: Diferentemente da informação equivocada de Engels no seu esquisso histórico da Liga dos Comu… Tão pouco é tida por literalmente exata, segundo Engels lia-se no artigo I dos Estatutos… da velha sociedade burguesa assente nos antagonismos de classe… a liga propõe-se libertar… estes e muitos outros materiais… foram editados pelo investigador Bert Andréas: Grundungsdokumente des Kommunisten… Mas ver: Der Bund Kommunisten. Documente und Materialen”… Bum, catrapum. E lá foi o aquecedor de novo para o chão. “José”, chamou a minha mãe. “Sim”, respondi. “Dorme”, ordenou ela. “Senão dás em maluco.” “Só quero terminar este prefácio.” “O quê?” “O prefácio, mãe.” “Dorme.”


Olhei para o livro e lá estava mais uma nota. A (XV). E depois a frase: “Tinham também sido publicadas uma edição dinamarquesa e uma polaca.” E no fim da linha outra nota, a (1), relativa a este prefácio que dizia textualmente: “(1) Ver notas (6) e (8) referentes aos prefácios.” Página 106. “Nota (6): Foi iniciada… Nota (7): A primeira edição russa do «Manifesto» apareceu em Genebra em 1869, numa brochura sem página de rosto (sem indicação dos autores, do tradutor, do lugar e data de publicação).” Voltar à página 39. “A derrota da insurreição parisiense de”… Fui-me abaixo. A queda foi ainda maior. Que tranquilidade. Sono, ressonadelas, ressonadelas, mais sono, mais ressonadelas… Que satisfação. Sono, ressonadelas, mais ressonadelas, mais sono, mais algumas ressonadelas…


Desta vez acordei envolto em fumo, a tossir como o meu pai quando tinha um ataque de catarro de fumador. O aquecedor tinha caído sobre os cobertores e incendiado a cama. Valeu a minha mãe que foi buscar um balde de água e começou a apagar o fogo.


Estava visto, as minhas leituras do «Manifesto» ainda iam acabar mal. Por isso, no dia seguinte dei-lhe uma vista geral e tirei mais uns quantos apontamentos de que vos darei conta a seguir. 


122Resumindo e concluindo: Antes...

 

(continua)

25
Set12

Uma voltinha por Barroso

 

Mais uma vez sem a “Pedra de Toque” vamos até Barroso, hoje, do concelho de Boticas.

 

Alguns lugares por onde temos de passar para cumprir a promessa do S. Sebastião no Couto de Dornelas e nas Alturas do Barroso.



Claro que hoje só ficam algumas aldeias e lugares, começando pela Carreira da Lebre e Rio Beça, Vilarinho Seco que é sempre de visita obrigatória, Gestosa e um bocadinho de monte com a estrada a desenhar-se por entre o penedio.



Agora que a crise se instalou e os senhores de Lisboa não têm jeito, arte e inteligência - se a verdade da crise for por aí, ou que não deixam de se amochar perante os grandes interesses - se for essa a verdade da crise, ou ambas juntas, e que todos já nos começamos a aperceber que a crise veio para durar, aproveitemos para conhecer o que temos à nossa volta.



Claro que para quem gosta do glamour e das luzes das cidades, Barroso não é destino. Agora para quem gosta das coisas primeiras, de um povo ainda nobre e genuíno onde o que parece bem ainda parece bem e o que parece mal, mal parece, e onde as paisagens não se repetem mas antes nos surpreendem, onde a água dos rios ainda é transparente e cristalina, o frio é frio e o calor é quente, onde tudo ainda é possível acontecer, então pela certa vai gostar de descobrir Barroso.



Mas tal como Torga, não se esqueçam de entrar no Barroso cheios de boas intenções e vergonha…

 

“Entro nestas aldeias sagradas a tremer de vergonha. Não por mim que venho cheio de boas intenções, mas por uma civilização de má-fé que nem ao menos lhes dá a simples proteção de as respeitar”


Miguel Torga, in Diário VIII


24
Set12

Intermitências - A Bolha

 

A Bolha

 

Macau é uma bolha imobiliária. Capitalista. Consumista. Superficial. Cultural. Artística. Espiritual. É respirar uma lufada de ar fresco num espaço inquietante. É deixar encandear-se com luzes que apelam à luxúria numa zona sombria. Nessa bolha, parece não haver reclusos e, sem algemas nem amarras, ninguém fica indiferente a um meio que o ameaça constantemente com o anonimato e o esquecimento. O alheio é desconfortável, mas numa bolha efervescente, ninguém fica parado, todos reagem.


Formar bolhas é uma tendência humana que nunca passa de moda. Nem encerrarmo-nos dentro de uma para nos esquecermos de nós próprios. Rotineiramente, se for preciso. Repetitivamente, se for preciso. Tudo para não ter de justificar fraquezas, nem assumir culpas. Não queremos carregar o passado, não suportamos o presente, nem nos julgamos capazes de enfrentar futuros. Alguém que nos tire daqui, por favor, e nos enfie numa bolha, por favor, que ninguém pediu para estar aqui nem para ser coisa nenhuma.


Encerrar-se na bolha de Macau é heróico. Dentro dela, enfrentamos tudo, superamos tudo. Não temos escolha. Não estamos confortáveis e não queremos ser mais um vulto a atravessar a passadeira da indiferença, por isso tentamos esquecer quem fomos e lutamos para não esquecer quem somos. Queremos absolutamente justificar o que abandonamos e saber como e porque fomos parar a essa bolha, que sufoca os costumes e liberta os impossíveis. Procuramos ser mais do que quem somos. Absorver tudo. Não é óbvio. Demora. Às vezes, torna-se mesmo insuportável. E impraticável.


Formar bolhas por esse mundo fora é uma tendência portuguesa que nunca passa de moda. Além de Macau, criamos várias que começaram a efervescer com as aspirinas que as gentes aceitaram tomar para acalmar velhos ressentimentos. Ainda hoje perduram ideias feitas: a bolha angolana é perigosa, mas esconde todo o tipo de “diamantes”; a brasileira sempre brilhou de alegria, mas hoje atiça os “garimpeiros” como se acabasse de ser descoberta; a moçambicana é mãe de todos os que generosamente acolhe e vai aguçando, pouco a pouco, espíritos justiceiros; a são-tomense e a cabo-verdiana são “mornas”, mas recuperam qualquer alma perdida; a timorense ainda é dependente para tanto sonho, mas nela cabe lá qualquer bom coração; a goesa está ao alcance de poucos, não só pela distância, mas pela fraca memória lusa, mas quem porventura lá chega, nunca mais pára de navegar … São bolhas que não querem carregar o passado, não suportam o presente, mas sentem-se capazes de enfrentar um futuro colectivo.



Macau - Largo do Senado - 2008 * Fotografia de Sandra Pereira

Num Portugal ideal, as crianças não teriam viagens de estudo a Fátima ou a Lisboa. Desde a primária e em cada ano lectivo, iriam conhecer uma ex-colónia portuguesa. Desta vez, não partiriam com lágrimas e armas, mas com curiosidade e muitos abraços. Já imaginaram o que aconteceria se a nossa tendência de espreitar o que está para lá do muro do vizinho fosse realmente educada? Largaríamos outra vez amarras, desta vez não para amordaçar e perseguir, mas para desapertar audácias e libertar visionários. O alheio é desconfortável – é inquietante mesmo –, mas numa bolha efervescente, ninguém fica parado, todos reagem.


Encerrar-se na bolha de Portugal é confortável. Dentro dela, vamos cumprindo religiosamente os rituais, fazendo contas à vida, descartando o desconhecido. Não sabemos como fomos parar a essa bolha, nem procuramos saber como lá fomos parar. É assim e pronto. Esquecemos. Consumimos. Ficámos. Não é óbvio. O caminho nem sempre está bem traçado, não conseguimos perder a noção de uma identidade que nos consome por demasiados lados (apesar de muitas tentativas), nem esquecer quem somos ao acordar. Como se não bastasse, estamos constantemente a chocar contra as paredes da predestinada bolha. Às vezes, torna-se mesmo insuportável. E impraticável.


Por mais voltas que se dêem por esse mundo fora, formar bolhas é afinal o oxigénio que precisamos. Diz-se que a vida é composta por ciclos e que por isso há que circular! A bolha também é circular... Nela, tudo gira…. Vidas completas. Confortáveis. Satisfeitas. Conformadas. Ocupadas. Adiadas. Suspensas por tempo indeterminado. Caóticas. Vazias.


Encerrar-se dentro de uma bolha para tentar esquecer quem somos (ou fomos) é uma justa recusa existencial, mas pode ser altamente perigoso, pois corremos o risco de entregar-nos a tudo… Tanto ao amor como aos vícios. Mas é o único remédio, e para uma maior eficácia, o recomendável é manter a bolha sempre efervescente.

 

Sandra Pereira

24
Set12

Quem conta um ponto... Pérolas e diamantes (4): a utilidade das catástrofes



Pérolas e diamantes (4): a utilidade das catástrofes

 

Machado de Assis, no seu livro “Quincas Borba”, referindo-se a uma epidemia que evitou um casamento, conclui que “as catástrofes são úteis, e até necessárias”. E ilustra a sua tirada filosófica com um pequeno conto que, à sua imagem e semelhança, “aqui lhes dou em duas linhas”.

 

“Era uma vez uma choupana que ardia na estrada; a dona, um triste molambo de mulher, chorava o seu desastre, a poucos passos, sentada no chão. Senão quando, indo a passar um homem ébrio, viu o incêndio, viu a mulher, perguntou-lhe se a casa era dela. – É minha, sim, meu senhor; é tudo o que eu possuía neste mundo. – Dá-me licença que acenda ali o meu charuto?”

 

De facto, pegando agora no que aqui nos trouxe, o nosso primeiro-ministro nem sequer precisa de estar embriagado para acender o seu charuto nas misérias do nosso próprio casebre. É mesmo sóbrio que assim age, falando mal e depressa, atrapalhando-se na sua ânsia de capataz da troika, tentando mostrar que é mesmo homem para ser ainda mais duro do que os duros e mais insensível que os insensíveis.

 

Ninguém, “no seu juízo perfeito, faz render o mal dos outros”, como bem escreve Machado de Assis. “Não contando o respeito que aquele bêbado tinha ao princípio da propriedade, a ponto de não acender o charuto sem pedir licença à dona das ruínas.” Tudo isto é uma ideia consoladora, pelo menos na cabeça de Pedro Passos Coelho.

 

Já todos percebemos que, para mal dos nossos pecados, este governo que nos desgoverna, fá-lo conscientemente através do medo, da chantagem e da coação verbal e económica. A contenção, a austeridade, a pressão institucional, o confronto com o Tribunal Constitucional e a ameaça permanente de que isto ainda pode vir a piorar, é tão intensa que começa a ser insustentável.

 

Há um provérbio chinês que diz: “Usa o poder que tens. Se não o usares, ele prescreve.” Mas não pode ser lido de forma literal, senão dá barraca. De facto, parece que o poder da ignorância, da estupidez e da boçalidade nunca prescrevem. Paulo Francis tinha razão: a estupidez, a ignorância e a boçalidade ainda são as maiores multinacionais do mundo.

 

Além disso, o poder exercido de forma autista, cega e arrogante, é uma insensatez. Ao que parece, o nosso primeiro-ministro pouco se importa com o facto. Ungido pela maioria absoluta que o sustenta, colocou-se no seu pedestal e aí vai disto.

 

Ele e o seu ministro das finanças são apenas uns paus mandados da troika. São os seus homens da Regisconta, ou melhor, são os cobradores do fraque, que em troca de uma mão cheia de euros, esmifram o devedor até o deixarem exangue.

 

Do nosso lado, alguns ainda lhe invejam o poder, porque vivem na ilusão de que ele, o Passos, é um chefe verdadeiro. Acreditam, erradamente, que o senhor está acima das nossas misérias e inseguranças. Mas, afinal, não está. Antes pelo contrário. O sujeito, deslumbrado pelo poder, pela sua leitura messiânica, vive soterrado pela permanente angústia de o perder.

 

Nas finanças se consome, o homem, e nem consegue falar direito. Atrapalha-se, gagueja e hesita. Como muito bem lembra Michele Apicella no filme “Palombella Rossa”, de Nanni Moretti, “quem fala mal, pensa mal”. E ele, o nosso aflito e gaguejante primeiro, já não consegue encontrar as palavras adequadas. A quem exerce o poder, as palavras – as palavras certas – são as ferramentas que podem apontar o Norte.  

 

Podemos ser levados a pensar que tudo apenas não passa de um problema de comunicação. Mas esta crise não é senão uma crise política. E são os problemas políticos, que este governo não sabe nem quer despachar, que estão por resolver. É isso que Pedro Passos Coelho é incapaz de compreender.

 

Os problemas políticos que não se resolvem tornam-se incomunicáveis. Em política, a força das palavras é decisiva. E as palavras escolhidas por Passos Coelho são de resignação e desespero. Ele não acredita nos portugueses. Ele apenas crê nos números que a troika lhe fornece.

 

O nosso primeiro é a principal vítima da folha de Excel do seu ministro das finanças, que nem sequer é do próprio, mas antes do seu congénere alemão, a quem ele presta vassalagem como um vulgar serviçal. 

 

Desconfio que o nosso primeiro é homem para, à boa maneira de mais uma personagem do livro de Machado de Assis, gostar de Otello, a ópera em quatro atos do compositor italiano Giuseppe Verdi (com libreto de Arrigo Boito, baseado na peça “Othello, the Moor of Venice”, de Shakespeare) e como espectador se regalar das paixões de Otelo e sair do teatro com as mãos limpas da morte de Desdémona, mas assobiando risonho “Nini”, a medíocre cançoneta de Paulo de Carvalho.

 

Pedro Passos Coelho, na sua terrível teimosia de correr tudo a impostos, devia pensar duas vezes na realidade do râguebi, pois quando se começa a correr muito, logo vem alguém que nos faz uma placagem. E ele já foi placado exemplarmente pelo Tribunal Constitucional e pelo povo nas ruas.

 

Talvez também sonhe, ao jeito saudoso do eficaz ditador de Santa Comba, com que a maioria de nós volte para as aldeias cultivar as parcas leiras, dormindo com as galinhas e acordando com os galos por não conseguirmos pagar a fatura da EDP, nem o petróleo do candeeiro de campânula.

 

Estes que agora dizem que nos governam não são gente séria, são gentalha insensível. Estão para o povo como o fardo de palha está para o pão.

 

Pedro Passos Coelho e os seus Relvas, Cratos, Vítores e Chicos, agarraram a triste sina dos desprezíveis: Estão para nunca mais estarem, ficam agora para nunca mais ficarem.

 

Os nossos desejos são de que a História lhes seja leve. E o seu destino político breve. Para bem de todos. E até o deles próprios.

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