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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

30
Jan14

O Homem Sem Memória - 188

 

O Homem Sem Memória

Texto de João Madureira

Blog terçOLHO 

Ficção

 

188 – Os tempos que decorreram foram de alívio e medo. Alívio porque o torcionário tinha desaparecido sem deixar rasto e medo porque ninguém sabia o que se passaria a seguir. Tanto o poder como a populaça se estudavam mutuamente. A incerteza cria a desconfiança e o caos.

 

As chefias provisórias foram procuradas na prata da casa. Mas tudo o que é provisório é fraco. E os prisioneiros começaram a pugnar por mais direitos, argumentando que estavam inscritos na Constituição. Responderam-lhes que a Constituição Socialista, que tanto custou a escrever, é para gente de bem, para o povo, não para os traidores. Os traidores são tratados como isso mesmo, como gente que não conhece a razão. A razão do Estado, a razão das ideias, a razão do Partido.

 

Gerou-se muita polémica, a que o José não passou incólume. Mas ele, pelo menos publicamente, não manifestou qualquer opinião. A princípio, os seus camaradas contrarrevolucionários estranharam o procedimento. Até porque sabiam que o José era muito bom na liderança dos processos políticos de massas e sabia falar e argumentar como poucos. Mas todos igualmente sabiam, e o filho da Dona Rosa mais do que ninguém, que pela boca morre o peixe. E ele, pelo menos desta vez, não ia morder o anzol.

 

Sabia que esta direção do campo era provisória e que tinha recebido ordens expressas para amaciar os procedimentos para ver se descobriam os responsáveis pelo desaparecimento do camarada capataz. Se o exemplo vingasse, o poder estava em perigo. Nenhum camarada pode desaparecer assim do pé para a mão e nunca mais ser encontrado. Isso era o caminho para a anarquia. E se os comunistas detestam visceralmente alguma coisa é a anarquia, que é o contrário da organização, da ordem e, por conseguinte, do socialismo e do seu estádio superior, o comunismo.

 

Claro está que aquela gestão de águas mansas num campo de concentração tinha de ser como a chuva de verão. E passadas apenas algumas semanas o sistema de administração endureceu bastante. O novo capataz, tendo um aspeto físico muito diferente do anterior, era nos procedimentos em tudo idêntico ao seu volatilizado camarada. Quando o puseram à prova com a sugestão da trasladação das ossadas do John Cleese para uma campa do cemitério para descansar em paz, limitou-se a afirmar que tudo devia permanecer igual ao que estava, pois essa era a forma de perpetuar a memória do seu antecessor que tão boas provas tinha dado de dedicação à causa revolucionária educando os reacionários nos sãos princípios do marxismo-leninismo. “Os bons exemplos são para ser seguidos”, disse alto e bom som logo na primeira reunião com os prisioneiros.

Escusado será dizer que o José prometeu vingança, pois a ideia de alguém ser capaz de deixar as ossadas do seu estimado amigo expostas aos olhares dos prisioneiros como uma forma de aviso macabro, era-lhe intolerável. Por isso decidiu reunir com o seu núcleo mais próximo para tomarem uma decisão.

 

A primeira proposta foi a de que se devia proceder com este capataz da mesma forma que com o anterior, pois eram duas almas gémeas na insensibilidade e na repressão. Todas as seguintes intervenções foram do mesmo teor, que se devia eliminar o mal pela raiz e fazê-lo desaparecer da mesma forma. Mas o José tinha outra opinião. Não se deviam adotar dois procedimentos idênticos pois seriam logo objeto de suspeita e investigação. Além disso os pobres dos javalis não mereciam serem envenenados com carne de tão fraca procedência. As doses de veneno podiam ser-lhes fatais.

 

Quando questionado, à boa maneira leninista, sobre o que fazer, respondeu que deviam dar-lhe um tiro entre os olhos, precisamente no mesmo sítio onde o torcionário anterior tinha alvejado o companheiro John Cleese. Eles olharam para o José como se de repente tivesse enlouquecido. Pois esse era um tipo de procedimento que de certeza os levaria ao fuzilamento. O José concordou que tudo indicava que sim, mas apenas se depois do disparo e da morte do capataz ficassem ali à espera de que os viessem prender, torturar e fuzilar.

 

O plano do José baseava-se na morte do torcionário, seguida de fuga e evasão, mas uma evasão em grupo, devidamente organizada, com o objetivo de constituírem uma brigada revolucionária, de sentido oposto, que se dedicasse a combater o poder ilegítimo instituído na República Popular do Sul. “A morrer devemos morrer de pé como os sobreiros”, disse com a voz embargada. “E não aguardar fenecer sem fazer nada para inverter este estado de coisas.” No que foi apoiado pelos seus camaradas contrarrevolucionários.

 

O primeiro procedimento foi o de recolherem as armas e as munições que o José tinha vindo a acomodar e a esconder em lugar seguro. Afinal, a sua dedicação ao campo e aos roteiros de caça tinham dado os seus frutos.

 

O dia escolhido para a ação foi o do aniversário da UCP. Decidiram que matariam o capataz na cerimónia oficial. E foi isso que fizeram. Deram-lhe um tiro mesmo no meio da testa quando ele e os seus camaradas convidados mais destacados da região degustavam a carne de alguns dos javalis responsáveis pelo desaparecimento do anterior diretor do campo.

 

Depois do pânico instalado, os prisioneiros sublevados puseram-se em fuga. Na troca de tiros que se sucedeu, alguns dos companheiros do José foram abatidos. Mas foram precisamente esses homens que possibilitaram que a fuga tivesse êxito.

 

Mais uma vez, o José, que era avesso às armas e aos atos violentos, se viu metido numa guerra de guerrilhas.

 

189 – E lá foi o José, mais uma...

 

(continua)

 

 

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