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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

23
Mar14

Pecados e picardias


 

A Taverna

 

Noite

 

Hora de despegar

O fim do dia de trabalho

Já fechara as contas na oficina

Surgiu o patrão…a ruminar

Lá está o doutor…espantalho

Razão da raiva que o domina

 

Decidiu enfrentá-lo, mais uma vez

Pediu o copo da discórdia

Um igual aqui ao do doutor

Disse com a maior desfaçatez

Olhando-o com desdenhosa misericórdia

Ostentando a despeito o desamor

 

Há homens que não são homens

Insiste na provocação

Não concorda Sr. Doutor?

Escondem-se atrás dos nomes

Alheios à compaixão

E ao verdadeiro amor…

 

Estragam a vida dos outros

Sem ao menos se importar

Com as desditas que provocam

Vão-nos roubando aos poucos

Direitos, querem-nos comprar

Até da alma… pouco se importam…

 

São os filhos de família…

Riu mordaz

Alguns nem sabem o que quer dizer

A fazerem abusos, deitam outros a perder

Deviam saber ler a  bíblia

Tanto lhes faz…

 

Ai já está a pagar?

Não gostou do discurso?

Achei interessante…

E o Sr. logo a desandar

Será que já está piurso

Riu …que saída urgente

 

A taverna muda e serena

Ninguém a ligar…

Se calhar não merece a pena

Só uma testemunha ocular

O servente estratega de ar ausente

 

Isabel Seixas

 

 

22
Mar14

Pedra de Toque


 

 

Ditoso seja o sol

 

O sol, intermitente, chegou.

Traz brilho, luminosidade.

Aquece.

 

Para mim é sempre uma bênção.

Os dias escuros, escurecem-me.

Fazem murchar,

As flores que vicejam no meu canteiro.

 

O tempo inexorável, vai caminhando,

Agora com a candura da primavera,

Que espreita.

 

Nada mata, contudo, a saudade do sabor da tua boca,

E do cheiro do teu corpo.

                       

As ilusões cansam, sobretudo a dor de as ter tido.

 

Os sonhos são o meu abrigo,

Quando a brisa suave descida serra,

Acalenta e arrefece.

 

Os teus olhos seguem-me,

Mesmo quando o sono acontece.

 

No meu coração, há uma paz de angústia.

 

O sol intermitente, mesmo contigo nos raios que projeta

Serena-me, adoça-me.

 

Ditoso seja o sol,

Pela luz que irradia!!!

 

António Roque

 

21
Mar14

Discursos Sobre a Cidade - Por António Tâmara Júnior


 

CHAVES, PARA ONDE VAIS? ...

 

Tenho de confessar: tenho um fraco por Chaves.

 

Não, que de todo em todo, seja uma cidade deslumbrante. Possui, naturalmente, os seus encantos. Que me ficaram bem gravados aquando da minha passagem por aquela terra na adolescência e primeira juventude.

 

Mas, confesso, que esta cidade que tantas recordações e coisas boas me evoca, toda ela, hoje em dia, «cheira» a não sei quê. De princesa, herdeira de um cetro real, não passa de uma rainha sem coroa e sem trono.

 

Minha predileção por Chaves, tem a ver não só com o encantamento do seu centro histórico e das recordações que me traz, mas também das minhas afeições: nela residem pessoas que muito estimo e preso.

 

Infelizmente, em mais de meio século, anda associada a uma porta de saída fácil e franca de uma pátria que pouco estima e acarinha seus filhos. Filhos que tão denodo têm por ela!

 

Tudo o resto em Chaves não passa de lembrança de uma glória passada de seus antanhos. Hoje, o que vemos verdadeiramente, é mera prosápia retórica de alguns, poucos, felizmente, que se «encavalitam» nos seus «pergaminhos», mas que, pouco ou nada, fazem para os «pôr a render». Triste sina a desta terra| Aliás como de muitas outras espalhadas pelo interior do nosso país. Cantam-se muitas loas ao facto de este cantinho estar à beira mar plantado. Contudo - malfadada sorte a nossa - quem nos governa e dirige, esquece-se, reiteradamente, das terras originárias da gesta lusíada que, atravessando mares tenebrosos, deram a conhecer novos mundos ao mundo! Depois foi o desvario de tantos séculos até aos dias de hoje! Quando esta nossa má sorte, de toda a maltrapilha que nos tem governado, acabará?

 

Vem todo este arrazoado a propósito de uma visita que recentemente fiz a Chaves para ir ver e estar com tio Nona. Desde que se meteu o inverno, nunca mais estive com ele. Meus primos iam-me informando do seu estado: que andava acabrunhado; cada vez mais deprimido e que não saia de casa.

 

Aproveitei estes últimos dias lindos de sol, pronunciadores de uma primavera a aproximar-se, e, das arribas do Douro, dei uma «saltadela» até às portas de Trás-os-Montes profundo.

 

E tirei tio Nona de casa para dar uma «passeadela» comigo, vagueando pelas ruas da cidade, ou seja, dar um passeio a pé, tão a seu gosto.

 

Notei-lhe um pouco as «dobradiças» enferrujadas. Mas sempre me foi acompanhando.

 

A páginas tantas estávamos quase na saída da cidade, pelo lado norte.

 

E fiquei deveras admirado com o que fui presenciando. E, depois, estupefacto com o que vi. A pé tem-se uma visão muito diferente das coisas!

 

Como trago sempre comigo uma pequena máquina fotográfica, aqui vos vou deixar o registo.

 

Inopinadamente, saídos de um dos bairros, construído mais recentemente, - que mais lhe chamaria urbanização que bairro -, por entre um emaranhado de casas humildes, de um lado, e de prédios de andares, por outro, servidos por amplas ruas, fomos por uma humilde rua desembocar a um Centro de Saúde, ao quartel da GNR e à Escola Profissional. Infletindo um pouco à direita, demos com uma enorme rotunda.

 

 

No centro da rotunda uma placa:

 

 

 

A partir desta rotunda, a meus olhos, Chaves parece-me um outro mundo. Mas que grandiosos acessos!

 

Perante este cenário, comentava com tio Nona:

 

- Ainda bem que esta gente está empenhada na construção de bons e rápidos acessos à sua cidade, aproveitando os dinheiros da União Europeia...

 

Tio Nona olha para mim com aquele seu ar meio sarcástico, meio crítico e, puxando-me pela mão, arrasta-me para um ponto um pouco mais acima, e diz-me:

 

- O que vês aqui, apontando-me para uma placa sinalizadora:

 

 

 

De imediato lhe respondo:

 

- Uma placa indicativa para o centro da cidade de Chaves e para o Hospital!

 

De rajada, volta-me a perguntar:

 

- Sabes onde fica o Hospital?  Vês onde está o que resta do Hospital de Chaves? E vês alguma rodovia direta ao Hospital? Pois, aqui tens uma rodovia que, com certeza, em 2012, foi inaugurada com pompa e circunstância. Mas queda-se por aqui, meu espertalhão, na confluência do Centro de Saúde nº2!

 

Intrigado, pergunto-lhe:

 

- O que resta do Hospital?!

 

- Sim, responde-me tio Nona! Sabes, porventura que raio de serviços hospitalares nós hoje temos em Chaves? É uma vergonha os serviços hospitalares que temos instalados em Chaves! Não sabes que a lógica política em Portugal é mais napoleónica que o próprio Napoleão? Tudo para a capital! No país funciona simplesmente a lógica da capitalidade. Que infecta, inclusive, as ditas capitais de distrito, que acabam por «engordar» à custa da pobreza de todos nós que as sustentámos com os poucos recursos que positivamente, dia a dia, e cada vez mais, nos estão roubando. Isto que nos estão a fazer os «cretinos» que nos governam (e infelizmente aqueles que nos têm governado), a soldo do capital e dos senhores que comandam a batuta, desde a União Europeia, é um autêntico esbulho! Mas adiante... Nós aqui em Chaves ficamos sem serviços e os da Vila vivem na ilusão que são reis... em terras de cegos! Coitados, pobres de espírito, que não se dão conta que ninguém prospera com a miséria dos outros! Mas o que verdadeiramente me preocupa é a completa apatia, inércia ou, quiçá, incompetência, dos que aqui gerem a causa pública municipal.

 

E continuou:

 

- Agora, o que vês mais à frente, para norte? Não é, manifestamente, uma obra verdadeiramente faraónica?

 

 

 

Uma verdadeira autoestrada a servir três, quatro equipamentos: dois lares privados para a terceira idade (que até lhe chamam hotéis e resorts); uma Unidade de Cuidados Continuados, que nem sei se funciona e cumpre cabalmente a sua missão, a par de um serviço de fisioterapia, e o Casino de Chaves, já na confluência da entrada na A24.

 

 

 

O resto é terra de ninguém, digo, de alguém, à espera de mais uma especulaçãozinha. Um polvo, mal se conhecendo a cabeça. Uma enorme mancha de obra construtiva, espalhada por todos os quadrantes. Começou pela destruição da Veiga, como recurso agrícola nacional fundamental para a agricultura, com o gasto de milhões no seu regadio e acaba aqui, neste «santuário», onde se gasta, todos os dias, a vida dos que nada ou pouco fazem para o enriquecimento da sociedade, na procura vã de uma sorte (lucro) fácil nas mesas de jogo! É assim, meu rapaz, que esta minha gente entende construir uma cidade e suas respetivas infraestruturas: sem planeamento, sem qualquer critério ou nexo. Gere-se o território ao sabor das ondas e gostos do momento daqueles que «metemos no poleiro» e dos apetites especulativos de algumas gentes da terra e outros forasteiros. É triste ver como se gere esta cidade! A falta de critério e o gosto de saber - e bem - ordenar uma cidade está ausente. Chaves é um verdadeiro despautério de bens e recursos utilizados sem qualquer nexo. Não somos, não fomos capazes de saber como construir uma polis.

 

Vendo as coisas por este prisma, não podia deixar de estar mais que de acordo com tio Nona.

 

E, interiormente, interroga-me: mas, afinal, onde estão, verdadeiramente, os flavienses amantes da sua terra? Porventura, têm efetiva consciência para onde vai parar a sua querida cidade de Chaves?...

 

É nos momentos de crise, de penúria e dificuldades, que mais nos devemos questionar sobre que sociedade estamos construindo; que cidade temos e que cidade queremos para o futuro. Não apenas por nós, mas pelo ingente e inalienável dever ético: o de passarmos aos nossos vindouros o testemunho de uma terra na qual afincadamente trabalhamos com carinho e amor. Uma terra bem lavrada.

 

Se não tivermos a atitude de um bonus pater familias não seremos capazes de preparar um futuro alegre e risonho para os nossos filhos! Não lhes deixaremos uma herança, uma autêntica e verdadeira herança. Mas um chorrilho de dívidas e dificuldades.

António Tâmara Júnior

 

20
Mar14

Porta dos Paços do Duque - Chaves - Portugal


Eu sei que as paredes são brancas, a imagem foi manipulada e até as janelas foram à vida, mas de vez em quando, tal como em minha casa, gosto de pintar as paredes a meu gosto. Não que a cor branca lhe fique mal, é neutra, e mesmo que não agrade a todos também não desagrada a ninguém, mas, já que para mais não tenho poder, permitam-me que mude aquilo que ainda posso mudar, nem que seja virtualmente. Gosto de sonhar!  

 

 

20
Mar14

Ocasionais - Um Cofre de Segredo Passado


 

Histórias da Vida Militar

     

UM COFRE DE SEGREDO PASSADO

 

O dia amanheceu, gélido e chuvoso. A aurora arrastou da madrugada uma chuva miudinha e persistente que teimava em não melhorar. Junto à Porta de Armas do B.C.10 (Chaves) e em completo desconforto, um pequeno, mas significativo, aglomerado de pessoas aguardava a abertura dos serviços para levantar as Pensões ou Subvenções que filhos, ou outros parentes destacados em Missão de Serviço no Ultramar, mensalmente enviavam. Algumas destas pessoas, vindas das aldeias dos arredores, esperavam desde a madrugada para conseguir marcar vez que lhes permitisse um despacho rápido. Normalmente aproveitavam esta deslocação obrigatória à cidade, para tratar outros assuntos das suas vidas.

 

Como já se depreendeu, tratava-se de um dia invernoso, creio que de Janeiro de 1969. Como habitualmente eu cheguei ao quartel um pouco antes das 08H00 e, ao encarar na Porta de Armas com aquela gente desconfortavelmente aguardando, a minha preocupação foi abrir rápido a Tesouraria e começar a despachar o serviço. Sentia em mim a responsabilidade daquela espera e a obrigação de lhe dar fim. Este processo administrativo, na altura, era inevitável e repetia-se mensalmente por três ou quatro dias.

 

Na Tesouraria, o cofre, um paralelepípedo de aço com cerca de 1,70 metros de altura e 0,70 metros tanto de largura como de fundo, munido de fechadura e quatro cravelhas de segredo, apresentava-se como uma “fortaleza” confiável e até inexpugnável. Por estas razões, na véspera havia sido abastecido com uns bons milhares de contos (muitos) que se previam os suficientes para cumprir à vontade a semana dos pagamentos.

 

Eu e os meus colaboradores (o saudoso Boenerges e o Teodoro, de quem não sei o paradeiro) preparámo-nos para iniciar a faina do dia. Mãos ao cofre, “segredo marcado”, chave a dar a volta à fechadura e…o cofre não abre. Erro na marcação do “segredo”. Repete-se a operação e…acontece o mesmo. Insiste-se mais uma e outra vez e o resultado sempre igual. O tempo passava e da Porta de Armas o Sargento da Guarda telefonava amiúde a perguntar quando podia mandar avançar o primeiro grupo de pessoas. Para nós esta insistência, aliada à consciência que tínhamos do desconforto em que as pessoas esperavam, era uma pressão que de cada vez mais insuportável se tornava e nos punha com os nervos em franja. Na Tesouraria, já tínhamos percebido que o “segredo” se havia passado e procurávamos soluções, as mais díspares, face à nossa inexperiência. Lembrámo-nos de imitar o que já tínhamos visto em filmes policiais: encostar o ouvido ao cofre e rodar as cravelhas até sentir o clik salvador. Qual clik, nem eu, nem o Boenerges, nem o Teodoro (nesta altura o “segredo” já era de conhecimento universal) ouvíamos tal clik. Chegámos ao cúmulo de ir à Enfermaria buscar um estetoscópio, mas os nossos ouvidos duros nada ouviam de diferente.

 

O tempo frio e o chuvisco continuavam, o Sargento da Guarda insistia e a nossa pressão aumentava. Chegámos até a admitir a hipótese de ir ao paiol buscar um pouco de explosivo plástico (já tínhamos visto filmes a mais) envolver com ele as cravelhas e rebentar com o mecanismo de segredo. Hoje, imagino o que teria sido, por pequeno que fosse, um rebentamento dentro da Tesouraria. Nem quero pensar, mas aos vinte e poucos anos, tudo é possível.

 

Cogitávamos nesta hipótese maluca quando, entrando na Tesouraria, o 1ºSargente Rodrigues, veterano da 1ªGuerra Mundial, se sai com esta:  

 

- o meu Alferes já pensou em mandar chamar o mecânico das máquinas de escrever? Dizem que tem jeito para abrir cofres.

 

Numa altura daquelas todas as sugestões eram boas. O mecânico das máquinas de escrever era um indivíduo que tinha uma oficina de reparação de máquinas de costura, de escrever e similares junto ao Tabolado, nuns casões onde hoje são uns armazéns comerciais com as fachadas pintadas de várias cores.

 

Lá foi o Boenerges, a caminho da oficina do homem, tentar encontrá-lo e trazê-lo. O que conseguiu.

Chegado à Tesouraria e inteirado do problema que nos atormentava, olhou-nos com uma certa altivez e disse:                                                                                                                                          

 - este???!!! abro-o de costas;

 

assim o disse, assim o fez. O homem aproximou-se do cofre, voltou-lhe as costas, manuseou, nessa posição, as cravelhas do segredo como entendeu, pediu a chave e…….ei-lo, o inexpugnável, aberto em todo o seu esplendor, mostrando o recheio que se adivinha. Finalmente, após cerca de duas horas de labuta e tensão, prontos a iniciarmos os pagamentos.

 

O escape nervoso que sentimos, aliado à facilidade que o mecânico teve na abertura do cofre, deixou-nos perplexos e, como é costume dizer-se, “a bater mal”. Mas havia lições a tirar e muito simples:

 

-1ª deixa de acreditar em fortalezas inexpugnáveis;

 

-2ª não voltes a rechear o cofre para uma semana de pagamentos porque podem circular por aí mais “habilidosos” que não sejam sérios.

 

Hoje, rememorando este episódio à distância de 44 anos, impõem-se um agradecimento e um pedido de desculpas:

 

O agradecimento ao mecânico das máquinas de escrever pela sua eficiência que nos safou de grande embrulhada.

 

O pedido desculpas àqueles, hoje anónimos, que estoicamente aguentaram ao frio e à chuva enquanto resolvíamos as nossas asneiras.

 

Salvador Silva

 

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