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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

30
Jul13

Intermitências

 

O Vício

 

Andava há dias à volta da máquina. Sabia que tinha arranjo, e continuava a tentar fazê-la rodar maquinalmente, durante horas e horas. A mulher não entendia porquê tanto empenho, tanto trabalho, tanta solidão, gastos numa insignificância. “Deita isso fora! Que vício!”, dizia. E ele respondia: “Somos todos viciados”.


A mulher inquietava-se com o vício. Mas ele, deixava-se corroer por ele. Como o amor.


Ela bem sabia que o amor não é tranquilo, não tem hora, não tem rotina, não tem regra, não fica para depois. É agora, é já, é prioridade, tudo mais passa para segundo plano. Ele tem razão. O amor: é este o vício dela. E é corrosivo.


Semanas depois, ele continuava à volta da máquina. A tentar fazê-la rodar maquinalmente, durante horas e horas. De insignificância, a máquina passara a ocupação principal de cada dia da vida dele. “Nunca te fartas disso? Não entendes que não tem arranjo e que já não há nada a fazer? Que vício!”, queixava-se a mulher. E ele respondia do mesmo modo: “Somos todos viciados”.


A mulher inquietava-se com o vício. Mas ele, deixava-se corroer por ele. Como o esquecimento.


Ela bem sabia que o esquecimento esconde vícios que não deixam avançar, mas que não se conseguem largar. Arranjam-se formas, meios, ocupações, distrações para não pensar em si próprio. Arriscam-se tentações e perigos. Inventam-se justificações, desgostos e dores. E no final, deixamo-nos minar: o vício torna-nos egoístas. Ele tem razão. O esquecimento: é também este o vício dela. E é corrosivo.


Fotografia de Sandra Pereira - Palácio da Pena, Sintra, Julho 2006


Meses depois, ele continuava à volta da máquina. A tentar fazê-la rodar maquinalmente, durante horas e horas. Não desistia, acreditava que a vontade de um homem era mais forte que a ordem natural das coisas. Mas a mulher ainda não percebera que ele se estava a testar a si próprio. “Larga isso de uma vez! Parece que essa máquina te enlouqueceu! Que vício!”, desesperava. E ele, sempre com a mesma resposta: “Somos todos viciados”.


A mulher inquietava-se com o vício. Mas ele, deixava-se corroer por ele. Como a mágoa.


Ela bem sabia que há dores insuperáveis, injustificadas, injustas, para as quais, tal como com a máquina, o arranjo pode durar um tempo infinito… Ele tem razão. A mágoa: é também este o vício dela. E é corrosivo.


Anos depois, ele continuava à volta da máquina. A tentar fazê-la rodar maquinalmente, durante horas e horas. De ocupação principal de cada dia, o arranjo da máquina passara a grande missão da vida dele.


Mas a mulher já não se inquietava com o vício, nem com o facto de ele se deixar corroer por ele.


Ela bem sabia que ele precisava de um vício contra a tentação de deixar-se a ele próprio sem arranjo. Ele tem razão. A falta de senso: é também este o vício dela. E é corrosivo.

 

Sandra Pereira


29
Jul13

Quem conta um ponto...

 

Pérolas e diamantes (48): o Tribunal de Chaves entre a farsa e a tragédia

 

 

A minha avó dizia-me muitas vezes: Nunca te esqueças que és transmontano, que vens de gente do campo, tanto do lado do teu pai como do lado da tua mãe. Os Madureiras e os Ferreiras são gente do campo, têm os seus defeitos, mas ninguém os convence a fazerem aquilo que não querem. Lá teimosos somos nós. Ninguém nos obriga a fazer uma coisa que não queremos. E se alguém não gostar, não tens de lhe dar explicações. Basta lembrar-lhes que não fazemos nada por obrigação. Eles hão de respeitar-te por isso.

 

Lembrei-me destas palavras após a leitura da declaração de voto da deputada do PSD, Manuela Tender, relativa à aprovação do novo mapa judiciário que desqualificou vergonhosamente o Tribunal de Chaves, tentando justificar o injustificável e ensaiando explicar o inexplicável. Mas os atos ficam sempre com quem os pratica.

 

A presidente da delegação da Ordem dos Advogados, Márcia Teixeira, curiosamente militante do mesmo partido da senhora deputada e também candidata nas mesmas listas do PSD à autarquia flaviense, afirmou numa reunião realizada há poucos dias que “o modelo de mapa judiciário preconizado não defende os interesses das populações do Alto Tâmega”.

 

Para Márcia Teixeira, os argumentos de Paula Teixeira da Cruz, curiosamente militante do PSD e ministra de um governo chefiado por um militante do PSD e apoiado incondicionalmente pelo mesmo partido, “são falsos”, sendo em tudo “idênticos aos da integração do Hospital de Chaves no CHTMAD, sabendo todos nós quanto perdemos com a ausência de serviços de qualidade e proximidade”.

 

Na sua perspetiva, esta medida visa ir mais longe, pois pensa ser o princípio para o fecho, “a médio prazo”, do Tribunal de Chaves. Isto perante o silêncio cúmplice das estruturas políticas dirigentes da organização local do seu partido e das manobras de diversão (tipo agarrem-me senão eu bato-lhe) do presidente em exercício da autarquia flaviense, o candidato António Cabeleira. Ele é doutro mundo.

 

Atrapalhada com os acontecimentos, e com o entorno da tragédia anunciada, esta militante do PSD local apela para que os políticos tomem medidas, pois, nas suas doutas palavras, “eles foram eleitos para defenderem os interesses dos cidadãos”.

 

Márcia Teixeira, num gesto de indignação, resolveu chamar os bois pelos nomes e por isso considerou, e passamos a citar, “um ato de traição a atitude da deputada do PSD eleita por Vila Real, e indicada por Chaves, Manuela Tender, que, num verdadeiro ato de traição aos flavienses, votou favoravelmente a proposta de lei.”

 

Mas, caros leitores, como se tudo isto fosse pouco, João Batista, o “ex”-presidente da Câmara de Chaves, e candidato a presidente da Assembleia Municipal de Chaves pelas listas do PSD, em jeito de farsa, veio para os jornais dizer que o Tribunal de Chaves mantém os quadros de Magistrados, pois a senhora Ministra garantiu-lhe que o TC manterá os quatro juízes e que o número de Oficiais de Justiça irá passar de 26 para 27. “Neste sentido”, avisa, “o Tribunal de Chaves, apesar de perder formalmente o título de Comarca, manterá os mesmos serviços, como anteriormente”.

 

Ora isto é brincar com as palavras e com a inteligência dos flavienses. O senhor “ex”-presidente quer fazer de nós parvos.

 

O ato da deputada Manuela Tender ficará para sempre associado à votação que determinou o triste desfecho para o Tribunal de Chaves, isto por mais justificações esfarrapadas que dê, por mais declarações de voto que faça e por mais disciplinas de voto que invoque.

 

Já as palavras do senhor “ex”-presidente João Batista ficarão para sempre inscritas no anedotário da nossa terra. 

 

Pelo meio foram até invocadas questões económicas e financeiras. Mas a Justiça, tal como a Saúde e a Educação, não tem preço.

 

A verdade é que o Tribunal de Chaves, apesar das inverdades do senhor “ex”-presidente João Batista, apenas vai ter competência para julgar ações cíveis até 50.000 € e, nos processos criminais, só poderão correr nele aqueles a que, dito de forma corrente, não corresponda uma pena superior a 5 anos de prisão.

 

Entretanto o poder autárquico nada fez, ou faz, e nem sequer se interessa minimamente em sensibilizar a população do concelho. E pior, os atuais autarcas, em vez de defenderem os interesses dos flavienses e da autarquia, colocaram-se, sem pudor algum, ao lado da lamentável e vergonhosa posição do governo.

 

Por outro lado, a oposição política nacional e local, também nada fez, a não ser proferir alguns lamentos, outros tantos desabafos e, ainda, serôdios comentários nas redes sociais.

 

É cada vez mais claro que a nossa cidade governada pelos partidos políticos, como os que nós conhecemos, é um desastre. É pura perda de tempo. E, sabemo-lo agora, mais do que nunca, é também uma perda de direitos. A alternância entre o PSD e o PS é o jogo do gato e do rato.

 

Precisamos de eleger uma autarquia que não tenha pejo em defender a nossa terra e os nossos direitos. Mesmo que para isso tenhamos de colocar de lado as simpatias partidárias ou, até, pessoais.

 

Quem tem de mandar em Chaves são os flavienses, não os mesquinhos interesses partidários.   A nossa terra tem de estar sempre primeiro. E quando uma disciplina de voto tem mais força do que os direitos inalienáveis de uma população inteira, a democracia transforma-se numa farsa.

 

João Madureira

28
Jul13

Pecados e Picardias

 

Levanto-me… Tão só

 

Levanto-me como num cínico  sorriso

Onde a indiferença disfarça a raiva,

Deixas-me  Tão só alma, quando mais preciso

Onde estás? Procuro-te, sem que ninguém saiba

 

Nem vejo caminhos ,nem sei já caminhar

Não reconheço  vizinhos, todos nos fugimos

Metidos na concha tão só murmúrio e mar

Levanto-me como caio, sei bem que partimos

 

O meu olhar de  tão vago deixei ao deus dará

Levo o perdão é amargo  tão só, só será…

 levanto-me e dispo  as quedas do acaso

sepulto-as como  despeito fora de prazo

 

Levanto-me desperta como se fosse  dia

 tão só, eu o nosso  rasto e a nostalgia

 

 

 

Isabel Seixas in espólio

 

27
Jul13

Roriz - Chaves - Trás-os-Montes - Portugal

 

Não é que eu seja muito dado a ver televisão, mas vejo, e como já há muito tempo que não mando no comando, vou vendo aquilo que me deixam ver. Há três ou quatro anos atrás, num reality show qualquer desses que estão na moda, andava por lá um pastor que até tinha certa piada e que numa das conversas com um dos parceiros, este afirmava que deveria ser bom andar pelas montanhas e transpor o cume para ver o que havia do outro lado, ao que o pastor rematou - « depois de uma montanha há sempre outra montanha». Não sei se as palavras eram bem estas, mas andavam mais ou menos por aí. Aqui em Trás-os-Montes é mesmo assim: depois de uma montanha há sempre outra montanha, um mar delas com ondas mais ou menos grandes que se vão perdendo na lonjura do horizonte, tantas que a nossa província nem se deveria chamar Trás-os-Montes, mas antes Entre-os-Montes, mas claro que já se adivinha que quem nomeou a nossa província foram os senhores de Lisboa e nós somos aqueles que ficamos atrás dos montes.




Mas somos transmontanos com muito gosto, habituados aos rigores do tempo de e todo o ambiente que nos rodeia somos rudes, foi assim que fomos temperados e, é talvez por essa razão que o povo transmontano triunfa sempre quando vai para além dos montes e são sempre grandes em tudo, no trabalho, nas artes e nas letras, em tudo que fazem e sabem fazer de tudo, até grandes marinheiros ou vigaristas se lhes dá para irem por aí e, até políticos – só é pena que a maioria destes últimos esqueçam o berço quando vão para o poder lisboeta.




E é por se falar em atrás dos montes e por entre os montes e montanhas que hoje deixo aqui imagens de uma aldeia rodeada e com vistas para elas ou para aquele que eu chamo de mar de montanhas. São imagens de Roriz desde onde as suas vistas alcançam quase toda a freguesia de S.Vicente da Raia, terras de Vinhais e terras galegas, pois as montanhas não conhecem fronteiras. Ficam um pouco dessas montanhas e dois pormenores da aldeia de Roriz onde a construção em granito ainda é rainha e senhora, mas com as maleitas do costume – maioritariamente velhas e abandonadas.



25
Jul13

O Homem Sem Memória - 163

 

O Homem Sem Memória

Texto de João Madureira

Blog terçOLHO 

Ficção

 

163 – Mas a revolução, essa amante que tudo nos rouba, até o amor e a razão, não se encontrava nem na outra esquina, nem nas que foi descobrindo pela cidade e pelo país fora. A revolução socialista era como uma sombra, que sempre nos acompanha mas à qual nunca conseguimos alcançar. E ele bem que a procurou. E fê-lo por vezes sozinho e outras vezes acompanhado. Bem ou mal, isso não interessa para o caso. O que sim importa é a intenção. E a sua intenção era generosa e perseverante quanto baste. Se todos os revolucionários fossem como o José, ela, a Revolução, além de triunfar em todo o lado, poderia passar a ser como a inauguração do paraíso na terra. E que inauguração. Era a modos como o sonho de Charlot no seu filme O Garoto, onde até os polícias se transformam em anjos voadores de asinhas brancas.


Começou a ler ainda mais do que aquilo que lia, sublinhando as passagens mais interessantes e anotando os pensamentos mais pertinentes, numa sebenta escolar. Não é que tivesse em mente tornar-se escritor, mas, como todos sabemos, o escritor faz-se de manias, de acasos e de ocasiões. Ninguém é escritor por vontade própria. Ser escritor acontece.


Lia e dormia de dia e vadiava à noite. Não abandonou as tarefas revolucionárias, mas deixou de lhes dedicar tanto tempo. Tornou-se evidente para todos, até para ele próprio, que a sua adesão à revolução estava refém de uma dúvida metódica e de uma desconfiança permanente. Ora, como todos sabemos, quem não tem certezas absolutas não pode ser um verdadeiro comunista. O marxismo-leninismo não admite dúvidas, nem incertezas, nem hesitações. Em plena revolução, revolucionário que hesita é revolucionário morto, ou pela reação ou pelo seu próprio exército. Por isso é que se diz que a revolução, quando se põe em marcha, é como um comboio que ninguém consegue travar.


O seu ciclo notívago fez-se na companhia do Joaquim, das bombas, e na do Pinto, da eletrónica. Os seus compinchas podiam não ser bons revolucionários, mas eram, com toda a certeza, excelentes companhias para as tainadas, para as caminhadas e para as conversas intermináveis. Tanto jogavam às cartas, como ouviam música, como faziam longos passeios até o sol raiar. Em Névoa, além dos cães vadios, somente três comunistas desiludidos faziam a ronda das pontes. Fizesse, frio ou calor, estivesse luar ou céu escuro, ou o nevoeiro submergisse a cidade com o seu manto de escuridão húmida e trágica.


Tanto falavam de coisas triviais como de assuntos sérios. Lembravam as suas brincadeiras de rapazes travessos, recordavam tempos de escola, namoradas verdadeiras ou fictícias, livros lidos e histórias do arco-da-velha. De rapazes que, quando se portavam mal, continuavam a levar bofetadas castigadoras dos seus falecidos pais; de raparigas que, em noites de luar, quando se atreviam a olhar para trás, viam fantasmas a correr e a voar na sua direção; de bêbados que mesmo às portas da morte pediam aos familiares para lhes trazerem garrafas de vinho, que ainda meadas teimavam em fugir do quarto pelas frinchas das portas; ou de lobos que acompanhavam sempre os homens mancos quando iam defecar ao monte. Todas as semanas percorriam a calçada romana de Névoa a São Lourenço invocando, na brincadeira, as almas dos soldados que por lá passaram antes e depois das batalhas. E urinaram nas encruzilhadas, nos cruzeiros das aldeias, pintaram paredes com palavras de ordem revolucionárias ou com frases estupidamente anarquistas.


Muitas da vezes, iam a meio da noite até à panificadora comprar pão fresco que comiam besuntado de manteiga que se derretia sozinha. E bebiam leite. E fumavam cigarros feitos com uma máquina de bolso propriedade do Joaquim, das bombas. E tossiam muito e até se engasgavam com o fumo forte do tabaco negro que compravam em Espanha. Por vezes tocavam nas campainhas das casas dos burgueses a altas horas da noite e, de seguida, punham-se em fuga como se fossem crianças travessas sem educação e sem pai, nem mãe, nem partido.


Desdenharam do Partido, do funcionário do Partido, dos camaradas do Partido e do jornal do Partido. Deixaram de ir às reuniões ordinárias da sua organização estudantil revolucionária, deixaram crescer a barba e o cabelo e passaram a usar botas alentejanas e calças de ganga coçadas como se fizessem parte de um grupo rock inglês ou americano.


Andaram nisto vários meses. Desistiram de estudar. Não sabiam o que pretendiam fazer na vida. Apenas o José teimava ainda em dizer que queria ir estudar para a universidade. Mas a mãe disse-lhe que a falta de dinheiro era um obstáculo difícil de ultrapassar.


Numa noite de intenso luar, enquanto fumavam cigarros mal feitos e jogavam uma lerpinha a feijões no Jardim das Freiras, veio-lhes à cabeça a peregrina ideia de que tinham de seguir o exemplo de Che Guevara e irem fazer a revolução para outro país, pois a portuguesa não deixava de se mover a passo de caracol. Depois de estudarem vários cenários, o Joaquim, das bombas, sugeriu que o melhor destino, por ser o mais exigente em termos de luta revolucionária, era Angola, pois era lá que se digladiavam as forças do capitalismo e do imperialismo contra as forças revolucionárias do socialismo científico. A ideia foi aceite de imediato.


Resolveram então que no dia seguinte tinham de ir até Vidago, ou às Pedras Salgadas, comprar aos retornados, que vivam nos hotéis, angolares para poderem rumar caras à pátria de Agostinho Neto com dinheiro para as primeiras despesas.


O José, porque não possuía tostão, teve de pedir à sua mãe dinheiro emprestado. Ela disse-lhe que deixasse de ser parvo, pois Angola estava em guerra civil. “Revolucionária”, lembrou-lhe o José. “Ou isso”, concordou a Dona Rosa. “Mas tal não invalida aquilo que te digo. Os pretos andam aos tiros uns aos outros e tu queres ir lá meter-te no meio? Não deves estar bom da cabeça. Agora que a nossa tropa veio embora porque Angola já não é nossa, tu queres ir para lá fazer a revolução? É isso? Tu queres ir morrer numa terra que não é tua, a defender aquilo que não é teu?” “A revolução é de todos”, lembrou-lhe, e bem, o José. “Ai isso é que não é”, respondeu-lhe a mãe. “Olha, minha não é com toda a certeza. Os pretos nem se governam, nem se deixam governar.” Ao que o José respondeu: “Isso é a adaptação de uma frase que um governador romano deu ao seu imperador quando este lhe perguntou como corriam as coisas na Lusitânia.” “Ai sim…” “Sim senhora, minha mãe. O governador terá dito: Lá na Lusitânia vive um povo que não se governa nem se deixa governar.” “Não me mintas. Olha que mentir é muito feio. Foi Salazar quem assim falou. Os comunistas ensinaram-te a mentir. Foi isso o que te ensinaram. Tu que quando dizias uma mentira até choravas… Valha-me Deus. Àquilo a que chegaste.” “Ó mãe…” “Ó mãe, não. Tu que foste o meu orgulho agora és o meu pecado e o meu pesadelo. Ficaste louco. Queres que eu te dê dinheiro para ires para Angola. Mas não dou. Era o que mais faltava. Preferia com esse dinheiro comprar uma pistola, matar-te, enterrar-te no nosso chão e depois matar-me a mim com o remorso e com o desgosto. Não me peças uma coisa dessas, José. Isso não.”


No dia seguinte, quando o trio reuniu, o Pinto, da eletrónica, já tinha desistido de tentar exportar a revolução para Angola com o argumento de que a sua mãe era viúva e que por isso não a podia deixar sozinha, pois era filho único. O Joaquim, das bombas, ainda lhe disse que ontem, aquando da decisão, é que tinha sido o tempo certo para se lembrar da sua mãe e da respetiva viuvez. Agora essa atitude podia pôr em causa a decisão do grupo. Lembrou então que a deliberação ainda podia ser levada a cabo, pois, do grupo, ainda restavam dois revolucionários firmes e decididos a rumarem caras a Angola para combater o imperialismo, o capitalismo e o racismo. Mas o José, a muito custo, lá teve de confessar, que também ele ia ter de desistir da ideia, pois a sua mãe tinha-se categoricamente recusado a emprestar-lhe dinheiro para adquirir angolares, mesmo que fosse ao preço da uva mijona, como era o caso.


O Joaquim, das bombas, olhou primeiramente para o Pinto, da eletrónica, e depois para o José, da Dona Rosa, e lamentou-se: “E eu que até já tinha solicitado ao Partido para pedir ao MPLA três autorizações de emigração em nosso nome. O que não irão pensar os camaradas angolanos destes três Guevaras de trazer por casa.”


Passaram toda a noite a andar de um lado para o outro. De Névoa para São Lourenço, de São Lourenço para Névoa. Novamente de Névoa para São Lourenço. E outra vez de São Lourenço para Névoa. E nem uma única palavra proferiram. 

 

164 – Foi sentado numa cadeira do FAOJ, ...

 

(continua)

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