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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

24
Jan14

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

 

 

A CAPELA DE FORNELOS

 

Não fora a sua humilde capelinha, construída em honra da padroeira Nossa Senhora da Assunção e Fornelos, no toutiço do Planalto, seria um ignorado povoado, ausente de expressão relevante, na imensidão quase desértica do altiplano do Brunheiro. Numa pesquisa toponímica, percebemos que o seu nome derivou da palavra latina furnellus, que significava fornos pequenos. Agora, notícia de fornos, por ali, só mesmo os de cozer o pão. De outros não avezamos novidade nem memória. Todavia, nem duns nem doutros rezará esta redação.

 

Corria o ano de 1760, cinco anos volvidos após o fatídico terramoto que arrasou Lisboa e os Algarves, no dia de Todos os Santos. No termo deste segundo terço do séc. XVIII, haveria em Fornelos apenas duas casas: a do padre Zé, oriundo de Água Revés e que veio pastorear as ovelhas de Santa Leocádia, e a dos antecessores da tia Miquelininha.

 

Da lavra das courelas do clérigo trataremos depois. Por agora, ariquemos os linhares da Miquelinina, para mais tarde lhe mondarmos o renovo.

 

É curioso perceber que é, sobretudo, a partir do casal desta senhora que a aldeia cresce, já em finais do século seguinte. De facto, a tia Miquelininha era uma respeitada solteirona que herdou, dizem que de um padre, as leiras mais mimosos do lugar. Sem descendência que lhe garantisse a lavra, contratou um criado em Loivos, de nome Manuel Ferreira Borges, mais conhecido por ceboleiro, por vir do sítio onde a terra dá mais cebolas do que penedos! Na flor da idade, o serviçal, apesar da casca grossa de seu berço, detinha invulgares predicados: era honrado, sério e bom trabalhador e o melhor é que assobiava quase tão bem como trina o rouxinol nos silvados. Quando lavrava a cortinha da Ginjeira, contígua à casa, esmerava-se tanto na harmonia que a senhora sua ama se sentava na pedra da janela, fingindo bordar, somente para o ouvir. Ora, aqueles silvos em tom menor começaram a bulir com o coração da dama, ao ponto de as lavouras, aos serões, começarem a ser outras! A coisa estava a ganhar proporções perigosas. Para evitar o falatório e o consequente escândalo de uma senhora, prendada, se dar a um criado, ela mandou-o ao Brasil para que se polisse. Esteve em Alagoas, a servir, durante cinco anos. Quando regressou vinha de fraque, de cartola e mala de crocodilo. Já não era vergonha casar com um brasileiro! O nó foi dado na matriz de Santa Leocádia, mas com voto de castidade para calar o povo. Não sei se do cumprimento escrupuloso do voto, ou se de outra coisa qualquer, a verdade é que nunca alcançaram filhos. Como a idade ia avançando, para amparo da velhice foi pedida, emprestada, uma sobrinha catraia ao seu irmão, também ele ceboleiro, que tinha ido servir para o Porto e aí constituído família. Esta menina, com apenas cinco anos, Albertina Borges, haveria de ser a minha avó materna. Herdou o vasto casal da Miquelininha, mas teve de aturar os anciãos até ao final de suas vidas.

 

 Fornelos

Mas tornemos à vaca fria!

 

Ora, uma aldeia com padre e sem capela, era como um ninho sem pedrinhas! Mas para que Fornelos a avezasse, era preciso dinheiro e consentimento da vetusta Archidiœcesis Bracarensis, de cuja autoridade eclesiástica dependia esta região. De notar que a paróquia de Santa Leocádia, que inclui o lugar de Fornelos, pertence ao arciprestado de Chaves e à diocese de Vila Real, somente desde 22 de Abril de 1922.

 

O tal padre Zé tinha uma criada, a Clotilde Zidéria, que desde a missa nova lhe aconchegava a mesa e o cobertor de papa, nas noites geladas do Planalto. Mulher tesa, esta Zidéria, tinha pelo na venta, como se dizia. Assucava, semeava e sachava como qualquer homem e, quando preciso fosse, até alombava, do pátio para o palheiro, com as sacas de cem quilos de sal que comprava em Carrazedo para as salgadeiras. Era natural da vizinha aldeia de Adães, de uma família modesta mas destemida.

Mal a Zidéria se deu conta do sonho de seu amo e da precisão do povo, logo idealizou forma de conseguir a capelinha. Meteria pés ao caminho até Braga, a fim de clamar pelos Pintos e pela autorização ao Arcebispo. Contudo, a empreitada dava pelos peitos a uma mula! Ir tão longe, por tão maus caminhos, sujeita a tantos perigos, sozinha e à pata, não era saga para qualquer um! Levaria uma boa semana a chegar lá e, se o Arcebispo não estivesse com as pernas abertas para a receber, a jornada poderia redundar num fracasso difícil de tragar. Mas, como quem não arrisca não petisca, planeou a saída de forma a estar na Roma portuguesa em plena Semana Santa.

 

Naquele ano, a Páscoa calhava a 6 de abril e a Semana Santa decorria a partir de 31 de março. Por isso, saiu de Fornelos a 24 de março, uma segunda-feira. Ajeitou uma pequena trouxa que encabou num varapau, preparou a roca e o fuso para se entreter pelo caminho e fingir aos malfeitores que era de alguma aldeia próxima. Enrolou-se numa capa de burel e, encabada nuns socos serrados, fez-se ao caminho. Não o sabia, contudo, por essas aldeias, não faltaria quem lho ensinasse, quem lhe matasse a fome e quem lhe emprestasse um palheiro para pernoita. Medo, medo, só dos lobos e das almas penadas nas encruzilhadas. Dos primeiros salvá-la-ia o cipó, das segundas as Ave-marias. Seguiu, então, por Matosinhos até Loivos e chegou pela noitinha ao Vidago. Aí pernoitou. No dia seguinte dormiu nas Boticas. A terceira pernoita fê-la em Salto. No quarto dia de viagem, atravessou o Regavão pela ponte da Misarela e dormiu em Ruivães, num palheiro da casa do Capitão-Mor. Depois, pela ponte do Saltadouro, a mesma onde anos mais tarde os franceses haveriam de pagar com centenas de mortos as pilhagens e as violações de segunda invasão, seguiu até Salamonde onde pernoitou pela quinta vez. No dia seguinte, pernoitou já em terras de Lanhoso e no domingo, dia 30, arribou, pela tardinha, à cidade de Braga.

 

 Fornelos - Rua Principal (EN 314)

Deslumbrou-a a engalanação para a Semana Santa. Nunca tinha visto cidade tão grande, tão bonita e tão pia. Também, a bem dezer, só conhecia a vila de Chaves!.. Procurou onde era a Sé e o Paço Arquiepiscopal, residência oficial do Arcebispo. Depois do reconhecimento, acolheu-se num albergue para peregrinos de Santiago. No dia seguinte, cedo, dirigiu-se ao Largo do Paço e procurou a entrada principal da residência arcebispal. Ao tempo, ocupava o cargo D. Gaspar de Bragança, desde 1758.

 

Permita-se-me que saia aqui do rego, para falar um pouco desta figura.

 

O infante D. Gaspar de Bragança, nasceu em Lisboa, a 8 de Outubro de 1716 e faleceu em Braga a 18 de Janeiro de 1789. Foi um dos filhos ilegítimo do rei de Portugal D. João V, nascido de uma relação com a religiosa Madalena Máxima de Miranda. Foi o segundo dos Meninos de Palhavã. Com apenas 42 anos de idade, foi nomeado Arcebispo Primaz de Braga, sucedendo ao seu tio D. José de Bragança, também ele filho bastardo de D. Pedro II rei de Portugal. A talho de foice, refira-se que D. João V tinha um fraquinho por freirinhas. Visitava, com certa frequência, o convento de Odivelas, onde alimentava o espírito, mas sobretudo a carne com as suas amantes monjas. Dessas incursõess, nasceram os tais Meninos de Palhavã: D. António, filho de Luísa Inês Monteiro que veio a ser cavaleiro da Ordem de Cristo; D. Gaspar, Arcebispo de Braga e D. José, filho da Madre Paula de Odivelas que exerceu o cargo de Inquisidor-mor. O povo chamava aos zorros Meninos de Palhavã, por residirem no palacete com o mesmo nome e que o rei mandou edificar, propositadamente, para os acolher. Hoje está aí instalada a embaixada de Espanha.

 

Tornemos à lavoura!

 

Ao chegar ao Largo do Paço, Zidéria dirigiu-se à porta principal e pediu ao porteiro que lhe permitisse a fala com sua eminência o Arcebispo. Claro está que o seu aspeto andrajoso deve ter provocado o enxotamento para mais de três léguas abaixo de Braga! Contudo, como mulher corajosa que era, ateimou, ao ponto de mamar duas labrestadas para desistir por aquele dia. No seguinte, compôs-se como pôde, mas recebeu do mesmo. Dando-se conta que por ali não chegava ao Arcebispo Primaz, tratou de indagar pelas tascas das redondezas quando é que ele rezava missa na Sé. Soube que era costume fazê-lo pelas onze horas da quarta-feira da Paixão. Neste dia, alguns anos mais tarde, passou a organizar-se em Braga, a tradicional procissão da Burrinha. Pregou-se no templo, assistiu à eucaristia e esperou pelo final da cerimónia. Tirou as medidas à entrada da sacristia e quando lhe pareceu, investiu direitinha à autoridade, sem que cónego ou acólito a pudessem deter. Pensando o sacristão que seria seu propósito esganar o Arcebispo, pegou na tranca da porta e levantou-a para lhe partir os cornos! Não teve tempo porque Clotilde caiu aos pés do clérigo de joelhos clamando pia e humildemente uma oportunidade de lhe chegar à fala. Perante tão inaudito propósito, D. Gaspar, acedeu a recebê-la em audiência na tarde desse mesmo dia, uma vez que, no fim daquela missa, já se fazia tarde para atacar o peru assado que o esperava para o almoço.

 

Capela de Fornelos

 

Zidéria comeu à pressa uns rojões com farinheira numa qualquer taberna de S. Marcos e nem escoucou a tijela do verdinho para ir tomar vez à porta do Paço. O porteiro, avisado, já não a escorraçou. Seriam umas quatro da tarde quando recebeu recado para que ela entrasse. Subiu prestes a escaleira e de corredor em corredor, arrastando os pesados tamancos pelo sobrado encerado, lá chegou aos aposentos de despacho do Arcebispo D. Gaspar.

 

Não era para qualquer um!

 

O vigário quis ouvir, pausadamente, a sua estória. Comoveu-se tanto com a sua coragem, mas sobretudo com a sua fé, que não só acedeu ao pedido de autorização da construção, como ofereceu o próprio projeto e grande parte dos fundos necessários para que Fornelos tivesse a dita cuja. Porém, não se ficou por ali. Ordenou que arranjassem aposentos, comida e roupa decente para aquela heroína. Também a convidou a assistir às cerimónias da Semana Santa que teriam lugar nos dias seguintes e prontificou-se a pô-la em casa com escolta e cavalo. Que fosse pelos papéis e pelo dinheiro no sábado de manhã!

 

Zidéria nem queria acreditar. Rebentava de contentamento. Naquela noite, correu quantas tascas havia em Braga. Bebeu e comeu quanto pôde e sabe-se lá para que outras folias teria dado aquela alegria esfusiante!.. Bem vistas as coisas, até que as merecia e ao mais ninguém a conhecia! O padre Zé que tivesse paciência, para si haveria de bondar!

 

Bota e bira! Foi até lhe chegar com um dedo, da Falperra ao Sameiro e do Sameiro à Falperra!..

 

No dia seguinte, não se segurava nas canetas! Só por fé conseguiu assistir ao resto das cerimónias.

 

À noite, naquela quinta-feira Santa de 3 de abril, assistiu, compenetrada, à procissão do Ecce Homo, popularmente designada por Procissão do Senhor da Cana Verde, a recordar Pôncio Pilatos dizendo aos Judeus: eis o homem, quando lhes mostraram Cristo coroado de espinhos, com uma cana verde nas mãos a imitar um cetro. Extasiada ficou quando, à frente, descalços e encapuçados, viu caminhar os farricocos, vestidos com balandraus e uma corda atada à cintura, outra a cingir-lhes a testa e a cabeça, sobre uma espécie de capuz com dois buracos para os olhos. Perguntou quem seriam aquelas almas do diabo! Explicaram-lhe que eram os homens dos fogaréus, por transportarem um cabo de madeira, na ponta do qual balançava uma bacia de cobre com pinhas a arder. Porém, o que mais a impressionou foi o soar das matráculas, que, após o silenciamento dos sinos, na intenção de chamar os fiéis ao culto ou a lembrar-lhes a confissão e a penitência, os farricocos faziam soar com grande estardalhaço.

 

Aquilo metia medo!

 

A noite de quinta-feira foi outra desbunda! Mas, desta feita, teve de ser com hereges. Os crentes da cidade não se davam a excessos, nestes dois dias santos.

 

Na sexta, assistiu à Procissão Teofórica do Enterro do Senhor. Comoveu-se com a manifestação de fé e o recolhimento dos minhotos. Os irmãos da Misericórdia e de Santa Cruz, encapuçados, arrastavam compridas varas. Os cónegos da Sé, ostentavam, taciturnos, tochas acesas na mão envergando mantos negros, com caudas muito compridas seguras por caudatários, que impediam que arrastassem pelos charcos e pela estrumeira das ruas. Também seguiam crianças, vestidas de anjinhos, com símbolos alusivos à Paixão e outras representando figuras de santos. Mas o que mais a comoveu foi ver a Senhora das Dores com as sete espadas cravadas no peito. Nesta procissão também seguiam os farricocos, porém com as matráculas silenciadas e os fogaréus apagados. Correram-lhe bágoas nos olhos ouvindo o comovente silêncio à passagem da procissão, apenas interrompido, a espaços, por uma voz que entoava:

 

- A el libitum lamentabile, heu, heu, Domine, heu, salvator noster! - Evidenciando o sentido de fé e a penitência deste povo sofrido e temente a Deus.

 

A procissão recolheu-se e com ela a Zidéria. O Sábado ia ser duro no regresso a Fornelos.

 

Manhã cedo estava pronta para partir. Recolheu a autorização de construção, o projeto de arquitetura e os Pintos em ouro. D. Gaspar de Bragança havia sido generoso, ofereceu vinte Pintos para a respetiva construção e a exigência de apresentação de contas após obra feita.

 

Zidéria, montada num portentoso alazão e acompanhada por dois fogosos cavaleiros, chegou a Fornelos passados três dias, toda croncha!

 

Claro está que mal o padre Zé e o resto da aldeia tomaram conhecimento do que Clotilde havia conseguido, ficaram esfusiantes por poderem contar com uma capelinha e uma padroeira.

 

Logo trataram de ajeitar o terreno. Não custou muito tempo nem dinheiro, pois foi oferecido pela casa da Miquelilinha. Com o projeto de arquitetura concluído, havia, tão só, de se encomendar a obra. A tarefa foi entregue ao pedreiro Horácio do Carregal que já havia dado provas de grande mestria noutras obras por outros lados.

 

No início de 1761, iniciou-se a abertura dos caboucos para os alicerces. A pedra haveria de ser cortada na pedreira de Santa Leocádia. A madeira nos soutos de castanheiro bravo que abundavam por ali. O colmo, para a cobertura, colhido da melhor palha centeia que os malhos estarrincassem na eira da aldeia. O trabalho de talha entregue a dois experientes marceneiros de Braga. As pinturas e a folha de oiro da talha dourada, ao mestre Carrapiço, também ele de Braga e indicado pelos marceneiros. Os santos e as santas, encomendados aos santeiros da rua do Souto.

 

Aos poucos foi sendo levantada a obra e, à medida que crescia, embora lentamente, ia mostrando toda a sua dignidade. Ficou prontinha a inaugurar em 1772. Da sua arquitetura destacam-se, com particular interesse, quatro elementos: o frontão triangular sobre a porta principal, os pinoucos de pedra que encimam cada uma das arestas frontais e dois buracos ventiladores frontais, um de cada lado da entrada principal. O mais simples de tudo é o campanário, com um pequeno sino, também ele encomendado à oficina de João Ferreira Lima e José Rodrigues na cidade de Braga.

 

A inauguração realizou-se com pompa e circunstância. A Zidéria fez das tripas coração para que o próprio D. Gaspar estivesse na primeira missa. Mas, não tendo sido possível, conseguiu Francisco Pacheco Pereira, um cónego do cabido da Sé, o mais célebre pregador da época. Francisco fez um sermão de se lhe tirar o chapéu. A Clotilde afirmava, a pés juntos, que chegou a ver lágrimas de emoção verterem-se das pedras do templo, pasme-se!..

 

De facto, não será demais afirmar que a capela de Fornelos foi, e é, o edifício mais bonito e mais nobre da aldeia. Justifica-se, pois nele vive Cristo, acompanhado de sua mãe, a Senhora da Assunção, nome da Virgem Maria em alusão à sua assunção aos céus.

 

Muita da minha meninice foi passada nesta terra de minha mãe, em brincadeiras dominicais no adro desta capela.

 

Há tempos, conversando com um tio meu, nado e criado em Fornelos, soube de duas curiosas passagens que, relacionadas com o tema em apreço, não quero deixar de trazer à liça.

 

Contava-me que nos anos quarenta, a rapaziada da aldeia, para lá do chincalhão do fite, do rou-rou, da reca e do pião, em pouco mais ocuparia as horas, raras, de ócio. Contudo, começava nessa altura o vício de jogar à bola, o que se fazia na estrada em frente à capela e com uma bola de trapos. Ora, para além de ser de curta duração, a bola era impraticável quando chovia, por ficar enchupiçada em água e lama. Portanto a rapaziada, sonhava com uma bola de capão. O pior era arranjar dinheiro para a comprar. Acordaram numa estratégia: dali até ao verão, cada um dava cinco tostões por semana para a bola. No verão, o Horácio costumava ir com a família a banhos à Póvoa de Varzim. Aí compraria a bola de couro.

 

 Capela de Fornelos

Assim foi.

 

Quando, no fim de agosto, regressou, a dita cuja fazia as delícias da ganapada. Aquilo eram jogos de Benfica contra Sporting quase todos os domingos. Ora, um belo dia, um pontapé mais vigoroso levou a bola a estilhaçar uma vidraça da janela da sala do Ti Madeu que botava para a estrada. Janela essa que ficava mesmo em frente à capela de Fornelos. O pior de tudo é que a bola ao bater no vidro, não só o esmigalhou, como entrou sala adentro, escacando, também, um santo Antoninho de barro, empenho de sua sogra, a Lavradeira. A bola entrou inteirinha mas foi devolvida ao relvado em pedaços, retraçada pela navalha de enxertar do Ti Madeu. Aquilo foi a maior ofensa que alguém lhes podia ter feito! Para verem, o Nano chegou a dizer que antes queria que a Senhora da Assunção caísse do nicho e se esmoucasse todinha, do que ter a sua bola em fanicos!..

 

A vingança não se faria esperar!

 

Dias mais tarde, dois dos mais afoitos, numa noite chuvosa, encafuaram-se na capela, pela porta lateral que quase sempre estava destrancada. Iam munidos, cada um com sua fisga, e os bolsos cheiinhos de bodrelhos. O Horácio ficou no ventilador da direita, o Marcelino no da esquerda. Começaram a disparar à vez sobre as vidraças da sala do Ti Madeu. Do lado direito era cada cabalhão sua mioca, do esquerdo cada tiro cada melro! Às primeiras fisgadas, o Madeu ainda veio à estrada para ver se descobria quem lhe estava a escacar os vidros. Mas, não vendo ninguém e não sonhando sequer que as pedradas pudessem vir do lugar santo, tornou as culpas às almas penadas do outro mundo e foi pedir ajuda à bruxa da Amoinha.

 

Os rapazes ficaram sem bola. O Madeu sem as vidraças da janela! Quites!

 

A festa da padroeira tem lugar a 15 de agosto. Raro é o ano em que não se faz festa rija em sua honra. Desta vez, estávamos em 1957. Fornelos contratou a música de Loivos para animar a procissão e o bailarico e o padre Salgado para a missa e o sermão. A missa solene decorreu com a capela quase a abarrotar. Da aldeia estavam todos, mas quem a atacava verdadeiramente eram os convidados vindos de outras bandas para encher as bentas, na casa dos amigos, de marisco do Planalto que é o leitão!

 

O padre Salgado, durante a celebração e antes da oração dos fiéis, fez uma pausa longa e despropositada. O silêncio, quase absoluto que daí resultou, foi quebrado pelo estampido de um repimpado flato, vulgo peido, imediatamente seguido do eco de uma valente estalada!

 

- Ah, seu cara de carvalho (tudo declarado), atão isso faz-se na missa? Num tens bergonha!?

 

Fora o Madeu que, não tendo sido capaz de cerrar as belbas aos gases da fermentação da feijoada do dia anterior, se deixara ir, como um boubelo! Porém, não se descompôs. Pregou as culpas, e uma tremenda lambada, no focinho do catraio Nano, que, estando ao seu lado, pagou as favas sem qualquer proveito!

 

O padre Salgado, corado, precipitou-se para a oração dos fiéis. A Virgem Senhora, sem que ainda hoje saiba ao certo quem se peidou, perdoou a ofensa a Fornelos por ser o dia da sua festa anual!

 

Abençoado povo que pariu tão azada obra!..

 

 

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