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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

20
Mar14

Porta dos Paços do Duque - Chaves - Portugal

Eu sei que as paredes são brancas, a imagem foi manipulada e até as janelas foram à vida, mas de vez em quando, tal como em minha casa, gosto de pintar as paredes a meu gosto. Não que a cor branca lhe fique mal, é neutra, e mesmo que não agrade a todos também não desagrada a ninguém, mas, já que para mais não tenho poder, permitam-me que mude aquilo que ainda posso mudar, nem que seja virtualmente. Gosto de sonhar!  

 

 

20
Mar14

Ocasionais - Um Cofre de Segredo Passado

 

Histórias da Vida Militar

     

UM COFRE DE SEGREDO PASSADO

 

O dia amanheceu, gélido e chuvoso. A aurora arrastou da madrugada uma chuva miudinha e persistente que teimava em não melhorar. Junto à Porta de Armas do B.C.10 (Chaves) e em completo desconforto, um pequeno, mas significativo, aglomerado de pessoas aguardava a abertura dos serviços para levantar as Pensões ou Subvenções que filhos, ou outros parentes destacados em Missão de Serviço no Ultramar, mensalmente enviavam. Algumas destas pessoas, vindas das aldeias dos arredores, esperavam desde a madrugada para conseguir marcar vez que lhes permitisse um despacho rápido. Normalmente aproveitavam esta deslocação obrigatória à cidade, para tratar outros assuntos das suas vidas.

 

Como já se depreendeu, tratava-se de um dia invernoso, creio que de Janeiro de 1969. Como habitualmente eu cheguei ao quartel um pouco antes das 08H00 e, ao encarar na Porta de Armas com aquela gente desconfortavelmente aguardando, a minha preocupação foi abrir rápido a Tesouraria e começar a despachar o serviço. Sentia em mim a responsabilidade daquela espera e a obrigação de lhe dar fim. Este processo administrativo, na altura, era inevitável e repetia-se mensalmente por três ou quatro dias.

 

Na Tesouraria, o cofre, um paralelepípedo de aço com cerca de 1,70 metros de altura e 0,70 metros tanto de largura como de fundo, munido de fechadura e quatro cravelhas de segredo, apresentava-se como uma “fortaleza” confiável e até inexpugnável. Por estas razões, na véspera havia sido abastecido com uns bons milhares de contos (muitos) que se previam os suficientes para cumprir à vontade a semana dos pagamentos.

 

Eu e os meus colaboradores (o saudoso Boenerges e o Teodoro, de quem não sei o paradeiro) preparámo-nos para iniciar a faina do dia. Mãos ao cofre, “segredo marcado”, chave a dar a volta à fechadura e…o cofre não abre. Erro na marcação do “segredo”. Repete-se a operação e…acontece o mesmo. Insiste-se mais uma e outra vez e o resultado sempre igual. O tempo passava e da Porta de Armas o Sargento da Guarda telefonava amiúde a perguntar quando podia mandar avançar o primeiro grupo de pessoas. Para nós esta insistência, aliada à consciência que tínhamos do desconforto em que as pessoas esperavam, era uma pressão que de cada vez mais insuportável se tornava e nos punha com os nervos em franja. Na Tesouraria, já tínhamos percebido que o “segredo” se havia passado e procurávamos soluções, as mais díspares, face à nossa inexperiência. Lembrámo-nos de imitar o que já tínhamos visto em filmes policiais: encostar o ouvido ao cofre e rodar as cravelhas até sentir o clik salvador. Qual clik, nem eu, nem o Boenerges, nem o Teodoro (nesta altura o “segredo” já era de conhecimento universal) ouvíamos tal clik. Chegámos ao cúmulo de ir à Enfermaria buscar um estetoscópio, mas os nossos ouvidos duros nada ouviam de diferente.

 

O tempo frio e o chuvisco continuavam, o Sargento da Guarda insistia e a nossa pressão aumentava. Chegámos até a admitir a hipótese de ir ao paiol buscar um pouco de explosivo plástico (já tínhamos visto filmes a mais) envolver com ele as cravelhas e rebentar com o mecanismo de segredo. Hoje, imagino o que teria sido, por pequeno que fosse, um rebentamento dentro da Tesouraria. Nem quero pensar, mas aos vinte e poucos anos, tudo é possível.

 

Cogitávamos nesta hipótese maluca quando, entrando na Tesouraria, o 1ºSargente Rodrigues, veterano da 1ªGuerra Mundial, se sai com esta:  

 

- o meu Alferes já pensou em mandar chamar o mecânico das máquinas de escrever? Dizem que tem jeito para abrir cofres.

 

Numa altura daquelas todas as sugestões eram boas. O mecânico das máquinas de escrever era um indivíduo que tinha uma oficina de reparação de máquinas de costura, de escrever e similares junto ao Tabolado, nuns casões onde hoje são uns armazéns comerciais com as fachadas pintadas de várias cores.

 

Lá foi o Boenerges, a caminho da oficina do homem, tentar encontrá-lo e trazê-lo. O que conseguiu.

Chegado à Tesouraria e inteirado do problema que nos atormentava, olhou-nos com uma certa altivez e disse:                                                                                                                                          

 - este???!!! abro-o de costas;

 

assim o disse, assim o fez. O homem aproximou-se do cofre, voltou-lhe as costas, manuseou, nessa posição, as cravelhas do segredo como entendeu, pediu a chave e…….ei-lo, o inexpugnável, aberto em todo o seu esplendor, mostrando o recheio que se adivinha. Finalmente, após cerca de duas horas de labuta e tensão, prontos a iniciarmos os pagamentos.

 

O escape nervoso que sentimos, aliado à facilidade que o mecânico teve na abertura do cofre, deixou-nos perplexos e, como é costume dizer-se, “a bater mal”. Mas havia lições a tirar e muito simples:

 

-1ª deixa de acreditar em fortalezas inexpugnáveis;

 

-2ª não voltes a rechear o cofre para uma semana de pagamentos porque podem circular por aí mais “habilidosos” que não sejam sérios.

 

Hoje, rememorando este episódio à distância de 44 anos, impõem-se um agradecimento e um pedido de desculpas:

 

O agradecimento ao mecânico das máquinas de escrever pela sua eficiência que nos safou de grande embrulhada.

 

O pedido desculpas àqueles, hoje anónimos, que estoicamente aguentaram ao frio e à chuva enquanto resolvíamos as nossas asneiras.

 

Salvador Silva

 

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