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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

22
Jan14

Chá de Urze com Flores de Torga - 21

 

Há dois dias atrás o S.Sebastião levou-me até ao Barroso e,  passei ou estive em algumas terras que Torga trilhou ainda eu não tinha nascido. Conforme ia passando ou estando nalgumas dessas terras, iam-me vindo à lembrança algumas palavras escritas nos Diários de Torga, inspiradas em, ou nessas mesmas terras. Uma delas foi Alturas do Barroso, palavras que, algumas,  já passaram neste blog e que as tenho sempre presentes quando entro numa aldeia, principalmente naquelas em que entro pela primeira vez ou que não conheço tão bem como outras.

 

Alturas do Barroso, 27 de Junho de 1956

 

Entro nestas aldeias sagradas a tremer de vergonha. Não por mim, que venho cheio de boas intenções, mas por uma civilização de má-fé que nem ao menos lhe dá a simples proteção de as respeitar.

Miguel Torga, In Diário VIII

 

 

E relembrando as palavras de Torga os meus olhares tentam adivinhar,  olhar aquilo que Torga olhou e o levou ao registo, pois uma coisa é ler as suas palavras e outra é, in loco, vivê-las e senti-las. Claro, se a sensibilidade do momento ou do olhar o permitirem, só assim entenderemos a plenitude das suas palavras.

 

Alturas do Barroso, 21 de Setembro de 1969

 

A paz destes barrosões, sentados no combro de uma lameira a guardar a junta de bois! Parecem sonâmbulos a apascentar a eternidade.

Miguel Torga, In Diário XI

 

 

Há dois dias atrás, também eu em Alturas do Barroso, subi com os passos pesados a que a neve obrigava até ao alto onde foi erigida uma capela e de onde se vê toda a aldeia. Penso ser aí o “tecto do mundo português” a que Torga se referia em 1991 nos seu Diário XVI, no mesmo registo onde Torga aborda a relação, a referência e proximidade “quase orgânica” que este povo tem com os seus mortos. Ao descer do alto da capela, entrei na aldeia com a avidez de caçar imagens em dia de celebração de S.Sebastião. Numa das ruas, ainda muito antes de me cruzar com uma velhota totalmente vestida de preto,  ao ver-me de câmara fotográfica na mão, muito antes de a levantar à posição de mira, foi-me avisando que não queria fotografias porque estava de luto. Mais uma vez vieram-me à memória as palavras de Torga e fiquei a “tremer de vergonha”.  

  

 

Alturas do Barroso, 1 de Setembro de 1991

 

Incansavelmente atento às lições do povo, venho, sempre que posso, a este tecto do mundo português, admirar no adro da Igreja, calcetado de lousas tumulares, o harmonioso convívio da vida com a morte. Os cemitérios actuais são armazéns de cadáveres desterrados da nossa familiaridade, lacrimosamente repetidos do seio do clã mal arrefecem, cada dia menos necessários, no progressivo esquecimento, à salutar percepção do que significam na dobadoira do tempo. Ora, aqui, cada paroquiano pisa, pelo menos dominicalmente, a sepultura dos ancestrais, e se liga a eles, quase organicamente. Vive, numa palavra, referenciado. Sabe que tem presente porque houve passado, e que, mais cedo ou mais tarde, enterrado ali também, será para os descendentes consciência e justificação do futuro.

Miguel Torga, in Diário XVI

 

 

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