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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

31
Dez13

Do livro " Chaves, Olhares Sobre a Cidade"

Ainda antes de terminar o ano quero aqui deixar publicados os últimos três textos e respetivas fotografias do livro "Chaves - Olhares Sobre a Cidade", publicação comemorativa dos dois milhões de visitas ao blog Chaves.

 

Se o tempo e as circunstâncias nos o permitirem, será uma iniciativa a repetir, talvez com uma edição comemorativa dos três milhões de visitas (se lá chegarmos), ou outras edições, das muitas que já são possíveis reunir no conteúdo do blog Chaves. Prometido fica que vamos continuar.

 

Bom 2014!

 

 

Senhoras da aldeia

 

Grito mudo…

Dizer o quê?

cansados,

Sachar cada ano a amargura,

envelhecer  no lenço e avental preto

homens sem alternativa na taberna embriagados…

valham-nos vizinhos na amizade quando perdura

aprender que entre homem e mulher jamais me meto…

 

Grito mudo

Dizer o quê?

Ignorados

Evocar Deus no minuto de medo,

Ajoelhar às aparições dos senhores

Sonhos perdidos na infância nos bosques e prados

Contar o dinheiro a modos de manter o sossego

Ir morrendo na ténue ilusão de dias melhores

 

Grito mudo…

Dizer o quê?

cansados ,ignorados

e a nossa senhora nunca mais apareceu,

no seu manto vermelho de veludo,

não sabemos porquê, será que só ganham o céu

os pobres abandonados?...

 

Isabel Seixas

 

 

Paisagem, património, liberdade!

 

As políticas neo-liberais são adoptadas de forma crescente por muitos governos. Estas correntes, muito orientadas para a livre exploração comercial de todas as “coisas” que sejam passíveis de gerar lucros, estão na base de importantes alterações da realidade contemporânea.

 

A avaliação das paisagens e subsequente ordenamento (pelo valor comparativo ou outro), ou apenas a respectiva inventariação, podem aproveitar para transformar as paisagens, de bem público, colectivo, em bem privado, comercializável.

 

Que direito assiste a alguns na apropriação privada de bens que sempre foram “comunais”?

 

Pretendemos consciencializar para a necessidade de a paisagem (de maior valor) continuar a ser um bem público, livre de concessões e sobre o qual nenhum privado pode colocar um obstáculo ao seu usufruto sensorial por parte de todos. Tal implica que as paisagens urbanas devam ser objecto da atenção de organismos públicos (desde a avaliação, aos planos de protecção ou valorização, gestão e usufruto), ainda que a sua manutenção seja efectuada a expensas dos contribuintes. Esta visão fere as concepções neo-liberais que são neste momento dominantes, mas pensamos que já surgem, também neste momento, visíveis reacções a este modelo totalizante e, tal como em relação a outros modelos político-económicos, a história demonstra-nos que, “a imposição de um único ponto de vista nunca é justificada.”

 

A expressão da resistência à opressão comercial que invade as nossas vidas encontra-se vincadamente expressa por Naomi quando afirma que aquilo que lhe traz amargura “não é exactamente a ausência de espaço real, mas uma profunda ânsia por espaço metafórico: libertação, fuga, algum tipo de liberdade sem condições”, o que é no nosso tempo muito difícil de encontrar. A sensação claustrofóbica provocada pela invasão comercial de todos os espaços (recorde-se a venda de postais e recordações, junto a locais pitorescos), está enunciada na afirmação de que a “maioria de nós aproveita os espaços abertos onde consegue encontrá-los, às escondidas como se fossem cigarros, fora das clausuras”.

 

Como terá sido afortunado Dom Afonso, por provavelmente ter visto as “termas romanas” de Chaves ao ar livre e sem pagar entrada!

 

Francisco Chaves de Melo

 

 

 

 

Aos que ficam

 

Tenham dó! Tenham Misericórdia dos que ficam! Não os zombais, não os julgais! Um dia também chegará a vossa hora de quietude. Quem os viu e quem os vê, diz o povo. Pois assim está bem, pois mal de quem os não vê nem nunca viu!

 

De camisa sempre lavada, cabeça tapada e olhar "fino", são visões de um mundo que foi e já não volta.Tenham dó! Tenham Misericórdia dos que ficam! Um dia também chegará a vossa hora de esquecimento.

 

É de noite, é de noite, diz o povo. Mas enquanto houver esperança, haverá sorrisos. E enquanto houver sorrisos, haverá vida. Tenham dó! Tenham Misericórdia dos que ficam!

 

Sandra Pereira

 

 

31
Dez13

Intermitências

 

O Depósito

 

- Deposite aí o seu destino, se faz favor.

 

Quem lhe dera que tudo fosse tão transacionável, imediato e manipulável como o dinheiro! Os anseios seriam facilmente transportáveis e logo efectivados, as vidas seriam mais simples a combinar e a juntar, as rotas mais fáceis de cruzar até chegarem a um mesmo destino. Matemático.

- Deposite aí o seu destino, se faz favor.

 

"Deposito sim, mas não tenho muito tempo", responderia Sir James. E enquanto corre, não dá por nada a chegar. E enquanto sonha, o seu anseio está aí, meses a fio, a seu lado, a latejar, a arrastar-se... quase a rastejar a seus pés...

 

- Deposite aí o seu destino, se faz favor.

 

"Hummm... Hoje em dia já não se pode acreditar em muito", responderia Sir James. Há que pensar muito bem antes de depositar dinheiros, confianças ou paixões sem condições. Depois da tempestade, vem a bonança, depois da bonança, vem o desencanto. Por isso, primeiro, há que fazer bem as contas, analisar a concorrência, testar, duvidar. Matemático.

 

Barcelona, 2013
Foto de Sandra Pereira

 

- Deposite aí o seu destino, se faz favor.

 

"Não, não. Eu quero saber de tudo, quero ter certezas!", responderia Sir James. E enquanto hesita e entrava, não dá por nada a chegar. E enquanto estuda todas as opções e alternativas disponíveis, o seu anseio está aí, meses a fio, a seu lado, a latejar, a arrastar-se... quase a rastejar a seus pés...

 

Um dia, sem qualquer aviso prévio, um raio de sol atinge violentamente a cara de Sir James, obrigando-o a abrir os olhos e a refazer as contas. O seu anseio! Estava aí!

 

É este. E aí deposita o seu destino, sem favor.

 

Demasiado tarde. O depósito já não rende mais. O anseio esteve aí meses a fio, o anseio rastejou-lhe aos pés, pediu mesmo misericórdia para uma vontade entusiasta e viva, para um sentimento voluntarioso e amoroso, para um futuro! Com o passar do tempo, o anseio sentiu-se desprezado, procurou atenuar a dor... refez as suas contas, buscou um depósito para o seu destino...

 

... deixou Sir James angustiado e deprimido por ter falhado o seu próprio destino. Sir James nunca quis estender mais do que um braço, Sir James nunca quis andar mais do que um passo, Sir James nunca quis ver o que estava atrás de um indício, ou até de um simples olhar. É o que dá ser tudo tão transacionável, imediato e manipulável como o dinheiro! "Exijo pré-aviso para o destino que me está destinado!", responderia Sir James.

 

Sandra Pereira

 

30
Dez13

Quatro noturnas para entrar na noite

 

Para início da noite de hoje, ficam quatro imagens noturnas da noite de ontem.

 

 

Imagens duplamente fresquinhas, quer no tempo em que foram tomadas, quer no tempo meteorológico. Só falta mesmo a neve descer ao vale para vesti-lo de branco.

 

 

E sempre o Rio Tâmega por companheiro, testemunha dos nossos dias, dos nossos momentos,  confidente por vezes. Um bom amigo desde que o respeite, como se devem respeitar os amigos.

 

 

E para o quadro estar completo só falta mesmo a nossa Top Model, mas já está madura demais e num outro patamar para se preocupar com estes esquecimentos e depois, ela sabe bem que é e sempre será a nossa rainha e senhora.

 

 

30
Dez13

Quem conta um ponto...

 

Pérolas e diamantes (70): o trigo e o joio, as pérolas e os porcos

 

 

Como transmontano sempre me senti um pouco como os índios inuítes americanos. E atualmente ainda mais do que nunca. Se os bons americanos, como os úteis portugueses da capital, dependem do sistema, pois são o próprio sistema, os índios americanos, tal como os transmontanos, dependem da ajuda do governo e do álcool.

 

Os inuítes, tal como os transmontanos, são livres mas estão circunscritos a jardins zoológicos para seres humanos aos quais chamam reservas (na nossa dimensão, província), onde estão condenados a repetir a lastimável dança da chuva em frente de um aglomerado de turistas.

 

Afinal ninguém é livre. Somos sempre prisioneiros dos outros e de nós próprios.

 

António Vitorino de Almeida conta na sua autobiografia o que lhe aconteceu quando, ainda jovem, andava a mostrar a sua arte aos portugueses poderosos. Apesar da excelente impressão causada por alguns dos seus recitais, a obtenção de um trabalho fixo, à altura das suas capacidades concretas e que lhe garantisse um ordenado ao fim do mês e uma reforma para mais tarde, ficou na estaca zero.

 

Mas, para seu desalento e desespero, via constantemente determinados lugares serem ocupados por pessoas que não possuíam efetivamente nada que se equiparasse, em termos de habilitações académicas – já para não falar do seu trabalho concretizado como pianista e compositor – com o currículo q ue enviava para os devidos lugares, normalmente sem receber qualquer tipo de resposta.

 

Conta que começou a habituar-se a uma explicação recorrentemente dada em relação à sistemática nomeação dessas figuras cinzentas, apenas mais coloridas, na maior parte dos casos, nos salários que auferiam.

 

Diziam-lhe tentando explicar: “Coitado, tem uma personalidade muito fraquinha e complexada, praticamente nunca passou da cepa torta, falhou em tudo o que tentou, mas é um apaixonado pela arte! E, por isso, achámos bem dar-lhe este apoio… Foi uma questão de humanidade!”

 

De facto, como relata o mestre compositor, o problema não reside no simples ato caritativo – “a alegada questão da humanidade…” –, mas sim no facto muito mais relevante, de que tudo isto faz parte de um sistema infindável, o famoso “círculo vicioso de mediocridade organizada”, dado que o presente protetor já foi ele mesmo protegido e, por isso mesmo, gera novos incapazes com idênticas caraterísticas.

 

E, passado pouco tempo, o tal coitadinho frustrado que dizia amar as artes sem ser correspondido por nenhuma delas, estava transformado numa genuína autoridade, pois todas as deliberações artísticas dependiam agora das suas doutas opiniões, quando não dos seus caprichos, tais como o direito ao trabalho, à carreira e à própria vida de verdadeiros artistas.

 

Para rematar o relato, António Vitorino de Almeida, parafraseando um poema de David Mourão-Ferreira, que acabara de conhecer naquela altura e com quem tinha gravado um “ótimo” disco, cuja matriz parece que desapareceu no incendio do Chiado, escreve que dessa forma “se perpetuava a dramática luta entre os capazes e os capados…”

 

Em Portugal a crise está mesmo a sugerir-nos que façamos como Salazar, que evitava cerimónias públicas em que tivesse de se expor em varandins mas que não descurava a economia doméstica, bastando-lhe o recato do seu gabinete de trabalho, onde a par das decisões relativas aos destinos do país, reservava um tempinho para dar enquadramento a algumas preocupações de tipo caseiro, nomeadamente o elevado preço a que tinham chegado os ovos na capital, razão pela qual escrevia cartas para Santa Comba a solicitar que lhe enviassem uma galinha pedresa com o objetivo de estabelecer regras específicas de contenção de despesas na economia do lar.

 

Nestas alturas lembro-me sempre da parábola bíblica da separação do trigo e do joio. O problema que se me coloca sempre é que não se pode arrancar o joio sem destruir o trigo.

 

O joio é uma erva daninha cujas raízes se entrelaçam nas raízes do trigo, do centeio ou da cevada e não há forma de as arrancar sem arruinar a colheita.

 

E lembro-me ainda, e sempre, sei lá bem por que ordem de razões, do seguinte texto bíblico: "Não deis aos cães as coisas santas, nem deiteis aos porcos as vossas pérolas, para que não suceda de que eles as pisem com os pés e que, voltando-se contra vós, vos dilacerem." — Bíblia, Novo Testamento, Livro de Mateus, Capítulo 7, versículo 6.

 

João Madureira

30
Dez13

Do livro " Chaves, Olhares Sobre a Cidade"

 

 

A PONTE ROMANA E O ARRABALDE

 

A velha Ponte Romana edificada há séculos pelos romanos, apesar de algumas alterações, é, indiscutivelmente, o grande monumento da cidade.

 

Para muitos é, por consequência, o ex-libris do burgo.

 

Foram necessárias muitas décadas para a dolorosa construção, pedra a pedra, da ponte, indispensável para a premência de unir as margens do belo Tâmega.

 

Por ela passaram, quiçá, legiões romanas, por elas chegaram homens e mulheres que da veiga e da montanha transportaram viveres, produtos agrícolas para a população da cidade, que fixou naturalmente o epicentro na antiquíssima praça ou largo ainda hoje conhecido por Arrabalde.

 

Aliás, até princípios do século passado, o mercado ou a praça, como então se dizia, localizava-se em pleno Arrabalde, na zona onde hoje se situa o Palácio da Justiça e o espaço defronte.

 

Altaneira, com os dois pilares onde está escrita história, a ponte desemboca no centro onde se instalaram boa parte dos serviços e do comércio.

 

Daqui também se soltam, entre outras, as artérias que nos levam às Caldas de mais virtude, ao Largo do Anjo, às Freiras (que já foram um belo jardim) e ao Jardim do Bacalhau onde falta a pérgola que deixou saudade, pela sua beleza e pela sombra fresca que proporcionava em tardes estivais.

 

Os edifícios que ainda hoje circundeiam o Arrabalde merecem a atenção que os turistas não prescindem de perpetuar em fotos.

 

A arquitetura dos prédios com as suas belas frontarias e inspiradas varandas obrigam a momentos de deleite a quem nos visita.

 

Aguarda-se o balneário romano, achado arqueológico encontrado diante do Tribunal.

 

Bom seria que o museu de que se fala viesse engrandecer o património da cidade e embelezar o Largo.

 

A Ponte Romana e o Arrabalde são nacos de história que dignificam e alindam a nossa nobre cidade, terra de encanto.

 

António Roque

 

 

A geometria da destruição

 

Permanece vazia a casa abandonada. De uma janela avista-se o rio. Cá dentro existe um cheiro intenso a humidade e a afastamento. Lá fora flutuam aromas intensos, cores fortes e olhares desamparados. A aldeia vive agora subjugada na sua geometria de destruição. As sombras e as silvas tomaram conta das paredes. Os insectos rumorejam misteriosos delírios. Toda a ilusão cai esfarelando-se no chão esburacado da sala. O medo é agora insinuante. Nem a imagem dos mortos se fixa nas fotografias amarelecidas. Aquela era a minha porta da infância. Hoje é um abismo de desilusão. Os ângulos da casa reflectem a meticulosa memória das cinzas. A casa atravessa agora o corpo esfíngico dos espectros. A saída secreta é actualmente um espelho de trevas. O silêncio espreita por cima do meu ombro a solidão da folha em branco. Não há escrita. Escrever dentro deste mausoléu é uma impossibilidade manifesta. O avô desfez-se numa alegoria. A avó é uma espiral dorida. O pai é uma tristeza branca. A mãe um reparo inclinado. As arestas das paredes progridem para dentro das palavras. A desolação perfura as memórias que se afundam no tempo do esquecimento. Tento acender o lume, mas os dedos encolhem-se como hélices. A solidão é tão grande que mete medo. A solidão das escadas, a solidão das portas fechadas, a solidão dos caminhos, a solidão da adolescência, a solidão das fechaduras inúteis, a solidão dos besouros abandonados, a solidão dos bancos, a solidão da herança e das árvores e dos sentidos, a solidão das fotografias e dos textos felizes, a solidão dos corpos e dos queixumes nocturnos. A casa abandonada permanece vazia. Mingou muito. A candeia está no mesmo sítio mas apenas serve para as aranhas comporem as suas teias. A varanda estilhaçou-se em mil resíduos de evocações. E o poço inverteu-se. A minha mente procura um rosto. Mas já não tenho certeza de quem. Foram-se as imagens e apenas ficaram os nomes definhados. Recrio a memória catastrófica da morte. Pouco mais há a dizer. A aldeia é uma perturbação da paisagem. A casa cada vez mais se inclina para o abandono. As horas deste lugar são um nada absoluto. Amanhece? Anoitece? Tanto faz.

João Madureira

 

 

29
Dez13

Pecados e Picardias

 

A taverna

 

Véspera de Natal, subúrbios na taverna

clientes bebem sem expressar o espirito

tanta  solidão  a marcar passo com a perna

afogado com vinho o milagre lírico

 

Já nenhum acredita no nascer do redentor

Já perderam a esperança  neles , na vida

E por mais mil desejos  de sonhos paz e amor

Só  vinho ou cachaça tiram  dor da ferida

 

Se passaram o ano a ser espezinhados

Ignorados, na presença são seres humanos

Converter-se na semana, dias  destinados

Por quem e porquê esquecer, cicatrizes, danos

 

A noite, consoada, uma noite qualquer

Sem fé e sem mais nada o que resta é beber…

 

 

Isabel  Seixas in a Taverna

 

 

29
Dez13

Torre de Ervededo - Chaves - Portugal

Edifício da Antiga Câmara Municipal e Cadeia (à direita) e fontanário onde se supõe antigamente ter existido um pelourinho

Como as aldeias nunca serão esquecidas neste blog, hoje vamos até mais uma delas, por sinal uma aldeia cheia de história de tempos em que a sua importância era elevada a sede de concelho, daquele que foi o concelho de Ervededo, hoje freguesia.

 

Trecho de uma rua da aldeia

Fica então uma pequena amostra da Torre de Ervededo que conjuntamente com o Couto de Ervededo e a Agrela constituem a atual freguesia de Ervededo, uma das que escapou da agregação a outras freguesias.

 

Panorâmica composta com cinco imagens

Uma das freguesias que, conjuntamente com as freguesias vizinhas, fazem parte do meu roteiro fotográfico obrigatório o qual aconselho a qualquer amante de fotografia e do mundo rural, razões pelas quais passará por aqui mais vezes com novos motivos.

 

 

28
Dez13

Pedra de Toque

 

O frio chegou à alma

 

O frio passou pelo corpo e chegou à alma.

 

Tudo aconteceu na manhã de 11 de Dezembro quando a amiga Mizé Guimarães, no meu escritório, me deu a notícia que lhe transmitira a filha Joana – o Nadir morreu!

 

Apesar de conhecedor do estado de debilidade e de doença em que se encontrava, o nó rapidamente se trancou na garganta e a alma, dolorosamente, gelou.

 

 

Nadir não foi um amigo qualquer.

 

Ele escancarou-me as portas da cultura, da política, das artes.

 

Com ele aprendi também, eu e outros amigos queridos, a conhecer e a amar a nossa cidade, os seus recantos, as suas gentes, as suas estórias, a sua História.

 

A sua sensibilidade, a sua honradez, o seu sentido de humor (ria feliz até às lágrimas), a sua lucidez, repito, a sua lucidez, alimentaram inesquecíveis horas de convívio, de conversa fraterna e franca, que sabiamente sustentava quando nos saracoteávamos (como ele gostava desta palavra…) pelas ruas da cidade, em passeios intermináveis.

 

 

Conheci o Nadir, de quem já tinha ouvido falar sobretudo à minha avó, que fora muito amiga da mãe dele, no início dos anos 60 e logo ficamos parceiros das voltas e passeatas que, eu e outros, com ele adorávamos manter.

 

Do nosso primitivo grupo, que crismámos de Bisnaus já vários partiram e lá no assento etéreo, receberam certamente o Mestre de braços abertos.

 

Lembro o Carlos Sintra, homem da poesia e da música, o José Carlos Costa, que aparecia em férias e nos falava de jazz, o Eduardo Guerra Carneiro, consagrado jornalista que poetava com mérito e o José Henrique, sabedor de teatro, cronista exemplar, rouxinol de Coimbra.

 

 

O Nadir achava graça ao também saudoso Domingos Costa Gomes com quem por vezes charlávamos e nos ríamos.

 

Dentre os mais chegados dessa “velha guarda”, ainda restamos eu, a Mizé Guimarães, o José Firmino Morais Soares, distinto maestro, o Zé Carlos Carvalho, engenheiro civil e o Luciano Vilhena Pereira, causídico ilustre, todos amigos do peito.

 

O Zé Firmino telefonou-me dia 12, comovidíssimo, lastimando a impossibilidade de vir a Chaves devido a um concerto há muito agendado.

 

Fomos, por conseguinte, desse “team”, quatro os que acompanhamos Nadir, no último passeio até à morada definitiva.

 

O nosso grupo foi associando outros jovens que se renderam ao espirito reinante. Deles falarei noutra oportunidade.

 

 

Apesar de bastante mais velho que todos nós, o Nadir era efectivamente mais novo.

 

Viveu a França do post-guerra e tinha muita coisa para contar já que as novidades, chegavam filtradas pelas teias apertadas da censura.

 

E fazia-o com o seu reconhecido génio, narrando com palavras e gestos as ideias que defendia, ao mesmo tempo que nos ensinava sobre os grandes vultos que conhecera na cidade das luzes.

 

Nós bebíamos-lhe as palavras, o movimento das mãos com que se exprimia, a exaltação com que recordava Marcel Marceau, mimando, Gérad Philipe, representando, Eluard e Áragon, dizendo versos destes enormíssimos poetas.

 

 

Falava-nos dos quadros de Vassareli que admirava, do existencialismo de Sartre, das canções de Piaf e de Brel, que trauteava.

 

As margens do Tâmega eram o seu circuito preferido para, virado para o Brunheiro, declamar os poetas, em especial Pessoa, que ele sorvia sem limites.

 

 

Com Nadir criamos uma cadeia forte e bonita de amizade que, sediada em Chaves, seguia para outras paragens para onde por vezes viajávamos.

 

Lisboa era um poiso frequente.

 

O café Gelo, em plena baixa, era ponto de encontro da rapaziada flaviense.

 

Dali, seguíamos muitas vezes para a cidade castiça, onde procurávamos encantar a noite ao som de uma guitarra, da voz da Cândida Conceição ou da viola baixo do Zé Lobo.

 

Em 1991, o Conselho Directivo da Escola que então adotou o seu nome, convidou-me, com inteira aprovação do Mestre para falar do Nadir – o homem e o flaviense.

 

A Fernanda, boa amiga, entendida em pintura, dissertou sobre a sua obra artística.

 

Esse meu texto longo foi gravado em vídeo. O Nadir viu e sei que gostou.

 

Talvez um dia, em sua memória, porque religiosamente o retenho, o releia ou reproduza.

 

Neste momento quero, porque até aqui não o fiz, realçar o Nadir generoso, solidário, amigo dedicado dos seus amigos, que tive a enorme satisfação de conhecer.

 

Se ele a falar era uma pessoa fascinante, ouvia com delicadeza, aconselhava com inteligência e prontidão e adorava contribuir para a felicidade dos demais.

 

 

O Nadir não foi tão só o extraordinário pintor com reconhecimento mundial.

 

Foi também o esteta, o intelectual, o homem que se comovia com a vida, que preservava um espantoso sentido de humor, um homem que se fascinava com todas as manifestações artísticas.

 

Obcecado pela pintura, bastava-lhe o metro quadrado (como dizia) para trabalhar apaixonadamente.

As mulheres tiveram protagonismo na vida do Nadir.

 

Encontrei-o algumas vezes em paixões fortes, em paixões lindas, em paixões decadentes, em paixões difíceis.

 

Perdia-se por amor ao virar da esquina, ao ritmo de uma valsa ou de um tango, no breve toque de uma mão, na beleza de um gesto indecifrável, no brilho de um olhar quente.

 

Serenou com a Laura, companheira de longos anos até à inevitabilidade, que lhe proporcionou o equilíbrio que a idade foi exigindo, que lhe colmatou a notória inapetência para as coisas burocráticas e lhe deu dois belos filhos, hoje homens feitos.

 

 

Conheci as outras filhas dele que revi no dia do funeral, por quem ele tinha enlevo e admiração.

 

A mim e a todos os amigos de que já falei (e a outros de que certamente me esqueci) a partida do Nadir levou um bocado de nós !

 

Como me lembrou o Zé Carlos Carvalho, ele foi o nosso mestre, o nosso irmão, o nosso “pai”.

 

E que orgulho nós temos em termos sido muito amigos de um flaviense de gema (assim se assumia), de um homem genial de uma grandeza humana incomensurável.

 

A memória dele, perene, vai, como ele gostaria aquecer a saudade que permanecerá na alma.

                       

 

Querido amigo, fica com Pessoa.

 

Deixo-te com aquele poema que soltavas na direcção das serras que nos circundam e que tanto amavas.

 

“ Na sombra Cleópatra jaz morta.

Chove.

Embandeiraram o barco de maneira errada.

Chove sempre.

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E quanto à mãe que embala ao colo um filho morto –

Todos nós embalamos ao colo um filho morto.

Chove, chove.”

 

António Roque

 

27
Dez13

Discursos sobre a cidade - Por António de Souza e Silva

 

DAS NOVAS SOLIDÕES AO RENASCER DAS CINZAS...

 

Era suposto nesta rubrica, e nesta quadra, falar um pouco sobre o espírito natalício e da «família» flaviense. Porventura se formos ao passado, com certeza, aí encontraríamos alguns temas ou episódios que não só marcaram uma época como também esta terra. Mas o que mais importa agora é realçar o presente - o aqui e agora - da terra onde vivemos.

 

Infelizmente, nada de novo, por mais que me afinque e me esforce, encontro. Nenhuma particularidade ou especificidade referente a esta quadra aqui vejo, a não ser os mesmos «clichés» ou lugares-comuns.

 

Vivemos num reino que, se assim continuar, deixará de ser cantado como maravilhoso. Porque uma terra em que faltam as suas gentes, faltam-lhe também os olhos para ver as maravilhas da sua natureza para, assim, puderem continuar a aclamá-la.

 

E Chaves, desde há um certo tempo a esta parte, não passa de um ponto minúsculo, sem significado específico, no contexto do território a que chamamos Portugal.

 

De um Portugal imerso em profunda crise não apenas económica e financeira mas, e principalmente, de identidade.

 

Vivemos num mundo completamente submerso nas tecnologias da informação e comunicação (TIC). Que deveriam ser apenas instrumentos, auxiliares da comunicação para nos aproximarmos, mais em profundidade, uns dos outros. Mas não passamos de simples reféns, diria mesmo, escravos, desses mesmos instrumentos. Por elas - e com elas, as TIC - não se constrói efetivamente nenhuma relação humana séria, estável e duradoura. Temos a sensação que elas nos ajudam a projetarmo-nos pelo mundo inteiro, como uma extensão infinita de um corpo, o nosso, tão limitado e circunscrito a um território tão exíguo, como aquele em que vivemos, dando-nos a ideia que somos, mesmo, do mundo. Pura ilusão. Se bem refletirmos, tudo é tão frágil, volátil. E nós tão pequenos! Em tamanho e, dramaticamente, já na alma.

 

Como indivíduos, vivemos num canto de sereia, embalados por gadgets que não passam disso mesmo - simples instrumentos. Nem sequer brinquedos são. Porque os brinquedos, para além de recrearem a vida, tinham e têm uma função socializadora, integradora, num determinado contexto histórico e numa específica comunidade.

 

Por isso não admira que o espírito natalício se ressinta e sofra com este «caldo de cultura» em que vivemos. Tudo não passa de uma ilusão: que estamos em todo o lado, com todos os amigos em contacto connosco. Todavia, se bem refletirmos, estamos sós. Numa solidão que dói. Basta pararmos um pouco para refletir. E depressa nos damos conta que andamos «anestesiados». Ou, pior ainda, que este tipo de cultura nos está transformando em robots.

 

Num mundo em que imperam os media, ditando as suas leis, e em que a globalização transforma a maioria dos territórios, como o nosso em que vivemos, num «zé-ninguém», faltam-nos a força, a coragem cívica suficiente para, como pessoas e sociedade, proclamarmos bem alto que somos pessoas e que basta de tanta manipulação, abuso e espetáculo mal representado.

 

Por outro lado, dizemos que, esta quadra é a festa da família, que estamos em família, mas... puro engano! Estamos confinados às quatro paredes daquilo a que chamamos um «lar», mas nós, a maioria de nós e, principalmente, os nossos jovens, verdadeiramente, não estamos aí.

 

Fala-se muito, também por isso mesmo, por estes comportamentos «ausentes», de uma «geração rasca».

 

Mas que é feito das gerações que os precederam, os educaram, tornando-os «enrascados»? Em que princípios e valores firmaram as suas vidas? Nós, os mais velhos, em que mulheres e homens nos transformámos ao longo destas últimas décadas?

 

Dois grandes pensadores do século passado e dos princípios deste século dizem: um, Bauman, que criámos uma sociedade líquida, fluída, ao contrário da sociedade sólida que se formou com os primórdios da revolução industrial; outro, Lipovetski, que erigimos o sujeito à categoria divina, transformando-o num puro narciso, para quem não há limites, balizas.

 

Não se pretende, como é evidente, um regresso ao passado. A história não é circular. E os avanços científicos e tecnológicos estão aí para ficar. Mas devem estar ao serviço do Homem, da Sociedade. Com os pés bem assentes na terra e não na «nuvem», como de entes virtuais se tratasse.

 

Não somos apenas um número que serve a montagem de um espetáculo de circo, que tanto proliferam pelos nossos media. Não somos share de audiências para animar um mundo que alcandorou a «mercadoria» ao «estrelato».

 

Somos seres humanos carentes de afetos. E, acima de tudo, cidadãos que devem, todos, estar empenhados na construção de uma sociedade mais justa, equitativa, equilibrada e solidária. A partir da construção da polis, espaço-território confinado, onde nosso corpo se movimenta. Onde as verdadeiras e autênticas relações humanas aí efetivamente acontecem.

 

Bem gostaria de celebrar nesta altura uma polis (cidade) de Chaves à altura dos pergaminhos da sua longa e secular história. Orgulhosa das suas gentes e das suas tradições. Distinguindo-se, como no antanho, das terras lugares-comum da grande massa de localidades sem nome, sem orgulho e sem história, transformadas em não-lugar, ou apenas lugar de passagem.

 

Infelizmente, lenta e inexoravelmente, tal como a grande maioria das pessoas hoje em dia, estamos sofrendo de um mal muito comum a quem já perdeu a esperança - a solidão.

 

Portugal, e particularmente a nossa cidade e concelho de Chaves, precisa de mulheres e homens que, com uma nova visão, inebrie as suas gentes. Lhes restitua a esperança e não as espolie. E, juntos, com coragem, sejamos capazes de nos tornar bem visíveis no mapa do território que é Portugal, fazendo jus à história das gentes que construíram esta terra e a projetaram para além das suas fronteiras.

 

É, assim desta forma, que vejo, como um novo (re)nascer, o verdadeiro espírito natalício, e o próximo ano 2014 que se avizinha, em Portugal e na nossa querida Aquae Flaviae.

 

António de Souza e Silva

 

27
Dez13

Do livro " Chaves, Olhares Sobre a Cidade"

 

Os Resistentes

“Os meus heróis não são heróis à força, são seres modestos, pessoas realmente humildes, com tanta humildade que alcançam a heroicidade e universalidade. (…). O meu herói é um homem vulgar, que dá tudo o que tem dentro de si”

 

Miguel Torga, In entrevista ao JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias, de 26.Jan.1988

 

O meu herói também cabe dentro do herói de Torga, mas hoje, em vez de herói, mesmo sem perder um pingo da sua heroicidade, quero chamar-lhe antes - resistente. O meu herói é um resistente. Vive no campo, na aldeia, é rural. É um resistente da montanha, vive com um pequeno punhado de outros resistentes iguais a si. Resiste às portas fechadas das casas abandonadas, resiste ao silêncio das ruas sem crianças. O meu herói é aquele que, por entre o seu mar de montanhas, resiste às noites frias de inverno, resiste ao inferno do verão e sempre resistiu ao convite da partida enquanto se despedia dos filhos que sabia não regressarem mais. O meu herói resiste à solidão, resiste ao desprezo dos senhores das cidades, resiste à dor e à doença e,  enquanto tiver forças,  resiste ao chamamento da terra. Prefere servir-se dela para lhe receber as sementes que mais tarde irão fazer o pão com que resiste à fome e no fundo, bem lá no fundo, o meu herói resistente apenas vive a vida que lhe deram para viver, a única que sabe viver,  e vive feliz, com ela, e com um pouco de nada.

Fernando DC Ribeiro

 

 

Um país que acaba…

 

Aqui… ruas estreitas e vazias, pedras gastas pelos passos dos Homens

Algures… avenidas largas, luzes e gentes sempre apressadas

 

Aqui… casas fechadas de gentes que sonharam outras vidas

Algures… prédios sem história cheios de gente anónima

 

Aqui… o silêncio, o cantar do galo, o toque do sino da igreja

Algures… o bulício, o barulho, o trânsito

 

Aqui… terras abandonadas que outrora deram pão e vinho

Algures… terras arrasadas para novas ruas e avenidas

 

Aqui… um café, idosos em silêncio, um jogo de sueca

Algures… uma esplanada, mesas e toldos coloridos, conversas animadas

 

Aqui… um fontanário a lembrar vivências de outros tempos

Algures… um jardim sufocado entre arranha-céus

 

Aqui… cantos e recantos por onde crianças felizes correram e brincaram

Algures… crianças que crescem entre quatro paredes

 

Aqui… histórias de famílias e tradições centenárias que se perdem

Algures… vidas simples, vazias, rotineiras

 

Aqui… um país que acaba

Algures… um outro país que começa?

 

Luís dos Anjos

 

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