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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

06
Fev14

Discursos (emigrantes) Sobre a Cidade

 

Sobre a Cidade e o Tempo

 

Numa grande cidade, o tempo corre. O consumo - mais ou menos ávido - de artes e cultura ajuda-nos a parar para reflectir, a parar para pensar no meio do turbilhão citadino, pois é quando o tempo flui que a inspiração vem.

 

Numa pequena cidade, o tempo flui. O consumo - mais ou menos ávido - do próprio tempo e do tempo das pessoas que nos rodeiam ajuda-nos a acelerar para reflectir, a acelerar para compreender a evolução do mundo para não ficarmos ultrapassados, parados no próprio tempo, pois é quando o tempo corre que somos forçados a agir.

 

Na grande cidade, os sonhos voam sempre e cada vez mais alto, pois a necessidade de escape dos números e dos milhares de cabeças é maior. Na grande cidade, tudo muda de repente. E atrás da mudança vem sempre a mudança.

 

Na pequena cidade, os sonhos flutuam pelo ares, como uma nuvem que nos paira em cima, esperando escurecer de vez para cair, pois a necessidade de existência entre as dezenas de cabeças que nos rodeiam está satisfeita. Na pequena cidade, tudo é constante. E atrás da constância vem sempre o reconforto.

 

 "Outro mundo é possível", Rambla del Raval, Barcelona - Fotografia de Sandra Pereira

 

Não há que temer nem a grande, nem a pequena cidade. Só ter em conta que o tempo é o único factor perceptível que comanda realmente a vida das pessoas. Corre ou flui, mas não espera. Passa.

 

Quem o deixa correr, espera alcançar o dia em que poderá deixá-lo fluir...

 

Quem o deixa fluir, espera alcançar o dia em que poderá deixá-lo correr...

 

Um dia, olhamos para a cara de uma pessoa desconhecida num transporte público e fluimos no tempo, tentando compreender o significado de cada traço sulcado naquele rosto. Fluimos.

 

Um dia, olhamos para a cara de uma pessoa amada no parque ao lado de casa e corremos no tempo, tentando compreender a consequência de cada traço sulcado naquele rosto. Corremos.

 

Seja onde estivermos, estamos com a cabeça sempre num outro lugar qualquer. Seja onde estivermos, estamos com o coração sempre no lugar que nos recheou a cabeça de sonhos.

 

Sandra Pereira

 

 

06
Fev14

O Homem Sem Memória - 189

 

O Homem Sem Memória

Texto de João Madureira

Blog terçOLHO 

Ficção

 

189 – E lá foi o José, mais uma dúzia de intrépidos e valentes contrarrevolucionários, fazer a sua revolução. A vida tem destas contradições. E caminharam muito, com ele sempre a liderar. Meses e meses de caminhadas pela planície alentejana em busca de caça, tinham-no transformado num verdadeiro Zátopek. Parecia que nunca se cansava, por mais que andasse. Se a revolução contrarrevolucionária se fizesse à custa de muito andar, não temos dúvidas que o José a conseguiria implementar.

 

No momento de convencer os seus recentes camaradas para esta nova aventura de guerrilha, lembrou-lhes as palavras de Mao Zedong: Até a mais longa marcha começa pelo primeiro passo, ou coisa pelo estilo.

 

Os primeiros passos até foram fáceis de dar, o problema residiu nos seguintes. Eles lá caminhar caminhavam, pobres coitados, mas faziam-no sem um propósito definido. Iam assim ao deus-dará, transportando as armas que, sobretudo, lhes serviam para caçar.

 

Andavam sempre em fuga. Os perseguidores eram frequentemente despistados pela astúcia do José. O seu mapa mental estava bem organizado. Calcorrearam a planície de um lado para o outro, afastando-se das pessoas e dos povoados, evitando os caminhos. Ou seja, não tinham nenhum plano definido, como já explicámos.

 

Todos sabemos que para fazer uma revolução, mesmo que contrarrevolucionária, não é suficiente a verdade, a vontade e, muito menos, a razão. Se assim fosse o mundo era um lugar esplêndido. Mas não é. Para fazer triunfar uma ideia é necessária muita perseverança, ainda mais convicção e intenso esclarecimento. Os camaradas do José bem lhe diziam que era necessário falar com as pessoas, convencê-las de que viviam numa sociedade totalitária, debaixo do domínio de um estado repressivo e de uma ideologia falsamente libertadora. Mas pregar a contrarrevolução no Alentejo, todos o sabemos, é uma tarefa inglória. Uma ideia que custou décadas a arraigar-se no meio do povo, leva outras tantas a desarreigar-se. E contra isso nada há a fazer a não ser tolerar a paciência e deixar passar o tempo.

 

Por vezes, quando decidiam ir visitar um grupo de conhecidos do José a um qualquer monte lá no meio de nenhures, apesar de serem bem recebidos e devidamente acolhidos, quando intentavam pregar a boa nova de que era necessário lutar contra a tirania marxista-leninista-punhalista, as pessoas mudavam logo de assunto. Algumas, apesar de concordarem que a República Popular do Sul era pouco democrática, argumentavam que a luta que travaram contra o regime fascista de Salazar, e contra os latifundiários, lhes tinha saído cara e por isso não estavam na disposição de lutar contra quem os tinha ajudado nesse combate.

 

O José bem argumentava que sem latifundiários, mas com capatazes comunistas, sem Salazar mas com Punhal, a fome era muita, as prisões estavam repletas de presos políticos, a repressão era quase diária, não se podia falar contra o Estado, nem contra o Partido, nem contra Alberto Punhal. Mas eles teimavam sempre na sua, que o Partido os tinha ajudado no derrube do fascismo e na conquista do socialismo, entre outras frases feitas.

 

Quando bebia aguardente de medronho mais do que a conta, o José tornava-se agressivo na argumentação referindo que a revolução pretensamente socialista se tinha limitado a mudar o nome às coisas, mas que tudo continuava na mesma, ou pior. O Estado era mais totalitário, a polícia política praticava métodos ainda mais cruéis do que a antiga PIDE, os sindicatos limitavam-se a enfraquecer ou a sufocar as reivindicações dos operários e a Igreja tinha sido substituída pelo Partido, e para pior, pois era muito mais fundamentalista. Os bispos eram agora os membros do Comité Central e os padres foram trocados pelos funcionários comunistas. Afinal o que era Alberto Punhal senão o Cardeal representante da Cúria Soviética em Portugal sob o papado de Brejnev?

 

“Camarada José”, avisavam-no os pobres camponeses, “não te admitimos essas heresias. O homem pode ser muita coisa mas não é nenhum Cardeal. Ele nem sequer sabe rezar.” E o José: “Isso é o que ele faz todos os dias, quando profere aqueles disparates como se fossem verdades absolutas.”

 

E depois ia dormir. Ou fazer que dormia, pois não lhe saíam da cabeça aquelas palavras teimosas dos pobres camponeses que não conseguiam abandonar a sua obstinação comunista. Estava visto, as pessoas são atreitas às pretensas verdades absolutas. A tradição tem um peso desmesurado. A tradição e a falta de cultura. Que quase sempre andam juntas. A maioria das vezes, a tradição é a celebração da incultura, do atraso, da incapacidade de pensar. E qualquer revolução, mesmo uma contrarrevolução revolucionária, é vítima disso mesmo.

 

Imbuídos de espírito transformador, os revolucionários fingem que mudam as estruturas da sociedade para fazerem de conta que pretendem mudar o ser humano. Neste processo, os únicos que se transformam são os revolucionários que deixam de o ser para se converterem em torcionários.

 

Mas voltemos à nossa história. Entretanto, um pesadelo tornou-se recorrente nas noites mal dormidas do José.

 

190 - O José mal adormecia começava a ...

 

(continua)

 

 

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