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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

23
Jan14

O Homem Sem Memória - 187

 

O Homem Sem Memória

Texto de João Madureira

Blog terçOLHO 

Ficção

 

187 – Quando o José entregou a peça de caça ao camarada Punhal pensou seriamente em matá-lo pois se o fizesse o poder comunista podia soçobrar. Mas também considerou que o poder podia fortalecer-se e tornar-se ainda mais repressivo. Imitações de Alberto Punhal, para pior, havia-as no Comité Central aos pontapés. Então sorriu para o camarada Punhal e o camarada Punhal também sorriu para ele. Tinha muito tempo para pensar. Tempo e sol.

 

Podemos explicar que o José, apesar de saber que Alberto Punhal é que era o verdadeiro instigador de todo o processo revolucionário, que o mesmo é dizer, de todo o aparelho repressivo comunista, não lhe tinha um ódio mortal. À sua maneira, Alberto Punhal era até uma pessoa sedutora. Sabia manter a distância como ninguém, mesmo parecendo que estava próximo, estava longe. E o contrário também era verdadeiro.

 

Mas o seu autêntico inimigo mortal era mesmo o camarada capataz. Foi ele que matou o seu amigo com um tiro na cabeça e depois o ofereceu aos cães para o devorarem. Quem assim procede é um autêntico assassino, um torcionário sanguinolento, uma hiena execrável.

 

Se existisse Deus, talvez a urgência de o matar não fosse tão premente. Nessa hipótese, o carrasco comunista iria bater com os costados no inferno eterno. Mas a ausência de um Deus juiz e punidor deixava tudo nas mãos dos homens.

 

Uma besta sanguinária daquelas apenas possuía o direito inalienável a morrer. Na ausência de uma justiça divina só subsiste a justiça dos seres humanos. Que não sendo muitas vezes justiça nenhuma é a única forma de punir quem prevarica. 

 

Pode-se dizer que a justiça que implica a morte da pessoa que transgride é radical. Mas para radical, radical e meio. E quem com ferros mata com ferros deve morrer. Além disso, a sentença foi decidida em reunião democrática com todos os elementos da resistência que tinham sido torturados e humilhados pelo camarada capataz. E foi unânime. Todos votaram na pena de morte.

 

Depois de decidida a sentença, os esforços foram todos canalizados para a elaboração de uma estratégia operacional que implicasse a morte do energúmeno e o seu total desaparecimento. Sem cadáver não havia prova física do delito.

 

O José dedicou-se de corpo e alma ao treino com a arma soviética que o camarada Punhal lhe tinha oferecido. O camarada capataz, a princípio ainda levantou algumas dúvidas sobre o assunto. Não lhe agradava mesmo nada ver um dissidente daqueles a fazer pontaria sobre quem lhe apetecesse. E foi isso que transmitiu aos seus camaradas da UCP. Todos concordaram com ele. Com a reação não se brinca. Mas quando a proibição de uso de arma por parte do José chegou aos ouvidos do camarada Punhal ele levou-se dos diabos e deu ordens expressas para que a arma lhe fosse de novo entregue e com plena autorização de a utilizar como muito bem lhe apetecesse. Argumentou que quem tem medo da reação deve comprar um cão. Ao camarada capataz apenas lhe sobrou a solução de enfiar a indignação no bolso. A partir desse dia, o José não mais se deslocou pela herdade sem ser na companhia da espingarda soviética. Acompanhou muitas vezes o camarada Punhal nas suas caçadas e teve-o muitas vezes na mira telescópica da sua arma. Mas nunca disparou.

 

Durante alguns meses, ele e os camaradas reacionários, que lhe eram próximos e fiéis, dedicaram-se ao estudo minucioso das deslocações do camarada capataz pela herdade. Estudaram-lhe os percursos e as rotinas. Elaboraram de seguida um plano que incluía o seu encontro com a morte. Ou melhor, fizeram com que a morte marcasse encontro com ele. Definiram o local e a hora. Puseram-se no lugar do destino. Ou melhor, colocaram lá o José, com a espingarda bem apontada.

 

Tudo aconteceu num dia de abate de árvores, junto de um monte onde o camarada capataz possuía um lamaçal vedado destinado à criação de mais de vinte taludos javalis. Era aí que ele se entretinha nos momentos em que não torturava, nem trabalhava.

 

Os porcos-bravos eram um mimo de carne. Redondos e ágeis, mexiam-se com uma ligeireza felina. E comiam de tudo. Muitas vezes o seu dono lançava-lhes uma galinha viva para por à prova a agilidade dos animais e punha-se a contar os segundos que o pobre galináceo aguentava vivo. Escusado será dizer que durava poucos. Muito poucos mesmo. Depois do sacrifício, punha-se a rir como um desalmado. Que era aquilo que verdadeiramente era. Também experimentou com coelhos e o resultado foi o mesmo. Os javalis pareciam lobos. Experimentou ainda com cordeiros, cães e até burros pequenos. Tudo o que entrava na cerca era devorado. Um dia resolveu por à prova a agilidade dos seus javalis introduzindo na cerca um gato. Naquele dia os javalis perderam por uma unha negra. Mas perderam. Desenlace que teve origem na desatenção do javali que se encontrava no sítio onde ficava a única saída para o felino. Safou-se o gato, mas o javali não. Nessa mesma noite foi morto e dado a comer aos outros seus companheiros de curral. 

 

O José e muitos dos seus companheiros assistiram a alguns destes inúteis rituais de cretinice. E não foi em vão, como mais adiante veremos.

 

Mas recuemos um pouco até ao momento da espera do José. Então lá está o nosso amigo estendido no chão com a arma apontada a uma curva do caminho. As motosserras cortam as árvores fazendo um barulho ensurdecedor. O camarada capataz desloca-se na direção dos trabalhadores. Mal o veem aproximar, aumentam a intensidade do trabalho, do qual resulta o aumento do barulho. Depois observam-no a cair ao chão como se fosse uma árvore derrubada. Quatro trabalhadores deslocam-se na sua direção, pegam nele e levam-no para um lugar escondido. Nunca mais ninguém o viu.

 

O seu desaparecimento foi muito comentado e alvo de muitas especulações. Houve sessões de tortura por parte dos seus apaniguados para tentarem averiguar se alguns dos suspeitos do costume sabia alguma coisa. Mas ninguém deu com a língua nos dentes. Como o cadáver não apareceu, deram por encerrado o caso. As chefias foram mudadas. Nesse dia houve festa na UCP. Os convivas foram brindados com a carne dos javalis do camarada capataz. Apenas meia dúzia de prisioneiros, incluído o José, evitou comer carne assada no espeto.

 

Entre eles tiveram a seguinte conversa: “Os javalis estavam tão bem treinados que nem os ossos restaram”, disse um. Outro comentou: “Apenas sobrou o coração. Os recos não conseguiram meter-lhe o dente. Era duro como cornos. E o José rematou: “Admiro-me como tinha coração.”

 

188 – Os tempos que decorreram foram de ...

 

(Continua)

 

 

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