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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

12
Mar14

Chá de Urze com Flores de Torga - 27

 

Os Poemas Ibéricos – 2ª Parte

 

A segunda parte de Poemas Ibéricos – História Trágico-Marítima – conta as aventuras do povo ibérico nos tempos das grandes navegações.

 

Sagres faz referência à Escola que tanto contribuiu com avanços científicos à humanidade; A Largada, é um claro diálogo com o episódio do Velho do Restelo de Os Lusíadas.

 

Em todos os poemas da História Trágico-Marítima se faz a alusão a essa mesma “tragédia” das navegações e do mar como uma espécie de paixão, de tentação, de amor-ódio.

 

Nesta mesma parte ainda temos os poemas A Espera, O Regresso, O Achado, Tormenta e Mar, que tem no seu último quarteto um certo tom profético e sedutor.

 

No poema “Regresso”, Torga faz dialogar a dor de uma mãe que fica em terra a chorar,  com o poema “Nau Catrineta” de Almeida Garrett (cantado por um cego). Veja-se como o poema de Garrett dialoga com a Mãe, que Torga junta num só poema (a itálico a “Nau Catrineta” de Garrett, o conjunto é “O Regresso” de Torga:

 

Lá vem a Nau Catrineta

Que tem muito que contar!

Ouvide agora, senhores,

Uma história de pasmar.

 

A Mãe correu à varanda,

Bem longe de imaginar

Que o alarde desejado

Vinha dum cego a cantar:

 

Passava mais de ano e dia

Que iam na volta do mar,

Já não tinham que comer,

Já não tinham que manjar.

 

A Mãe abriu num soluço

O coração a sangrar,

Porque a sola era tão rija

Que a não podiam tragar…

 

(…)

 

Deitaram sortes à ventura

Qual se havia de matar;

(…)

 

( A Mãe tinha pão na arca

E não lho podia dar!)

 

Logo foi cair a sorte…

(…)

 

(Que sorte tão singular!)

O gajeiro olhava, olhava,

Mas só via céu e mar

- Um céu distante vazio,

E um largo e vazio mar

 

!

- "Alvíssaras, capitão…

(…)

 

E o vento a enrodilhar

A voz do homem da gávea

Na do ceguinho a cantar!

 

 A minha alma é só de Deus;

 O corpo dou eu ao mar..."

(…)

 

A Mãe, que nada podia,

Já só podia rezar…

 

Deu um estouro o demónio,

Acalmaram vento e mar.

(…)

 

E quando o cego acabou

Estava em terra a varar.

 

Torga termina esta parte dos Poemas Ibéricos com o poema “Mar” onde a tal paixão, amor e ódio,  estão bem patentes, terminando com este quarteto:

 

“Mar!

Quando terá fim o sofrimento!

E quando deixará de nos tentar

O teu encantamento!”

 

 

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