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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

02
Jan14

Discursos (emigrantes) Sobre a Cidade

 

Fazer-se ao mar

 

Antigamente, ninguém tinha medo de fazer-se ao mar.

 

Ninguém esperava o impensável, mas o improvável acontecia. Ninguém procurava o seu oposto, mas o imprevisto acontecia. Cada um a rodopiar no seu turbilhão e não era preciso nenhum "velho do Restelo" para lembrar que para que surjam mundos novos, os antigos têm de desaparecer.

 

Seguiu-se um Portugal à "beira mar plantado", sem turbilhões nem receios, e ainda hoje ninguém tem medo do mar, mas fazer-se ao mar é outra história. Uma história que parece não caminhar para o fim, uma história que se encheu de príncipes desencantados e princesas desiludidas, e cujo Rei fugiu para terras germanas, deixando um povo entregue à própria sorte e vulnerável às intempéries.

Desembarcamos no medo. Já não há Deus suficiente para salvar. Já não há Ciência suficiente para resolver. Já não há Homem suficiente para acreditar. E agir.

 

Último Domingo de 2013, Barceloneta, Barcelona - Foto de Sandra Pereira

 

Desembarcamos no egoísmo. Num mundo onde, cada vez mais, a partilha é virtual. Conversa-se com um dedo ou com um ecrã, "enviam-se" sorrisos, desvia-se o olhar de alguém para um telemóvel, na rua, numa mesa de café, em casa, até mesmo em frente ao mar como se ele por si só não bastasse para reter a atenção. Conta-se a vida virtualmente a toda a gente mas a ninguém em particular, conforta-se o ego nas redes sociais espalhando-se vivências alegres e gostos folclóricos que irão receber um "Gosto" inexplicável, e afinal o ecrã do tablet (que este ano arruinou o Pai Natal) só admite um espectador. Nas entrevistas de emprego, já não conta a primeira impressão, mas a qualidade do áudio. Nos concertos já não conta o momento, mas o vídeo que o prova nas redes sociais. Connecting people? ... Deixemos "medrar" a geração dos nativos digitais, em Barcelona, e em Chaves.

 

Antigamente, ninguém tinha medo de fazer-se ao mar. Íamos e ponto.

 

Antigamente, ninguém tinha medo de fazer-se ao mar. Não estávamos sozinhos, íamos juntos se fosse preciso.

 

Sandra Pereira

 

P.S.: Excepcionalmente, e por "encertar" o ano de 2014, o Discurso (Emigrante) não reflecte sobre a cidade, mas sobre o português que há em todos nós, esteja a residir dentro do próprio país ou fora dele.

 

 

02
Jan14

9 anos de blog Chaves - Obrigado!

 

Pois é, aquilo que começou por pura curiosidade, quase brincadeira na cura de uma ressaca de mais uma passagem de ano, acabou por tornar-se uma séria rotina dos dias. Este blog começou há 9 anos e hoje ainda estamos aqui para assinalar a data, para dizer presente e para continuar por cá, diariamente.

 

 

 

Hoje muito diferente dos seus primeiros tempos, continuamos a privilegiar as imagens flavienses da cidade do dia-a-dia e das nossas aldeias, cada vez mais esquecidas e abandonadas. Claro que em imagem não nos ficamos por Chaves, pois é conhecida a nossa paixão pelo Barroso e lamentamos não ter tempo nem meios para podermos alargar a toda a região de Chaves, porque continuo a acreditar que o futuro da região passa por Chaves além concelho, mas infelizmente os que gerem os destinos da região não pensam assim e, preferem tentar arrancar nabos das suas poulas do que passar ao cultivo de toda uma região, rural, com todas as potencialidades que a ruralidade pode oferecer, tendo Chaves como o grande centro comercial dessa região. Mas isto são sonhos meus, ou se calha nem isso, e é de puros devaneios que se trata.

 

 

 

Seja como for, cada vez dói mais viver na terra que nos viu nascer, que amamos e que um dia acreditámos que era a melhor opção para viver, ter os nossos filhos e ter também aqui o seu futuro – Pura ilusão e se as coisas não mudam de rumo, não tarda e Chaves será uma cópia das suas aldeias onde as antigas escolas dão agora lugar lares de terceira idade e casas mortuárias, e no mês de agosto vai superlotar com filhos e netos para verem os seus velhotes resistentes. Mas ainda acredito que a mediocridade terá um termo certo e novos tempos virão.

 

 

 

Mas fiquemos por aqui em lamentos e passemos aos agradecimentos. Primeiro quero agradecer à equipa de colaboradores que fazem com que este blog ainda seja possível, uma equipa que continua a crescer e que espero nos próximos tempos cresça mais ainda, com novos colaboradores e registos diferentes de novas rubricas pensadas, pois o blog, como sempre, está e estará disponível para quem nele queira colaborar.

 

 

 

Agradecer também a quem nos visita. Aos nossos amigos fieis desde os primeiros momentos e que nos momentos certos têm sempre uma palavra de carinho para connosco. Mas agradecer também a todos os visitantes anónimos, principalmente os flavienses ausentes que andam lá fora a lutar pela vida, aos seus descendentes que vêm ao blog tentar encontrar as suas origens e a todos os amigos de Chaves que, por um dia terem passado por cá, partiram encantados com Chaves e as suas gentes.

 

 

 

Há no entanto quatro grandes comunidades da nossa diáspora à qual quero agradecer em particular pela sua fidelidade e quantidade de visitas ao blog. Refiro-me aos nossos emigrantes nos Estados Unidos, no Canadá, no Brasil e os da Europa que fazem com que o blog seja visitado durante as 24 horas do dia e aos quais tento levar, um cantinho que seja, das suas terras de origem, aos quais gostaria de levar ainda mais, mas para tal teria de ter o seu feedback, pois por muito que tente adivinhar aquilo que querem aqui ver ou ser tratado, ainda não tenho essa capacidade da adivinhação.

 

 

 

E vai sendo tudo. Vamos continuar a andar por aí nas ruas de Chaves, nas nossas aldeias, a dar umas voltinhas pelo Barroso e se possível trazer aqui outras terras vizinhas. As nossas crónicas e cronistas vão continuar, Torga vai continuar a fazer-nos companhia e esperamos em breve ter coisas novas.

 

 

 

Quanto às imagens de hoje, são algumas, apenas algumas,  que me deram gozo publicar ao longo deste último ano.

 

 

É dia de aniversário, mas o blog continua e assim, hoje, porque é quinta-feira, temos o “homem sem memória” de autoria de João Madureira (que já foi publicado à meia-noite), mas porque é a primeira quinta-feira do mês, teremos como é hábito os “Discursos emigrantes sobre a cidade” a publicar às 17H00, de autoria de Sandra Pereira, também ela uma flaviense emigrante.

 

Bom 2014 para todos!

 

 

02
Jan14

O Homem Sem Memória - 184

 

O Homem Sem Memória

Texto de João Madureira

Blog terçOLHO 

Ficção

 

184 – O José estava sentado num banco à sombra de uma parede alva como a cal quando viu chegar a brigada de perseguidores. Além de suados, vinham todos perplexos, montadas incluídas. Apenas os cães e o camarada capataz denotavam uma satisfação acrescida. O José nem se mexeu. Fez-se de mexicano a dormir a sesta. Quando a ocasião se proporcionou, perguntou a quem sabia pelo paradeiro do seu amigo. “Será que escapou?”, questionou curioso conjeturando algum milagre. “Do inferno ninguém escapa”, responderam-lhe. Ele voltou a perguntar pelo amigo. A trupe limitou-se a apontar na direção dos cães. Como ninguém dizia nada de esclarecedor, um camarada menos camarada, resolveu contar-lhe a verdade nua e crua. Ele recusou-se a acreditar.

 

Nessa mesma noite, o José resolveu vingar a morte do contador de anedotas. Mas com paciência e método. Decidiu combater os comunistas com as suas próprias armas: organizando células clandestinas e espalhando a incerteza, a dúvida, a desconfiança e a desobediência.

 

Fez-se amigo de vários dirigentes e transformou-se num prisioneiro exemplar. Obedecia a todas as ordens e não contestava nada nem ninguém. Devido à sua conduta exemplar, resolveram conceder-lhe mais liberdade. E ele aproveitou-a. Ia de monte em monte fazendo amizades e tentando desenvolver cumplicidades.

 

Saía de manhazinha e caminhava enquanto o sol não apertava. Por volta das dez matava o bicho com pão e algum conduto que conseguia desenrascar entre a malta conhecida. Depois punha-se a olhar para o horizonte até se perder no infinito. Desesperado com a monotonia das vistas, adormecia. E sonhava. Sonhar era a forma de se manter mentalmente são.

 

Sonhava com a família, com a infância, com o verde dos montes, com os amigos. Sonhava com a sua terra. Quando acordava punha-se a gritar muito alto canções que tinha aprendido na infância. Quando chegava a algum monte habitado disponibilizava-se a ajudar no que quer que fosse. Transformou-se num bom trabalhador agrícola. Aprendeu a viver com as dificuldades do dia-a-dia, com a pobreza, com a indiferença, com a solidão. Amigos verdadeiros deixou de ter, por vontade própria. A sua inseparável amizade passou a ser a sua sombra. Afinal, o José dava azar a quem com ele convivia. Limitava-se a ter conhecidos, que respeitava. Mas nada mais do que isso. Contava histórias às crianças e entretinha-se a ensinar alguns adultos a ler e a escrever. Nunca falava de política, nem de religião e muito menos de futebol. Quando alguém lhe perguntava algo sobre a situação política do país respondia que nada sabia e que pouco lhe importava. Além disso ele era do Norte. E no Norte as coisas são diferentes. “Para pior?”, perguntavam-lhe a rir. Ao que ele respondia que apenas eram diferentes. “E diferentes, como?”, insistiam. O José mudava então de conversa. Falava do tempo e da natureza. Entretanto ia tirando algumas informações sobre o camarada capataz.

 

Contaram-lhe que era um homem que se tinha feito a si próprio, de origem humilde. Não se lhe conheciam amigos do peito. Tinha sido um jovem solitário que cedo se inscreveu no Partido. Era carreirista, ou, melhor dizendo, um homem de partido. Não discutia ordens nem admitia que as discutissem. Ascendeu rápido na hierarquia, o que não é de admirar. Ainda no tempo do fascismo ficou ligado ao assassinato de uma patrulha de dois soldados da GNR que tinham ido em serviço inspecionar uma greve numa herdade de um latifundiário. Perseguido pelos militares, e pela polícia política, o Partido resolveu enviá-lo para Moscovo. Foi na pátria de Lenine que decorou toda a parafernália de textos sobre a reforma agrária nos países socialistas. Visitou várias herdades coletivas e familiarizou-se com a retórica marxista-leninista. Não entendia nada de agricultura e muito menos percebia o que quer que fosse do conteúdo da ideologia que tinha jurado abraçar, mas era um ás na repetição das palavras dos camaradas do Comité Central que vinham plasmadas no jornal do partido. Com a queda do Estado Novo, voltou ao seu querido Alentejo e encabeçou todas as lutas que pode contra os latifundiários e os seus lacaios. A muitos deles derreou-os de porrada, ele mais as suas brigadas revolucionárias. Não olhava a meios para atingir os fins. Nisso era um leninista genuíno. Com a conquista do poder pelo Partido, manobrou as estruturas dirigentes para o nomearem diretor da primeira Unidade Coletiva de Produção da Reforma Agrária. Mas não tardou que muitos dos camaradas começassem a contestar os seus processos autoritários. Conseguiu saneá-los a todos, sem exceção. Ele mal comia, visitava a família muito de vez em quando e à mulher e aos filhos tratava-os com a mesma autoridade que os demais, como militantes de base do Partido. Muitos dos que lhe fizeram frente foram encontrados mortos nas encruzilhadas dos caminhos. Espalhava aos quatro ventos que era tudo manobra da reação ou de uma seita de fanáticos religiosos. E com esse argumento perseguia ainda mais os já poucos reacionários que por ali existiam, se é que nessa altura sobravam alguns. Como a UCP era um primor de organização política, mas um desastre na produção agrícola e pecuária, resolveram, para bem do povo e da revolução, transformar a UCP num projeto piloto, conferindo-lhe o estatuto de uma Unidade de Produção Agrícola e Pecuária destinada a albergar e a reabilitar prisoneiros políticos, quer reacionários, quer dissidentes. Pois todos sabemos desde o tempo dos campos de concentração nazi que o trabalho dá liberdade, confere igualdade e irradia fraternidade.

 

Ele, como bom comunista, detestava ambos os tipos de prisioneiros, mas odiava ainda mais os dissidentes. Não conseguia conceber como é que depois de terem sido iluminados pela verdade revolucionária eram capazes de renegar a revolução, ou os camaradas dirigentes, ou as orientações partidárias, ou contestarem as verdades ideológicas criadas por Marx, Lenine, Estaline e Alberto Punhal.

 

As orientações do Partido tinham sido explícitas: Os prisioneiros políticos apenas podem sair da UCP reabilitados ou mortos. E ele, como bom comunista, sabia que a reabilitação de um ex-comunista é pura e simplesmente, impossível. E os prisioneiros cada vez eram mais e piores. A dúvida num corpo comunista é uma doença epidémica e mortal. 

 

185 – O golpe final na fé comunista do José aconteceu quando ...

 

(continua)

 

 

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