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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

14
Fev14

Ocasionais - O Cantoneiro

 

O CANTONEIRO

 

Não sei bem por que razão, um certo dia, presumo que por finais de 1967, apresenta-se-me na tesouraria do B.C. 10 ( Chaves ) um soldado (já não recordo o nome) de aspecto escorreito e bem ataviado, que vinha para funções de mandarete, não só para a tesouraria mas para todo o Conselho Administrativo da Unidade. Ficava porém adstrito à tesouraria.

 

Disse atrás bem ataviado mas um senão (não há bela sem senão) ressaltava à vista imediatamente: a apresentação era feita com a cabeça descoberta e com a boina enfiada na presilha de ombro do blusão o que, convenhamos, não era muito militar.

 

Apresentou-se o soldado, imediatamente informando ser conhecido e tratado por “Cantoneiro”. Perguntado por que razão estava de cabeça descoberta, referenciou ser para não estragar o cabelo que, realmente, se apresentava bem cuidado e esmeradamente penteado. E assim seguiu.

 

No convívio funcional com o Cantoneiro, fomo-nos apercebendo que vivia na tropa  um mundo diferente, acima de tudo o que socialmente lhe era conhecido. O Cantoneiro, sempre muito prestável e disponível, foi-se paulatinamente abrindo connosco e, enfim, contando toda a sua vivência até aí.

 

Assim, ficámos a saber ser de origem muito humilde e que, mal feita a Instrução Primária, teve que se lançar ao trabalho para ajudar a família. Esse trabalho, inicialmente ajudando nos trabalhos agrícolas, foi-se transferindo para outras áreas à medida que crescia e, num processo natural, acabou na Construção Civil, como trolha, onde mais não se exigia que robustez física. Sujeito ao “mestre” e a companheiros mais velhos, quase sempre despóticos, foi aceitando que a vida era aquilo e, cada um, com a sua cruz. Quando, eventualmente, calhava servir em obra de maior monta, via amiúde surgir um senhor, vinha de carro, bem vestido, visitava a obra, só falava com o encarregado e, quando se retirava, deixava um monte de instruções e ordens a que todos tinham que obedecer, inclusive o “mestre” tirano que o azucrinava com exigências sem fim.

 

 

Esse senhor era o Engenheiro e, assim, na mente do Cantoneiro se foi criando o mito daquela criatura poderosa que, na sua escala de valores, foi imediatamente colocado no topo da hierarquia social. Para o Cantoneiro, ser Engenheiro era o culminar máximo da ambição humana.

 

Mas voltemos à Tesouraria do B.C.10 e ao soldado (Cantoneiro) que lá trabalhava como mandarete do C.A.  Este, fazendo justiça ao seu belíssimo cabelo, esmeradamente penteado, “passeava-se” despreocupadamente pelo edifício do Comando de boina enfiada na presilha de ombro do blusão. Claro que isto saltou imediatamente à vista de todos que mais lidavam na área do C.A. e não raro lá estava eu, Tesoureiro, a quem o Cantoneiro estava adstrito, a ser chamado à atenção para o obrigar a circular por ali de boina posta, isto é, devidamente uniformizado. Ganhava o mesmo, só servia a admoestação por um bocadinho. Sistematicamente voltava ao mesmo.

 

Claro que chegou o dia (chega sempre o dia) em que a coisas rebentaram. O Comandante ( Ten. Coronel César Silva ) numa ida ao C.A. cruza-se com ele naquela figura e, de imediato, entra na tesouraria e volta, com uma certa ira, a advertir-me da necessidade de pôr aquele fulano na linha. Eu, aborrecido e farto de lhe estar sempre a chamar à atenção sem ser ouvido, chamo-o e digo-lhe:

 

- Cantoneiro, ou tu andas de boina ou, se voltar a ser advertido, mando-te dar uma carecada, que é para aprenderes.

 

Recebi como resposta:

 

- Meu Aspirante, não me faça tal coisa porque eu, assim, quase analfabeto, prefiro ser o Cantoneiro com este cabelo, do que Engenheiro e careca.

 

Interiorizei um sorriso e nunca mais molestei o Cantoneiro.

 

Salvador Silva - (Histórias da Vida Militar)

Beja,3 de Outubro de 2013

 

 

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