Quem conta um ponto...
Pérolas e diamantes (14): o jogo das cadeiras ou quem verdadeiramente defende o Tribunal de Chaves
No momento em que começo a escrevinhar esta crónica ainda tenho na boca o delicioso sabor da “tortulhada” (ó desculpem lá!, o paladar dos especiais “tricholoma esquestre” e “tricholoma terreum” cozinhados com a suculenta e vermelha carne de vitela dos lameiros do barroso) que eu e a Luzia cozinhámos com muita paciência e algum engenho.
Afirmar que cozinhámos é uma maneira de dizer, uma forma não intrusiva de faltar à verdade, mesmo não mentindo porque eu na cozinha sou como os políticos: sorrio, digo meia dúzia de lugares comuns, dou uma dúzia de conselhos inócuos para me sentir útil e o resto fica por conta e risco… da Luzia. Por vezes levanto o testo da panela, cheiro o suave aroma do cozinhado, acrescento um ou outro condimento, tapo a panela e digo o inevitável: Cheira maravilhosamente. Já tenho água na boca. Já me estão a saber os tortulhos… os “tricholomas”. E rimo-nos. Eu com a minha cara de transmontano azedo e a Luzia com o seu sorriso lindo.
Toda esta prosa me fez voltar a José Miranda, o tal senhor que apanhou uma roca (ó desculpem, uma “macrolepiota procera”) com quilo e meio. De facto, o barrosão de Ferral é um homem predestinado a encontrar coisas grandes. Há cerca de um ano descobriu nabos com cerca de 3 quilos cada um. E até os meteu no facebook, que também é local de muitos e bons nabos. Só que não tiveram a publicidade que estão a ter as “macrolepiotas proceras”. Pudera, os nabos abundam por toda a província transmontana. Já as “macrolepiotas” são cada vez mais raras.
Podemos dizer, e sem exageros, que nabos somos quase todos nós, os cidadãos comuns que ocupam os campos e as ruas. Já as “macrolepiotas proceras” tendem a ocupar as cadeiras do poder. Mas agora há por aí um quarteto de presidentes de Câmara que, por força da lei (ó lei, maldita lei, a quanto obrigas!), vão ser obrigados a deixar a cadeira que presentemente ocupam.
E eu olhava para estes senhores e punha-me a pensar no que iriam fazer fora da política. É que muitos deles, por força da lei (ó lei, maldita lei, a quanto obrigas!), ainda não se podem reformar porque o tempo de serviço enquanto autarcas deixou de poder ser contado a dobrar. Por isso eu olhava para eles e punha-me a pensar no que iriam fazer estes distintos senhores fora da política. Pois foram feitos nela e sem ela deixam de ser as tais “macrolepiotas proceras” de quilo e meio para passarem a ser nabos, mesmo que dos taludos, tal e qual como eu ou até como o estimado leitor. Apesar de nós sermos nabos bem mais pequenos e insignificantes.
Convenhamos que passar de “macrolepiota procera” a nabo, mesmo que dos taludos, não é lá muito lisonjeiro, nem muito cómodo. Pois lá se vai a canseira do poder, o insignificante ordenado, a miséria das ajudas de custo e todas as demais prebendas que mais não são do que outras tantas arrelias e canseiras. Quando não são pretextos para serem criticados pelos chatos do costume que escrevem nos jornais, nos blogs ou no facebook.
Mas objetivemos. Então lá vai a objetivação, com devida anuência dos leitores e também dos estimados autarcas. Que eu me lembre, no PSD existem quatro presidentes que vão ter de deixar de o ser por força da lei (ó lei, maldita lei, a quanto obrigas!). São eles: Francisco Tavares, de Valpaços; Fernando Campos, de Boticas; Domingos Dias, de Vila Pouca de Aguiar; e João Batista, de Chaves.
Disseram-me que um manifestou intimamente vontade de se candidatar à Câmara de Chaves e outro manifestou publicamente essa mesma intenção. Sei ainda que um deles é candidato a presidente da Comissão Política Distrital de Vila Real e também sei que o quarto elemento do quadrunvirato não sabe bem para onde se há de virar. Ou se calhar sabe mas não diz.
Postas as coisas neste pé, eu dava voltas e voltas à cabeça para atinar com o futuro desta gente. Pois não os estou a ver a definhar em casa frente ao televisor ou a humilharem-se a regressar aos empregos pardacentos que ocupavam antes de entrarem para a política. E tantas voltas dei que descobri a resposta. Encontrei-a escarrapachada nas páginas do “Expresso”.
Ou seja, o Miguel Relvas, o inenarrável Relvas, o inigualável Relvas, o homem do aparelho social-democrata, sabendo que muitos dos seus velhos amigos iam ter um final de carreira política infeliz e cinzento, resolveu encontrar uma maneira de, pelo menos, não mandar toda esta gente para casa ou para o antigo emprego.
E no que é que pensou? Pois num cargo que fosse quase a mesmo coisa que presidente da Câmara mas sem a chatice de eleições diretas. Ou seja, o inigualável e inenarrável Relvas resolveu arranjar bons jobs para os ex-autarcas. Por isso vai criar uma nova classe de dirigentes a nível intermunicipal, que são os antigos presidentes de Câmara.
E o processo está tão adiantado que a proposta de lei que consagra o regime de entidades intermunicipais até já foi aprovada pelo Governo. Este será um novo nível da Administração Púbica que fará nascer mais de cem tachos (ó desculpem), mais de um cento de cargos dirigentes, e todos mal remunerados.
Ou seja, à frente de cada comissão metropolitana intermunicipal vai ser colocado um primeiro-secretário com o salário de um presidente de Câmara, cerca de 4000 euros ilíquidos. Isto fora as miseráveis ajudas de custo, os gastos de representação, a viatura, ou viaturas, do Estado ao dispor, etc., etc. e etc.
Resumindo e concluindo: o primeiro-secretário fica a ganhar mais do que, por exemplo, um deputado.
Mas a história não acaba aqui. É que a tal estrutura intermunicipal vai ter outros membros que serão equiparados, e gratificados, como vereadores a tempo inteiro.
Ou seja, a tal comissão executiva intermunicipal vai ser uma espécie de Câmara constituída por ex-presidentes com o respetivo chefe e restantes vereadores. É um fato talhado à medida dos autarcas que por força da lei (ó lei, maldita lei, a quanto obrigas!), estão impedidos de concorrer nas eleições autárquicas de 2013 por limitação de mandatos.
Isto numa altura em que se fala de racionalização de despesa, contenção de gastos, de austeridade, de cortar nas gorduras, de acabar com organismos de Estado, entre outras coisas. Bem prega Frei Tomás…
Se os estimados leitores acompanharam os meus escritos, entenderão agora a ameaça velada de Fernando Campos se candidatar à Câmara de Chaves, de Francisco Tavares continuar a sorrir e a dizer que está aí para as curvas, de Domingos Dias se candidatar à distrital e de João Batista estar caladinho que nem um rato. É que afinal anda tudo a lutar pela sobrevivência. E não ando longe da verdade se disser que é de entre este quarteto laranja que sairá o próximo primeiro-secretário da comissão executiva do Alto-Tâmega e Barroso. Isto se as eleições autárquicas não correrem mal ao PSD.
Até lá muita água vai correr debaixo das pontes. Mas é bonito de observar este jogo do empurra entre companheiros do mesmo partido que se desunham para virem a sentar-se na única cadeira vaga que ainda resta para que não fiquem para aí ao abandono nas prateleiras do partido a criar mofo.
Mas uma coisa é certa, a luta já começou. Basta ler as palavras ditas aos semanários locais por João Batista e Fernando Campos sobre a sensível e polémica questão dos tribunais, especialmente do Tribunal de Chaves, para chegarmos a essa conclusão.
João Batista, enquanto presidente do Conselho Executivo da Comunidade Intermunicipal de Trás-os-Montes (veem como tudo começa a fazer sentido) pediu ao Estado para ser “mais amigo dos cidadãos”, apelando, por entre sorrisos e palavras de circunstância, dando uma no cravo e outra na ferradura, como é seu timbre e feitio, para, (por favor, por favor, caro Pedro Passos Coelho, caro Miguel Relvas) não desqualificar os vários tribunais da nossa região. Pedindo, gemendo, suplicando, rogando, implorando, solicitando para que fechem os olhos à sua teimosia de acabar primeiro com o Interior para de seguida fechar o país para balanço.
Está visto, o plano de João Batista passa por não fazer ondas. Como homem de bastidores e de aparelho, aposta numa estratégia de águas mornas, pensando mais no cargo do que nos direitos inabaláveis das populações que devia defender sem ser vítima da estratégia do poder pelo poder, pensando que tem mais apoio partidário do que os adversários, que é um homem de consensos e que o seu sorriso é meio caminho andado para a resolução dos problemas. Enfim, apostando no sim e… nas sopas.
Já Fernando Campos, homem desassombrado, de personalidade mais populista, política e socialmente corajoso, mantém a sua postura de frontalidade. Por isso, em relação ao mesmo problema dos Tribunais, nomeadamente do Tribunal de Chaves, acusa a ministra da Justiça de não estar de boa-fé no processo. E denunciou a vergonha de mesmo ainda estando a decorrer o “processo negocial” já terem conhecimento de que o Ministério da Justiça está a tentar alugar instalações em Vila Real para aí instalar muitos dos serviços que pertenciam à Comarca de Chaves.
Considera que “a desqualificação dos serviços de Chaves é muito mais gravosa porque abrange muito mais gente do que o encerramento do Tribunal de Boticas”. Por isso apelou à mobilização da população porque tal atitude persecutória é, manifestamente, uma tremenda injustiça.
Ou seja, enquanto o presidente da autarquia flaviense pede desculpa por ser presidente de um concelho que tem manifestado indignação pela política do Governo em relação a Chaves, nomeadamente do Tribunal e do Hospital, o de Boticas vai à luta e, sem papas na língua, diz aquilo que todos sentimos. Afirma-se líder. Parece que o presidente da autarquia de Chaves é Fernando Campos. O que fica muito mal a quem ainda dirige os destinos do nosso concelho. Isto pelo menos é o que parece. E todos sabemos que em política tudo o que parece é.
É por estas e por outras que os autarcas em fim de mandato andam ao mesmo tempo a esfregar as mãos e a afiar as garras. Que sejam bem-sucedidos e felizes é o que daqui lhes desejamos.
João Madureira
PS1 – Ouvindo os nossos sentidos apelos, João Batista, o ainda senhor presidente da Câmara de Chaves, resolveu finalmente aparecer nos jornais. E fê-lo numa pequena fotografia que vinha a ilustrar uma notícia sobre o magusto de São Martinho no Lar de Travancas. O nosso amigo com uma cajadada apenas (pois estamos em crise, é bom que não esqueçamos) matou dois coelhos, porquanto também se juntou à festa de aniversário comemorativa dos 76 anos do senhor Padre Delmino Fontoura. De anoraque, e sem gravata, apenas munido do seu sorriso protocolar, João Batista alegrou e fez alegrar os presentes.
Sensibilizados por se ter dignado aparecer, desde já lhe enviamos os nossos mais sinceros cumprimentos. No entanto não queremos deixar de lhe comunicar que não era necessário pôr tanta qualidade e tão subido empenho na cerimónia escolhida.
PS2 – Não podemos acabar esta crónica sem enviarmos desde aqui as nossas mais sinceras congratulações pelo facto de António Cabeleira ter sido o escolhido pelo PSD para ser o seu candidato ao honroso cargo de presidente da nossa autarquia. Uma coisa podem desde já ficar a saber os flavienses: se o PSD perder a Câmara de Chaves, a culpa não é de António Cabeleira, mas do PSD. E mais não podemos dizer por causa da fonte que nos passou esta sensível informação. De facto o homem tem feito tudo, mas mesmo tudo, para acabar com a oposição interna, mas os seus esforços, até à data, não têm sido coroados de êxito. Mas a procissão ainda só vai no adro.





