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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

09
Jan14

O Homem Sem Memória - 185

 

O Homem Sem Memória

Texto de João Madureira

Blog terçOLHO 

Ficção

 

185 – O golpe final na fé comunista do José aconteceu quando leu o discurso de Nikita Khrushchev feito no XX Congresso do Partido Comunista, depois de pedir a todos os convidados estrangeiros que abandonassem a sala. Perante 1400 congressistas atónitos, o poderoso secretário-geral do PCUS discursou durante quatro horas e descreveu com pormenor os terríveis crimes de José Estaline, o homem que foi adorado por milhões de comunistas do mundo inteiro. Talvez ainda mais que Lenine e Marx.

 

Foi perto da meia-noite do dia 23 de janeiro de 1956 que Khrushchev acusou Estaline do massacre de milhões de pessoas. Constou que depois do discurso, muitos dos delegados choraram como crianças, outros puxaram os cabelos e outros ainda desmaiaram ou tiveram ataques cardíacos. Dois suicidaram-se após aquela noite. Mas nem uma única palavra foi publicada pelos meios de comunicação soviéticos. Alguns excertos do discurso foram lidos em sessões fechadas para os corpos máximos do Partido. Muito poucos comunistas estrangeiros tiveram acesso a essa informação. Alberto Punhal foi um deles. E nem pestanejou aquando da leitura do documento. Dele nada contou aos seus camaradas. Guardou-o num cofre-forte em parte incerta. Mas mãos milagrosas, passados 24 anos, descobriram-no e fotocopiaram-no. Para os comunistas, e para a maioria dos cidadãos em geral, o relatório continuou a ser escondido. Muitos, dos poucos que o leram, continuavam convictos de que o que lá estava escrito era tudo, ou quase tudo, mentira. O que diziam uns aos outros para se convencerem era que Khrushchev não passava de um demente mentiroso e fraco.

 

Quando as dezenas de folhas com os excertos mais importantes do discurso chegaram às trémulas mãos do José, ele tratou logo de as guardar em lugar seguro. Com paciência e determinação fez a respetiva leitura e os inevitáveis cálculos. A seguir elaborou um pequeno documento com a intenção de o distribuir através das células clandestinas do campo. O problema era que tanto ele como a meia dúzia dos seus camaradas contrarrevolucionários não atinavam com a forma de o imprimirem para posterior distribuição. Primeiro pensaram na forma de arranjarem papel ou algo pelo estilo. Conformaram-se em acondicionar e secar folhas de cana ou outras idênticas. Mas faltava-lhes a prensa e as letras para organizarem um texto que fosse possível de imprimir e também a tinta.

 

A tinta fabricaram-na utilizando suco de frutos silvestres. Mas continuava a faltar a prensa e o tabuleiro com os carateres gráficos. Depois de muito pensar, o José descobriu uma forma. A solução encontrou-a na cortiça. Desenhou as palavras em placas e depois, com a ajuda de uma navalha bem afiada, esculpiu-as em relevo para serem embebidas em tinta consistente e posteriormente, através de uma prensa de pedra, as imprimir em folhas de plantas. Toda aquela tarefa demorou o tempo que tinha de demorar. Num campo de prisioneiros o que mais sobra é tempo.

 

Foram impressos e distribuídos cerca de quinhentos prospetos. As pessoas que liam os textos, ou que os ouviam ler, pois a maioria era analfabeta, também se recusavam a acreditar em números tão cruéis.

 

A primeira leitura realizada em grupo levou aquela meia dúzia de ex-comunistas desiludidos às lágrimas. Podiam já não ser comunistas, mas muitos deles ainda se sentiam de esquerda e até revolucionários. Consideravam que era possível a utopia do comunismo, mas de um comunismo com rosto humano. Não sabendo que todo o comunismo leva sempre à ditadura e à barbárie. Por isso é que eram considerados pelo Partido uns insensatos e uns contrarrevolucionários perigosos.

 

O texto rezava assim: “Em 1956, Khrushchev revelou que Estaline, durante os seus anos de poder, cometeu crimes monstruosos e ordenou o assassínio de milhões de pessoas. Lembrou ainda que Lenine avisou o Partido para que tivesse cuidado com Estaline. Nessa altura Khrushchev condenou o culto da personalidade do homem que foi apelidado de “o Sol das Nações”. Revelou a deslocação forçada de grupos étnicos na União Soviética, que conduziu a milhões de mortes. Nas grandes purgas (1936-1937), um milhão e meio de comunistas foram presos e 680 mil executados. Por altura do XVII Congresso do Partido, 848 foram executados a mando de Estaline, assim como 98 dos 138 candidatos ao Comité Central. Ou seja, Khrushchev revelou Estaline como um assassino de massas, responsável pelo massacre de milhões de russos e pessoas de outras nacionalidades, muitas das quais comunistas leais. Afinal o Messias comunista não passou de um monstro sanguinário.

 

Mas o pior de tudo é que o camarada Alberto Punhal sempre soube disso e escondeu-o dos seus camaradas e do seu povo. Ou seja, mentiu-nos. Sim, mentiu-nos, porque quem esconde a verdade aos seus camaradas e ao seu povo, mente. E, como diz o povo, mentiroso que mente uma vez mente mais uma dúzia ou três. 

 

Alberto Punhal, sempre apoiou de forma inequívoca a ditadura totalitária na URSS e nos restantes países do Leste signatários do Pacto de Varsóvia que provocou a morte de mais de 21 milhões de pessoas.

 

Eles pretendem que nós esqueçamos ou que sejamos coniventes com esta hedionda mentira, mas o comunismo e o nazismo são duas faces da mesma moeda: o totalitarismo, onde cada indivíduo é subjugado à vontade do Estado. 

 

Mas não pensem que isto aconteceu apenas na URSS. Aconteceu, e acontece, em maior ou menor escala, em todos os países comunistas. Inclusive no nosso. Disso todos vamos sendo testemunhas. A morte aqui nos campos é seletiva, mas não deixa de ser extinção de uma parte do nosso povo. Está na hora de esse mesmo povo se revoltar contra os tiranos que em nome da liberdade e da igualdade mais não fazem do que aprisionar e aniquilar os seus melhores filhos. Agora todos sabemos que o comunismo é uma doença incurável.

 

O esqueleto do camarada John Cleese que ao sol expõe a sua brancura acusatória, ali no meio da planície, diz-nos que os tiranos são todos iguais.

 

E povo que não tem memória nega o seu futuro para sempre.”

 

186- Com a difusão do panfleto, a raiva e a revoltam cresceram. O José ...

 

(continua)

 

 

09
Jan14

O Barroso aqui tão perto...

 

E vamos mais uma vez até ao Barroso, mas hoje vamos privilegiar as palavras das histórias (bem humoradas) da terra fria, reunidas em livro por Bento da Cruz, escritor barrosão por excelência e também um mestre sobre as histórias do Barroso mais sério.

 

 

Fumo Afrodisíaco

 

Um rapaz de paspalhó, sem eira nem beira mas bom serviçal, apaixonou-se por uma vizinha de porta, filha única de lavradores remediados.

 

Apalavrado o negócio com a rapariga, foi-a pedir ao pai.

 

- Eu não te dou a cachopa por duas razões – respondeu o velho. – Primeiro, não tens onde cair morto. Segundo, mesmo que tivesses uma fortuna, depressa a derretias em tabaco.

 

- Se me der a filha, prometo nunca mais fumar um cigarro.

 

O lavrador soltou uma gargalhada:

 

- Tu eras lá homem de largar a chupeta?

 

- Largo!

 

- Por um dia ou dois…

 

- Para toda a vida!

 

- Juras?

 

- Pela minha salvação.

 

- Nesse caso…

 

Aprazaram a boda.

 

O lavrador fez questão de não deixar a honra da casa por mãos alheias. Matou uma vitela e abriu a pipa de vinho. Foi uma festa bonita.

 

Ainda a casa fervilhava de convidados, quando a noiva, invocava má disposição e cansaço, arrastava o noivo para a cama.

 

Na manhã seguinte a mãe quis saber como lhe correr a noite.

 

- Nem me tocou…

 

- Tu que dizes, rapariga?

 

- É o que lhe digo, minha mãe…

 

- Mas então?

 

- Deitou-se, adormeceu… como se eu não existisse…

 

- Estou banzada! Mas não te aflijas. Pode ser que o rapaz estivesse doente… ou bêbado… Verás que esta noite vai ser diferente. Tenhamos calma.

 

A velhota esforçava-se por mostrar um sangue-frio que, na realidade, não tinha. Nem dormiu, a pensar na possível desgraça da filha. E mal esta acordou, correu para ela.

 

- Então?

 

- Nada…

 

- Homessa!

 

E as duas mulheres sentaram-se no escano em silêncio, cada qual a cismar para seu lado. Às tantas, diz a velha:

 

- O rapaz estava habituado ao tabaco… Olha: esta noite, põe-lhes um maço de cigarros e uma caixa de fósforos à cabeceira.

 

A filha assim fez. De manhã levantou-se tarde, com ar cansado, mas feliz.

 

- Então? – Pergunta a velha.

 

- Foi toda a noite…

 

E as duas mulheres foram para a cozinha, radiantes da vida.

 

Dali por um nada entra o lavrador e dá com o genro repimpado no escano, a fumar um cigarro.

 

- Mas então que vem a ser isto? – grita o velho, muito zangado.

 

Acode a velha:

 

- O rapaz fuma e torna a fumar! – E, de dedo espetado no velho: - E olha que tu também devias fumar… Pelo menos, um cigarrito lá de vez em quando…

 

Bento da Cruz, In “Histórias da Vermelhinha”

 

 

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