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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

24
Mar14

Quem conta um ponto...

 

Pérolas e diamantes (81): o triunfo dos interesses

 

Em Portugal os interesses triunfam sempre. É uma mancha que nos acompanha desde sempre.

 

A crise porque passamos veio por a nu uma outra triste realidade social: é difícil criarmos uma classe média robusta, é difícil garantirmos uma ascensão social um pouco mais generalizada, como deveria ser em democracia.

 

Em Portugal faltam elites, por isso é lógico que se criem. Mas é na mediania que temos de subir de nível.

 

A mudança tem de ser, desculpem o chavão, qualitativa, ou não será mudança nenhuma. Temos de ser mais competitivos, mas produtivos, gostar mais da qualidade, exigi-la no que fazemos e recebemos. E ter mais cultura. O caminho é por aí.

 

Prova de que os interesses triunfam sempre é o facto de a Justiça ter deixado prescrever a multa de um milhão de euros a Jardim Gonçalves, o ex-presidente do BCP, a que foi condenado no âmbito de um processo do Banco de Portugal. Um juiz do Tribunal de Pequena Instância Criminal fez as contas e chegou à conclusão de que as nove contraordenações, bem como a citada multa, tinham prescrevido em março de 2013.

 

Prescrita está também a seriedade, e a palavra, do primeiro-ministro, que desde 2011 afirma que os cortes salariais e pensões e os aumentos de impostos são provisórios. Durante os últimos anos, Passos Coelho vendeu esta versão aos portugueses e, o que é ainda mais grave e sério, ao Tribunal Constitucional, para este não poder declarar inconstitucionais os cortes sistemáticos que fez. E continua a fazer.

 

Declarou-o sempre que foi questionado. Os cortes eram provisórios. E temporários. E excecionais. E apenas tinham um horizonte: o final do programa da troika.

 

Ora agora, o primeiro-ministro foi ainda mais claro: os salários e as pensões não voltam aos níveis de 2011. Isso é que era bom. Embora, diga o senhor, os cortes na função pública sejam temporários.

 

Todos nós sabemos como se apelidam, na nossa terra, as pessoas que durante vários anos dizem uma coisa e depois fazem outra.

 

A juntar às suas palavras, convém lembrar alguns números, do enorme drama social porque estamos a passar. Mais de 500 000 portugueses têm os salários penhorados por dívidas fiscais em 2013, num universo de cerca de 5 000 000 de trabalhadores por conta de outrem.

 

O que agora sabemos, e o primeiro-ministro não disse, é que a sua agenda política era outra, a que estava guardada a sete chaves na gaveta da sua secretária.

 

O que sempre quis, e quer, e com toda a determinação, é transformar Portugal num país de baixos salários. Lembram-se da sua aposta nas exportações? Ora a sua fórmula para o conseguir baseia-se numa economia interna irrelevante para que as pessoas ganhem 500 euros, paguem uma enormidade de impostos, e dessa forma sobejem alguns produtos para exportação.

 

Mas o mais grave é que o modelo nem é genuíno, é antes um ditame da EU e do FMI. Passos Coelho é apenas o “verdadeiro presidente da junta”, como caricaturava Herman José. O primeiro-ministro limita-se a ser o mensageiro desta política de destruição das regras básicas da democracia.

 

A sua estratégia está agora à vista de todos e passa pelo desmantelamento sucessivo e irrevogável do Estado Social, criando insegurança nos cidadãos para que deixem de lutar pelos seus direitos.

 

A alternativa será, para a grande maioria dos portugueses que decidirem por cá ficar, optar entre um emprego mal remunerado ou o desemprego. Passos Coelho não lhes deixa outra alternativa.

 

Por isso é que cresce entre nós a indignação, a impotência e o desespero. E, caros leitores, atualmente já não podemos falar de irresponsabilidade governativa. Isto está no limiar da perversidade, onde apenas são visíveis os piores interesses do grupo, ou grupos, que nos governam, onde só contam os interesses da parte do aparelho partidário que dizem representar.

 

Agora os portugueses sabem que estão a viver na pele de Sísifo, levando a pedra pela encosta acima e ela, mesmo antes de chegar ao cume do monte, cai sempre e rebola encosta abaixo.

 

O primeiro-ministro de Portugal é apenas o político da irrelevância e da irresponsabilidade social e económica.

 

O manancial de esperança que vendeu aos portugueses afinal não passou de uma pechincha de feirante. Depois do produto adquirido chegámos a conclusão que era uma contrafação ordinária.

 

Vemos na televisão alguns dos portugueses ricos queixar-se que andam deprimidos. Coitados. O que eles ainda não repararam é que os pobres estão desesperados.

 

Para o governo entrou muita gente. E por variadíssimas razões. O que agora sabemos é que nenhuma delas foi governar.

 

Uma virtude teve esta crise de regime: mostrar que os partidos foram conquistados por dentro pelos seus aparelhos. Depois da conquista, fecharam-se em si próprios e transformaram-se em grupos de poder e com poder.

 

Pacheco Pereira já tinha avisado, e olhem que ele sabe do que fala: “A crise de lugares, empregos, salários, benesses tornará a competição dentro dos partidos cada vez mais dura, visto que os partidos serão uma das saídas rápidas para aceder a um lugar remunerado, para que menos qualificações se exigem.”

 

Mas o “bom” povo continua a indignar-se nos cafés e a comentar a quem o quer ouvir: isto só lá vai com uma revolta popular. Só que depois votam sempre nos mesmos.

 

Enquanto assim for, os interesses triunfarão indefinidamente.

 

João Madureira

 

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