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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

11
Jan14

Palavras para a História das nossas aldeias

 

É difícil de explicar os sentimentos que ocorrem quando vemos a intimidade de um lar esventrado. Mesmo que abandonado, sente-se primeiro a curiosidade, depois ternura, carinho, vergonha, revolta, raiva, sem ser obrigatoriamente por esta ordem, pois às vezes estes sentires acontecem em simultâneo. O quadro que se nos apresenta com a intimidade assim escancarada,  mesmo sem voz, conta-nos coisas, estórias, talvez segredos, e de novo a vergonha de estarmos ali, de, sem entrar,  termos entrado sem ter sido convidados, mesmo que,  a nossa intrusão seja feita com a mesma inocência que o sol o faz desde que a ausência de um telhado lhe deixou de toldar a luz e calor.

 

 

Demoramo-nos com carinho nos pormenores do croché que adornava o pequeno altar da fé, ainda com os santos no caixilho ou na fotografia rasgada, com Jesus na cruz tombado ao lado da Nª Senhora de Fátima que também não resistiu de pé. E de novo muda o sentimento, chega a interrogação ao ver como tanta santidade junta não impediu que um lar fosse esventrado e vem-me à memória as palavras de Torga – “Que povo este! Fazem-lhe tudo, tiram-lhe tudo, negam-lhe tudo, e continua a ajoelhar-se quando passa a procissão”.

 

 

Rua acima, rua abaixo, as portas repetitivamente fechadas, com testemunhos de há muito não se abrirem à luz do dia, à renovação do ar. Por cima quase sempre janelas de vidros partidos, às vezes ainda com a moldura da madeira que não esconde ser o elo mais fraco daquilo que foi a robustez da casa, deixando bem à vista em feridas profundas as agressões do rigor dos frios, da neve, das chuvas mas também do sol abrasador, às vezes com ares do barroso, outras vezes galegos. Só a pedra, o granito, vai resistindo, e mesmo que não resista à queda de um desmoronamento, mantém a sua integridade de resistente jazida em terra até que alguém de novo a ressuscite.

 

 

Quanto ao povo, à vida que ainda resta daqueles que continuam a gastar os degraus de granito, a abrir e fechar religiosamente todos os dias as portas e janelas, aqueles que nos dias frios fazem sair o fumo pelas chaminés adivinhando-se o aconchego do lar, esses, são como o granito - resistentes. Resistem à partida dos que partem, às portas fechadas, aos desmoronamentos dos abandonos. Aproveitam todas as nesgas do bom sol para sair à rua onde protegidos pelas paredes saboreiam momentos, tendo sempre conversas para conversar e um olhar e uma fala para receber quem se intromete. Esperam pela noite enquanto o domingo ou o verão de agosto não chega com os filhos, os netos que sem o saberem, são o alimento da resistência para mais uma semana ou um ano de esperas. 

 

As fotografias que ilustram esta História são da aldeia de Castelões, por mero acaso, pois para ilustrar as palavras,  poderiam ser  de uma qualquer das nossas aldeias.

 

 

11
Jan14

Pedra de Toque

 

MINHA VIDA

 

Boa noite, minha vida.

 

Tu não te chamas assim.

 

Foram muitas as mulheres da minha vida!

 

Conheci-as com muitos nomes,

 

Passageiros como o vento

 

Quando comigo te cruzaste nas ruas da cidade, nos becos do burgo, nos canteiros do jardim, nas margens do rio,

 

Atravessaste comigo as poldras e ofereceste-me gardénias de amor.

 

Foste tu a primeira que me ouviste chamar-te de “minha vida”. Creio que te descobri junto a uma pedra morena que contrastava com as tuas mãos pálidas, que me afagaram em noite de luar intenso.

 

Saboreei depois com meus lábios rubros a quentura de teu corpo.

 

Tu, agradecida, conduziste as minhas mãos pelo veludo da tua pele, que não deixaram de resvalar, envergonhadamente, na dureza dos teus seios pequenos de lindos.

 

Ofertaste-me, de imediato, um sorriso radioso, que aliviou meu desejo.

 

Depois, sempre pelo milagre da sorte, foram aparecendo outras, não no cimo de nenhuma azinheira, mas na esquina do bairro, no café do largo, ao ritmo de um bolero, nos braços de um tango,…

 

Foram muitos, muitos anos, muitas noites sombrias, insónias dolorosas com saudades das sardas, muita música nas palavras que te ouvi, muita gratidão, tanta serenidade!...

 

Às vezes dor. Às vezes barcos de vela panda longe do cais da ribeira.

 

Ah! Os corpos, os braços que abraçam, a indignação que só os espasmos e a brisa sossegam.

 

A última, que virou flor, nasceu do néctar que ressuma dos seus lábios e que, na bruma da noite, me fez perder loucamente no frémito da sua boca!

 

António Roque

 

 

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