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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

10
Jan14

Discursos Sobre a Cidade - Por José Carlos Barros

 

Um poema antigo

 

de José Carlos Barros

 

 

Mil novecentos e setenta e nove

 

1.

morria-se de muito olhar com as aves o entardecer

num pátio ou nas margens do tâmega

dos dias de setembro de mil novecentos e setenta e nove.

há sempre um instante para recomeçar as coisas

dizias

tantas vezes sem que o cheguemos a pressentir

um instante para que a memória subtilmente cresça

e nos desenhe alheios dos seus traços. em setembro

de mil novecentos e setenta e nove foi

assim:

as tuas frases desprendidas de tudo quando a sombra

nos tocava de descer por um fio das folhas das árvores

a música

o morrison hotel

a área popular com variações opus 15 nº 3 de joão

domingos bomtempo

a memória do convite desajeitado para dançarmos no

baile do ginásio do liceu de chaves

o olhar como se estivéssemos a aprender o ofício da impaciência

as reproduções pequenas a preto e branco do toulouse-

-lautrec (as putas de montmartre)

que guardavas num bolso do casaco

a ondulação leve dos teus ombros: morria-se

pois

com as aves no entardecer dos dias de setembro

de mil novecentos e setenta e nove: o rumor das nascentes

a devolver os gestos todos desse tempo

o intervalo agora na distância que não finda

uma promessa

uma frase que não sabíamos que era mentira:

tomorrow my

love. com o amor tranquilamente o olhar

ainda

 

 

 

2.

eis pois o regresso ao círculo perfeito

o da memória

uma concha intacta a derivar na arca dos segredos

as manhãs abrindo devagar com a água rente aos lábios: em

setembro de mil novecentos e setenta e nove

a poesia:

um verso dura muitas vezes o tempo dos milagres

le soleil ce jour-là s’étalait comme un ventre

maternel qui saignait lentement sur le ciel (apollinaire)

o lume poisado nos teus dedos

uma nuvem a crescer por dentro das palavras

a tua pele a misturar-se ao vento: conheço

este silêncio

há muitos anos

o desejo a chegar assim

as lágrimas suspensas num fio de tecer

o tempo

meu amor

tão próximo de mim

 

 

3.

por baixo destas pedras foram encontradas em mil

novecentos e cinquenta e um

duas moedas de ouro do imperador adriano

nestas casas e neste descampado (21 de junho de mil oitocentos

e quarenta e sete)

dormiu com cinco mil e quinhentos soldados o

general lavallete a caminho do porto

nesta capela de santo estêvão 

numa manhã fria do ano de mil duzentos

e cinquenta e três

beatriz de castilla y guzman foi prometida a afonso iii

sentes o quê quando a história nos atravessa de

um lado ao outro

o receio da eternidade

algum princípio de lugar? apenas

se morria com as aves

em setembro de mil novecentos e setenta e nove

um corpo quase a única certeza

o medo das despedidas:

é o que fica

a memória afinal imperfeita

um pequeno gesto capaz de atear os incêndios

a história verdadeira finalmente certa

uma flor

como nos dias antigos do mês de novembro de mil

novecentos e setenta e nove

a ilusão

do amor

 

[A versão original deste poema foi publicada no Diário de Notícias (suplemento DN Jovem) na edição de 27 de Janeiro de 1987]

 

 

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