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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

28
Fev13

O Homem Sem Memória - 142

 

O Homem Sem Memória

Texto de João Madureira

Blog terçOLHO 

Ficção

 

142 - O texto do, ainda, para todos os efeitos, camarada pioneiro Miguel rezava assim (versão ortograficamente muito corrigida pelo camarada professor): Eu quando for grande quero continuar a lutar contra o camarada pioneiro João e contra o camarada pioneiro Luís – se é que esses dois são verdadeiros camaradas –, e ter do meu lado a camarada pioneira Lídia. Nada mais me interessa. Ou quase. Eu sei que nasci para lutar e vencer e também sei que eles os dois nasceram para lutar e perder. Mesmo com ajuda, como é o caso da atitude do camarada professor que sempre os escolhe para dirigir seja o que for nesta escola. O camarada professor, desculpe que lho diga, tem-lhes é medo. Não é bem medo deles mas sim dos seus pais. Eu até o compreendo, camarada professor, mas deixe que lhe diga que não aprecio a sua atitude. O camarada professor José pode até ter medo deles. Isso é lá consigo. Cada um tem os medos que merece e sabe as linhas com que se cose. Mas eu não tenho medo, nem deles, nem dos pais deles, nem dos avós deles, nem dos tios deles, nem dos primos deles. Eles são uns perdedores. E desde já lhe digo uma coisa, o socialismo nunca triunfará em Portugal se aqueles dois estiverem do lado da revolução. Porque eles, volto a repetir, são uns perdedores. E também porque eu não gosto deles. Se eles estiverem do lado da revolução eu estarei do lado da reação e eles perderão e a revolução perderá e o camarada professor José também perderá se estiver do seu lado. Fuja deles, camarada professor, pois ao seu lado só lhe resta a derrota, a vergonha e o fuzilamento. Para lhe ser simpático, até porque o camarada professor José é simpático para comigo, pelo menos quando os camaradas pioneiros João e Luís – se é que esses dois são verdadeiros camaradas –, não estão por perto, eu até gostava de estar do lado das tropas revolucionárias, mas isso apenas no caso dos camaradas pioneiros Luís e João – se é que esses dois são verdadeiros camaradas –, estarem do lado oposto. Mas como sei que isso é praticamente impossível, só vislumbro uma saída: o triunfo da reação e a derrota do Partido Comunista. Não há outra saída, pois eles são uns perdedores. Comigo perdem sempre. E em tudo. Até no jogo de ver quem mija mais alto ou mais distante. Eu apenas me rio e olho para eles. Eles limitam-se a ir para longe de mim chorar. Eles choram muito. E quase sempre de raiva. A mim têm-me uma raiva de morte. Eles tentam todos os jogos para ver se me vencem. Além de tentarem a artimanha de cá na escola me porem do lado da reação para o camarada professor me obrigar a perder. Eles utilizam as mais variadas estratégias para me iludirem, pensando que, por eu ser filho de um trolha, me enganam. Mas são eles que se enganam. Porque o meu pai pode ser trolha, mas eu não sou. O meu pai pode ser burro, mas eu não sou. O meu pai pode ser bêbado, mas eu não sou. O meu pai pode ser comunista mas eu não… O meu pai pode bater na minha mãe e tratá-la mal, mas eu não bato nem trato mal a Lídia. O meu pai pode ser vencido nas discussões políticas e partidárias, mas eu nunca perco uma discussão, seja ela política, futebolística ou lá o que for. Quando me faltam os argumentos, olho bem nos olhos do adversário e digo-lhe que ou se cala ou lhe vou aos cornos. Se for avisado, normalmente cala-se, se não for pior para ele pois é certo e sabido que vai parar ao hospital para tratar dos ferimentos. Os camaradas pioneiros João e Luís – se é que esses dois são verdadeiros camaradas –, já tentaram várias artimanhas para ver se me davam a volta. Já me colocaram de chefe índio e eles de soldados do Sétimo de Cavalaria e perderam. Já me colocaram de cobói ladrão de gado com a cabeça a prémio e foram eles que foram parar à cadeia e depois à forca. E só não os enforquei num pinheiro alto porque a camarada pioneira Lídia mo implorou banhada em lágrimas. Ela que raramente chora. A camarada pioneira disse-me que me dava tudo o que eu quisesse. E eu perguntei: “Tudo, tudo?” Ela disse que sim. “Mas tudo, tudo mesmo?”, insisti na pergunta. Ela disse que sim pela segunda vez. Então dei-lhe um beijo e a camarada pioneira Lídia disse-me que o resto ficava para depois. Eu, um pouco a contragosto, concordei. E concordei porque gosto dela e sei que ela cumpre as promessas. Eles, os tais camaradas pioneiros perdedores, ainda tentaram uma outra estratégia, esta bem malvada, a de me porem do lado dos nazis. Eu, para lhes provar que lhes ganho sempre independentemente do lado em que esteja, aceitei o desaforo. E o desafio. Mas, mesmo contra a minha vontade, voltei a ganhar-lhes. O instinto foi mais forte que a inteligência. Esta foi a vez que mais me custou. Ou melhor, esta foi a única vez em que não senti orgulho em vencê-los. Mas fiz das tripas coração e venci-os como sempre. Cada um é para o que nasce. E eu nasci para lutar contra os camaradas pioneiros João e Luís – se é que esses dois são verdadeiros camaradas –, e vencê-los indefinidamente. Eles experimentaram mesmo o xadrez, mas nem nisso me venceram. Camarada professor José, antes de terminar este texto, vou-lhe contar um segredo: hoje é o último dia que venho à escola de pioneiros, pois o meu pai vai sair do Partido. Vai inscrever-se no verdadeiro Partido Comunista: o Reconstruído. Um partido com muitos menos militantes mas com muito mais fundamento. Eles detestam os revisionistas, chamam-lhes até sociais-fascistas. O meu pai foi convidado para dirigente da classe operária. Ele aqui no Partido é apenas um militante de base. É apenas mais um operário. Lá vai ser dirigente. Foi para isso que foi convidado: para dirigir a classe operária de Névoa e arredores. Esse tal Partido Comunista Reconstruido é pequenino, quase com o mesmo número de militantes pioneiros que existem nesta escola. Mas tamanho não é qualidade. A maioria são estudantes, acompanhados por meia dúzia de professores, um bancário e agora um trolha, o meu pai, que é a modos como um dirigente proletário de raiz operária e camponesa, pois os meus avós são agricultores pobres como Jó, mas o meu pai já chegou a trolha de primeira. A minha mãe disse ao meu pai que o que eles querem é gozar com ele, pois não entende, nem acredita, que os filhos dos burgueses de Névoa sejam comunistas, reconstruídos ou não, e muito menos que o queiram para dirigente. “Eles querem é gozar contigo, como gozam no Jardim das Freiras com os bêbados e os tresloucados”, disse-lhe ontem à noite a minha mãe antes de se ir deitar para não levar um par de bofetadas, pois o meu pai já estava tão bêbado que não conseguia levantar-se do banco, se não tombava no chão como um saco de batatas. O meu pai contou-me então o que lhe estou agora a contar, mas disse-me para guardar segredo. Mas eu ao camarada professor José não tenho receio em lhe contar o que lhe estou a contar pois sei que é de confiança e um homem de palavra, tal e qual a camarada Lídia. Agora posso finalmente dar largas ao meu instinto ganhador sem problemas ideológicos. Não é que isso me interesse, mas a partir de amanhã vou poder ganhar aos camaradas pioneiros revisionistas e sociais-fascistas do lado da revolução e dos verdadeiros revolucionários. Esses camaradas pioneiros merdosos, e medrosos, que se cuidem. O camarada Miguel Che Guevara Estaline vai fazer a revolução total contra os traidores revisionistas e sociais-fascistas ao lado dos comunistas reconstruídos, os verdadeiros defensores da classe operária. Eu até pensei em convidar a Lídia a entrar na clandestinidade e a inscrever-se no Partido Comunista Reconstruído, mas ela disse-me que não podia. Os seus pais iam morrer de desgosto e de vergonha. Eu não insisti. Gostar de uma pessoa tem destas coisas: o respeito. Pensei ainda em convidar o camarada professor José para dirigir a escola de pioneiros comunistas reconstruídos, mas logo desisti porque sei que a militância dos comunistas reconstruídos apenas possui um descendente, que sou eu. Espero que me perdoe, mas quando formos mais, eu vou à sua procura para lhe renovar o convite. Até lá, um grande abraço solidário. E solitário também. Não se esqueça que mais vale só que mal acompanhado.

 

143 – A escola de pioneiros acabou no dia seguinte. E, por incrível que possa parecer, ...

 

(Continua)

 

26
Fev13

Intermitências

 

O Extraordinário

 

Notícia de última hora: “…Após a explosão, ouviu-se como pedras a cair do céu, ou tiros. A terra tremeu (…) No momento em que o céu se abriu, um vento quente, como saído da boca de um canhão, soprou na aldeia…”. Este é o testemunho de uma das 1200 pessoas que ficaram feridas depois de um meteoro de 10 a 40 toneladas se ter desintegrado na atmosfera, despejando meteoritos na região dos Urais, na Rússia”.


Aconteceu alguma coisa num lugar. Sorte ou azar de quem lá estava. Sabiam eles que cada coisa está ligada a um lugar? Estariam lá se o soubessem? A maioria lamenta, diz que aconteceu alguma coisa extraordinária, mas não encaixou num lugar. É essa a preocupação que se transforma em culpa, depois em mágoa, e finalmente em desgosto.


Notícia de última hora : “É para muita gente uma visão de pesadelo a imagem captada por um jovem, que fotografou milhares de aranhas em levitação no ar em Santo Antonio da Platina, no sul do Brasil. Na verdade, estas espécies que costumam caçar insectos em grupo estavam suspensas em teias que armaram entre postes eléctricos e árvores no meio da rua”.


Aconteceu alguma coisa num lugar. Só isso basta para ser extraordinário. E se existem tantas coisas em tantos lugares, onde deve ser procurada a ligação entre ambos? Na busca da correspondência mais matematicamente harmoniosa, ou cientificamente milagrosa, a maioria desiste facilmente e insiste apenas na mesma coisa, ou no mesmo lugar. E depois lamenta, diz que aconteceu alguma coisa extraordinária, mas não encaixou num lugar. Ou diz que não aconteceu nada, mas que está no lugar certo, à espera do extraordinário. É essa a preocupação que se transforma em culpa, depois em mágoa, e finalmente em desgosto.


Notícia de última hora: “Vítima de uma patologia rara que danificou o centro de detecção do perigo no seu cérebro, uma mulher de 46 anos que nunca sentiu medo está a fascinar uma equipa de neurocientistas, que tenta o tudo por tudo para a assustar. Após várias tentativas, conseguiram finalmente fazê-la entrar em pânico ao administrar-lhe, através de uma máscara, um gaz com 35% de dióxido de carbono, uma taxa 900 vezes superior à da atmosfera. O acto de tentar retirar a máscara foi um instinto de sobrevivência que ela nunca tivera, nem mesmo quando foi ameaçada de morte com uma faca no pescoço”.




Aconteceu alguma coisa num lugar. Pode até nem ser nada de relevante. Se for extraordinário, é fácil identificar: ou fascina, ou assusta. Dois extremos, duas opções, aproximem-se ou afastem-se do perigo. Pior é ficar paralisado e deixar-se sufocar por essa coisa, por esse lugar. É essa a preocupação que se transforma em culpa, depois em mágoa, e finalmente em desgosto.


Notícia de última hora: “Bento XVI renuncia continuar a ser Papa e vai optar por uma vida de isolamento do mundo. Antes dele, quase 600 anos antes, só um Papa tinha renunciado ao poder e à autoridade máxima perante milhões de fiéis. O porta-voz do Vaticano não soube explicar ao certo como as pessoas devem passar a chamar o papa aposentado e também não sabe ainda como será a sua nova vestimenta: branca, usada por papas, vermelha, por cardeais, ou simplesmente preta, usada por padres”.


Aconteceu alguma coisa num lugar. O extraordinário é muitas vezes confundido com loucura. A maioria pensa que sim, que a paz só pode ser loucura. A maioria lamenta, diz que aconteceu alguma coisa, realmente extraordinária, mas não encaixou num lugar decente. No fundo, todos sabem, o extraordinário acaba sempre em dois extremos, a ilusão ou a cobardia. Falsamente inocente, a maioria diz que ainda acredita, que haverá um lugar onde, misteriosamente interligados, acontecerá uma coisa extraordinária, ambos em perfeita sintonia com o que se espera deste mundo. É indiferente que esse lugar seja vasto ou longínquo, próximo ou permanente. O problema é sempre o mesmo: nós, a maioria.

 

Sandra Pereira

 

25
Fev13

Quem conta um ponto...

 

Pérolas e diamantes (26): obsessões

 

 

Enquanto fotografo a Rua Direita, situada bem no centro da minha cidade em ruínas, fixo-me no meu rosto refletido nos vidros das montras das lojas vazias e abandonadas e reparo na minha cara triste e magoada. Penso: Tenho a cara de feição com os tempos que correm. E tento sorrir, mas até o sorriso me sai triste.

 

Penso de seguida, e por um momento, nos homens que dizem que a governam e fico impressionado com tanta palavra vã e com tanto sorriso tonto. Eu sei que o hábito faz o monge, que a sela faz o cavalo, mas não sei se um fato e uma ambição desmedida fazem um bom presidente de câmara.

 

Obsessões, dirão uns, mas eu contraponho que não é por uma mentira ser muitas vezes repetida que passa a ser verdade. E o alardeado progresso dos últimos dez anos de gestão autárquica não passa disso mesmo, de uma mentira constantemente repetida, por muito que se afirme o contrário.

 

E os argumentos que se invocam são tão desfasados da realidade que chegam a ser confrangedores. E olhem que não é por evidenciarem um simplismo aflitivo. Não. O problema está mesmo na sua total falta à verdade. É claro que, como muito bem lembra António Aleixo: «P'ra mentira ser segura / e atingir profundidade / tem de trazer à mistura / qualquer coisa de verdade.»

 

Se tivessem existido políticas de desenvolvimento e progresso, o coração da nossa cidade não estava a cair aos pedaços, o hospital não se tinha transformado num mero centro de saúde, o tribunal não se tinha transfigurado num “juízo de paz” para brincar à justiça, nem os nossos jovens tinham rumado a outras terras à procura de um futuro que a sua lhe nega.

 

Sim, reconheço, essas são as minhas obsessões. Mas a maior é Chaves e a sua defesa intransigente. Essa é a minha obsessão de décadas. Por isso é que continuo a falar de coisas incómodas e de pessoas importantes. Importantes, é bom dizê-lo, no cargo que exercem, mas quase insignificantes na qualidade do seu desempenho.

 

Obsessivos são esses senhores que não querem largar o poder, que se agarram a ele como lapas, que utilizam todas as estratégias para calar e silenciar as vozes incómodas. Esses sim, são obsessivos e a sua obsessão destrói. Destrói casas, ruas, centros históricos, hospitais, tribunais e, o que ainda é mais grave, destrói o futuro e a esperança. Destrói a nossa juventude.

 

E fazem-no porque em vez de tentar compreender e dialogar com os cidadãos do seu concelho e de aproveitarem o saber dos mais capazes e sérios para defenderem a causa pública, são apenas bons a utilizar o trunfo de saber de cor o nome e a morada de todos os militantes e respetivos cônjuges e filhos, a quem, de vez em quando, fazem favores ou arranjam empregos para compensar a militância partidária. Por isso é que não existem na nossa terra associações ou instituições públicas que não sejam controladas por militantes, ou simpatizantes, do PSD. Uma mão chega, e sobra, para enumerar as honrosas exceções.

 

A política, para ser nobre e justa, tem de se basear na defesa de ideais e convicções e não ter um pé na demagogia e outro no arranjismo. Por isso é que os portugueses acham que quem vai para a política vai para fazer o mal e não para fazer o bem.

 

Eu ainda sou do tempo em que quando um homem tomava uma decisão nem duas juntas de bois o demoviam da sua intenção. E lembro-me bem que as pessoas lutavam por um argumento imparcial e não por um tacho ou prebendas. Antigamente os homens justos e honrados negavam-se a apanhar as migalhas que os poderosos, e os seus lacaios, lhes ofereciam. Preferiam passar fome. Podia faltar-lhes o pão, mas nunca lhes faltava a honra e a dignidade.

 

Atualmente tudo se compra e tudo se vende ao desbarato. Eu sei que a honra não se come e a palavra dada não alimenta ninguém, mas é triste ver o preço tão baixo da desonra e assistir aos saldos da palavra dada, dos princípios, da coerência e da honestidade. É triste e confrangedor.

 

Já me tentaram envergonhar pelos meus presumíveis excessos argumentativos em defesa de Chaves e das suas gentes, pelo meu idealismo, aconselhando-me a autocensura, ou a escrever sobre música. Mas eu não segui o conselho porque não consigo. Sou vítima dos princípios indomáveis com que fui criado. E também sei que aquela nossa tão conhecida capacidade de aguentar o inaguentável se volta inexoravelmente contra nós.

 

Eu milito no grupo dos que consideram que é preferível uma derrota a seguir à qual possamos eleger pessoas novas, do que uma vitória e manter os mesmos de ontem. E daqui não saio. O poder pelo poder é uma estupidez.

 

Para terminar, e com a vossa licença, não resisto a citar o Cântico Negro de José Régio: «"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces / Estendendo-me os braços, e seguros / De que seria bom que eu os ouvisse / Quando me dizem: "vem por aqui!" / Eu olho-os com olhos lassos, / (Há, nos olhos meus, ironias e cansaços) / E cruzo os braços, / E nunca vou por ali...»


João Madureira


23
Fev13

Pecados e Picardias

 

Da diversidade

 

Dos ensaios

Da desfaçatez

PASSOS FIRMES

 

Passos firmes em direção ao futuro

Mãos dadas a abarcar pedaços de mundo

Todas as gerações empenhadas  a contribuir 

Na construção do presente que está a evoluir

 

Pressupostos de referência a vida  de todos... A anuência,

A matriz dos sonhos o respeito a cada um da sua  vivência

A beleza cimentada na certeza dos poderes  sem violência

O caminho no caminhar de cada um, em  suave  cadência

 

Riem-se uns de outros , riem-se outros de uns

Desfaçatez comum ,sem resultados nenhuns

Há um só querer horizonte de lugar oculto

Onde os encontros são ensaios breves,

Onde eu espero bem que me leves

 Para tirar a alegria do sepulcro

 

E aí, nós, simples mortais comuns de tão comuns

Somos os eleitos os tais dos bastidores como os demais

Que erigindo o mundo ficam sem louros nenhuns

 

Condenados ao anonimato rimo-nos do estrelato

Que alguns ousam ostentar como puro celibato

Em passos firmes vivemos a alegria de ser… Nós, em nós reais

 

 

Isabel Seixas



22
Fev13

Discursos Sobre a Cidade - Por Francisco Chaves de Melo

 

 

A ciência, a ciência, a ciência... (4-10-1934)

 

A ciência, a ciência, a ciência...

Ah, como tudo é nulo e vão!

A pobreza da inteligência

Ante a riqueza da emoção!

 

Aquela mulher que trabalha

Como uma santa em sacrifício,

Com quanto esforço dado ralha!

Contra o pensar, que é o meu vício!

 

 A ciência! Como é pobre e nada!

Rico é o que alma dá e tem.

 

[...]

 

Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990).

 

 

 

“Rico é o que a alma dá e tem” diz Pessoa. Diz bem, já que cada dia se nota mais que os atuais inquilinos da Câmara mostram menos vontade de dar e mais de receber.


Em primeiro lugar gostam de receber aplausos, ovações, elogios rasgados, honrarias, distinções e considerações mundanas. Não se nota agora que trabalhem com alma pelo bem de todos os flavienses independentemente da cor politica ou dos que lá vão ao beija-mão. (Claro está que quem vai ao beija-mão também não mostra desapego ou vontade de defender o bem comum. Mas, esses munícipes, têm a minha compreensão. Não foram eleitos para defender os interesses coletivos, pelo que, fazem bem em defender o seu interesse individual ou o dos seus filhos e netos.)


Diz-nos a ciência política que uma configuração clientelar da acção política amesquinha o cidadão, pois pode leva-lo a cuidar como legitimo mendigar favores e/ou empregos. (Nesta altura, que o Governo, em virtude das suas ações, gerou um desemprego de jovens acima do 40%, não se poderá estranhar que apareçam muitos na Câmara a dizer que também são do partido).


Em Chaves, nas várias instituições, haverá sinais de acção política clientelar?


Dizem-me que sim. Contam-se casos. Verdade? Mentira? Os flavienses saberão!

 

“O pensar, que é o meu vício”, permite-me encontrar indícios que, por vezes, mas nem sempre, estão para a ação política clientelar, como está o mel para um guloso.


“A riqueza da emoção” que atinge todos os que têm apego à cidade e ao concelho, ocasiona desabafos, palavras suspiradas e alívios. Desabafa-se que são sempre os mesmos, querem mandar em tudo: nos centros de saúde, nas associações e misericórdias, nas cooperativas, nas associações de jovens e na cruz vermelha, nas escolas, nos agrupamentos, nos imóveis públicos e serviços de emprego, na escola profissional, na de enfermagem, nas fundações, nos grupos culturais, nas escolas de música, nas associações de rega, nas de ciclistas, na de caminhantes e de amantes das motas, de pescadores, etc, etc, e tal. É uma tal voracidade (dizem!), que até parece fugir-lhes o mundo. Temo que também neste blog cobicem despachar ou, usando termos de outros tempos, usar o seu lápis azul. Sente-se uma pressão alta, talvez gerada na certeza de perder o controlo, o poder de mandar e desmandar.


Haverá aqui relação com os desassossegos de algum dos candidatos à Câmara nas próximas eleições? A mim não me parece.


“A ciência! Como é pobre e nada!”, como podem pensar que sabem fazer tudo, que podem conduzir todas as instituições da cidade! Se ao menos não conduzissem as finanças e os investimentos municipais para o abismo da dívida já fariam muito. Podiam mesmo até impedir que se pintassem edifícios históricos com cores aberrantes. Uma cor como a escolhida para o antigo Magistério. Foi a “Voz da Juventude” que, na sede, escolheu a cor?

 

Francisco Chaves de Melo



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