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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

08
Mar14

Pedra de Toque - O Espelho de Duas Faces

 

O espelho de duas faces

Tinha chovido.

 

Resolvi caminhar. A noite estava fria e escura.

 

A passos largos, mãos atrás das costas, ligeiramente inclinado, (saudades do Nadir…) desafiava o silêncio, fixando o olhar no espelho onde te vi.

 

Apareceste loira, com a tua tez branca, a face rosada, com um sorriso sereno na tua boca entreaberta.

 

Continuei meu caminho, caminhando, contigo teimosamente postada, nas pedras lisas que ia pisando.

 

Eu sozinho, mas tu sempre à minha frente, iluminando.

 

Desapareceste quando inadvertidamente choquei com um transeunte que vinha em sentido contrário.

 

Ainda me deixaste um último sorriso que os olhos verdes refletiram.

 

Não parei de escrever como um dia me pediste.

 

Fi-lo gravando na memória as frases que caíram delirantes no meu pensamento.

 

A tua imagem deslumbrou-me mas quando fugiste diluiu-se na calçada.

 

 

Não deixei de calcorrear sem destino, as vielas que fui encontrando.

 

Ao virar de uma esquina, de um bar saiu a voz inconfundível do Zeca, cantando o Menino do Bairro Negro, na velha telefonia.

 

De repente, a Coimbra dos anos 60 começou a surgir entre os pingos da chuva que recomeçava.

 

Em catadupa, apareceu a irreverência, a generosidade, a solidariedade nas lutas persistentes travadas por jovens em busca de um mundo melhor, mais livre, mais justo, mais fraterno, mais tolerante.

 

Com a força empenhada dos poetas, com a voz suave e lúcida dos trovadores, com a certeza das nossas convicções, seguíamos embalados por palavras queridas para as madrugadas que iriam despontar.

 

Já profetizávamos os cravos que surgiriam nos canos das armas, na aurora libertadora de Abril de 1974, oferecendo-os pelas ruas da cidade, como resposta às cargas policiais impiedosas.

 

A amizade gerada na resistência, na revolta, fortaleceu-se de tal sorte que permaneceu intacta nos fortes abraços que ainda hoje sucedem, quando nos encontramos, os que vamos permanecendo.

 

O tempo presente merecia da juventude um empenhamento idêntico.

 

Era o sinal, seria o farol, para travar a miséria, a escandalosa desigualdade, a corrupção, as injustiças que vão grassando.

 

No meu peito, os cravos de Abril continuam a florir.

 

Sei que, como dizia o poeta, ainda somos muitos, muitos mil para defender Abril.

 

E devemos fazê-lo, pelo nosso povo e homenageando também aqueles que o tornaram possível.

 

***********************

Chove demais.

 

As ruas estão desertas.

 

A porta de casa já está à distância do meu braço.

 

A noite começou com um sorriso inspirador na tua boca entreaberta e terminou com os cravos anunciando madrugadas que voltarão a despontar.

 

Vou dormir.

 

António Roque

 

 

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