Discursos Sobre a Cidade - Por José Carlos Barros
Ainda a Feira dos Santos
texto de José Carlos Barros
Não fui à Feira dos Santos. No ano passado também não fui à Feira dos Santos. E, de súbito, é como se a Feira dos Santos começasse a emergir de um lugar concreto e ausente, afastado e próximo, volátil e efémero. É como se a Feira dos Santos, não mais que de repente, passasse a reverter apenas da memória ou da imagem de névoa que traz de longe os objectos que se perderam ou adquiriram um uso diferente.
Este ano não fui à Feira dos Santos. Não vi os ferros espetados nos passeios nem as espias das tendas da Feira dos Santos. Não vi a confusão de gente subindo e descendo as ruas. Não vi as samarras nem o preço dos tachos e das panelas desenhado, às vezes trémulo, às vezes em gótico, num pedaço de cartão canelado. Talvez a Feira dos Santos há muito, em mim, tenha passado a ser apenas o que por um esforço de memória lhe pertence.
Lembro-me: a taberna ficava quase no fundo da aldeia. Na fotografia o boi barroso tinha as fitas vermelhas dos enfeites e numa estante exibia-se o troféu. Era nas Lavradas. Bebíamos vinho numa tarde de Novembro que deixava lá fora o frio das navalhas poisado nas pedras e comemorávamos e falávamos do prémio com o orgulho (a que outros chamam vaidade) de quem vence um prémio na Feira dos Santos.
Lembro-me: rendia-me, fascinado, a olhar a geometria do entrançado quase mágico das varas dos castinçais e a adivinhar a honra do meu avô (isso a que outros chamam vaidade) ao ouvir toda a gente a gabar essa sua arte inimitável. Mas uma vez, na Feira dos Santos, o meu avô viu as mais perfeitas e arrumadas varas. Primeiro não queria acreditar. Depois ficou a conversar com o artesão. Começou logo a chamar-lhe mestre. Partilharam segredos, revelações. E o meu avô, na feira dos Santos, comprou um cesto de carvalho ao artesão da aldeia de Lousa, Torre de Moncorvo. Durante muitos anos, na vindima, era esse o cesto que recebia, num ritual, as primeiras uvas. E o meu avô, invariavelmente, dizia: "Este cesto foi feito pelo José Pulgas. Nunca vi ninguém tão perfeito na arte. Conheci-o na Feira dos Santos".
Como dizer, pois, que este ano não fui à Feira dos Santos? Como dizer que também no ano passado não fui à Feira dos Santos? Eu vou sempre à Feira dos Santos. Eu fui todos os anos à Feira dos Santos.
Juro pela jukebox do Tabolado que estive sempre na Feira dos Santos mesmo nos anos, ou sobretudo nesses anos, em que lá não fui.



