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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

04
Abr14

Discursos Sobre a Cidade - Por José Carlos Barros

 

A propósito de um livro

 

José Carlos Barros

 

1.

As comemorações do 10 de Junho, no ano de 1979, tiveram lugar em Vila Real. Era no tempo em que não existiam apenas gráficos de barras e aproveitou-se o evento para apresentar um livro que procurava «transmitir uma imagem, embora parcelar e sumária, de alguns aspectos da vida na região de Trás-os-Montes e Alto Douro». O título do livro, sem mais, sem indicação de autoria, era esse mesmo: «Trás-os-Montes e Alto Douro».

 

O livro, com 142 páginas, sem aparato gráfico, sem fotografias a cores, sem badanas na capa de cartolina de baixa gramagem, tirado em formato A5, não era propriamente um objecto de guardar. De encher o olho. De oferecer nas cerimónias. Não tinha capa cartonada, imagine-se, nem papel couché comemorativo. Não pesava dois quilos nem ostentava uma cinta de promoção. Ainda hoje não adianta alinhá-lo nas estantes: perde-se nos sete milímetros de lombada. Não é um livro: é um livrinho.

 

E, no entanto, é um dos livros da minha vida.

 

2.

«Trás-os-Montes e Alto Douro» não seria um dos livros da minha vida se me tivesse chegado às mãos no ano passado, há dez anos, há quinze. Mas eu tinha uns dezasseis anos quando me chegou às mãos. E este livro, fora das páginas dele, continua desde então a acompanhar-me.

 

Fora das páginas dele? Sim, fora das suas páginas ou além delas. Porque o livro serviu sobretudo como ponto de partida. Como chamada de atenção. Como momento, também, de revelação. 

 

E estes momentos são raros.

 

3.

«Trás-os-Montes e Alto Douro», abrindo com o inevitável texto do Torga sobre o Reino Maravilhoso,  estrutura-se em sete breves capítulos: Artesanato, Aspectos Económicos, Trabalho, Usos e Costumes, Monumentos, Artistas e, finalmente, Música Popular.

 

No Artesanato lá deparamos com as óbvias olarias de Bisalhães e Vilar de Nantes, com a tecelagem do linho e da lã, com a cestaria e com a ferraria. Pouco mais.

 

Quanto aos Aspectos Económicos, o assunto é despachado em seis páginas de texto e duas com fotografias a preto e branco.

 

Vem depois o capítulo do Trabalho: excertos de obras literárias (nunca mais do que duas páginas por autor, num total de oito autores recenseados).

 

O capítulo seguinte versa os Usos e Costumes, alternando-se excertos de obras de ficção com excertos de obras de etnografia, acrescentados de dois poemas de prémio. Também aqui nenhum texto passa de duas páginas em tamanho.

 

Capítulo quinto: Monumentos. Treze concelhos despachados à média de menos de meia página de texto por cada um. Nada de especial. O costume: da Sé de Vila Real ao Solar de Mateus, da Igreja Matriz de Murça à Igreja Matriz de Chaves, do Castelo de Montalegre ao Mosteiro de Castro de Avelãs, da Casa da Rede de Mesão Frio à Torre do Galo de Freixo de Espada à Cinta. Não muito mais.

 

Depois vêm os artistas: são doze, começando-se com João Baptista Ribeiro, nascido em 1790, e fechando-se com Fernanda Pissarro, nascida em 1943. Um escultor e onze pintores: outras artes não cabem.

 

E o livrinho fecha com a Música Popular: notas, em seis páginas, sobre Ó Minha Mãe Deixe Deixe, És o Meu Bem («Se tu me deste la saia, também te dei o chapéu./ É lo meu bem, é lo meu amor,/ num é mai’ ninguém»), Ó Helena, Vira Raiano, Ó Ribeira («Antes que sou de Barroso,/ Criada na carrasqueira,/ Sei usal’a cortesia/ Como as moças da ribeira»), Manuel Manuel, Ó Erva Cidreira, Riquetaina, Alargai-vos Raparigas e Nossa Senhora da Graça.

 

E é tudo, que depois da Música chegamos ao Índice.

 

4.

Pouco, como se vê. Em nota introdutória, aliás, alerta-se para o carácter parcelar e sumário da imagem que se pretende transmitir, para as lacunas do trabalho, para as «características limitadas» da panorâmica que se oferece: ninguém vai ao engano. Mas na nota introdutória explica-se também que, não obstante tudo isso, houve a intenção de «organizar um trabalho simples, acessível – sem carácter exaustivo e erudito – que atraia o público com menos tempo e disponibilidade de interesse pelos problemas da cultura local».

 

Eu, por esse tempo, não fazia propriamente parte do «público com menos tempo»: se é certo que não me sobrava, não me recordo que tivesse chegado a faltar-me. Mas também não padecia, pelo menos em grau elevado, de indisponibilidade de interesse. E foi por aí que este livro se me revelou decisivo: uns dias depois já eu procurava saber coisas sobre ilustres desconhecidos que descobria nessas páginas pela primeira vez e que hoje ainda continuam a acompanhar-me.

 

5.

Sim, o Torga. Sim, também o António Lourenço Fontes não me era desconhecido, e por essa altura já eu lera e relera a «Etnografia Trasmontana I – Crenças e Tradições de Barroso» (exemplar adquirido pelo meu pai, imagine-se, na Fotografia Ricardo, em Boticas, então em funcionamento na casa logo a seguir ao café do Arsénio), e já me preparava para o procurar em Vilar de Perdizes, onde não muito tempo depois fiquei uns dias alojado na casa paroquial. Mas, mais-ó-de-resto, tirante-estes (ah, e o Barroso da Fonte, que conhecia dos seus textos na imprensa regional), assim que me lembre não estou a ver. 

 

6.

(Quase nada. E, no entanto, tanto…)

 

7.

Já se disse que os excertos dos livros antologiados neste livrinho, etnográficos ou de ficção, não vão além de duas páginas impressas em A5 – à excepção do «Trás-os-Montes» do Torga. Mas passemos Miguel Torga adiante, que esse já seria conhecido de quase todos nós, os leitores do volumezinho em referência – e que continuará a ler-se (até porque «Novos Contos da Montanha» há-de ficar como um dos livros maiores da literatura portuguesa) não obstante o ódio de estimação, sazonalmente destilado, da Senhora Clara Ferreira Alves. 

 

Foi assim, pois, em 39 linhas, que li João de Araújo Correia pela primeira vez – para logo o procurar e entrar no deslumbramento dos «Contos Bárbaros» e de uma mancheia de outros títulos, incluindo o genial «Folhas de Xisto», que o padre Arnaldo, tão seu grande admirador, me emprestou de uma só vez. Foi assim, em 39 linhas, que descobri este contista a que Aquilino, afinal, se referira como mestre – seu e dos seus pares. Um escritor de uma prosa tão correntia e tão sedutora como esta, descoberta a páginas 73: «Das terras frias da Beira, onde o ar é fino e a leiva arável, cristalina a água e o pão fácil, terras pobres onde a pobreza se veste de burel e linho à sua custa, terras onde o cristianismo não é uma palavra, porque não há ricos; dessas terras alegres desceram os ranchos a vindimar no Douro taciturno. São os poetas a exalçar de fronte erguida o trabalho dos cavadores heroicos. Estes não cantam. Executaram a obra. Podaram e cavaram. Foram enfermeiros de vide atreita a males ruins. Comeram uma côdea. Viveram a crédito. Tremeram maleitas enquanto redraram. Exaustos de sacrifício, estes braços afeitos ao trabalho rude não teriam agora forças delicadas para o trabalho doce de vindimar.»

 

Foi assim, pois, num pequeno texto de duas páginas, que descobri também Domingos Monteiro – um encontro que, fascinado, pouco depois me levava às «Histórias do Mês de Outubro» e, de enfiada, às «Histórias Castelhanas». Um encontro que se compreende que dure até hoje, porque (vejam-se as palavras de António Quadros) essa «novelística da razão vital (…) é uma novelística que se amplia a todas as dimensões de ser homem, na sociedade, na natureza, no tempo e no mistério de existir».

 

Foi assim, pois, neste livrinho simples, que se me revelou, em escassas 23 linhas impressas, um outro autor que é ainda, e será sempre, dos meus preferido de entre todos os que li: Bento da Cruz. Chegava-se à página 94 e lá estava: «Para além dos terrenos de cultivo, no extenso baldio, o gado espraiava-se e serenava. As cabras alongavam-se pelos montes pedregosos, enquanto as ovelhas amodorravam junto do rio, procurando a sombra dos barrancos marginais, cabeça metida entre as patas traseiras umas das outras, batendo o fole de calor, enlodando a água a que os peixes acorriam, na esperança de biscato.» Não tardei, depois deste biscato, lembro-me bem, a ler as «Filhas de Loth» e, logo de seguida, o «Planalto de Gostofrio». Muitos anos depois, em Boticas, discutimos histórias do seu livro acabado de publicar («O Lobo Guerrilheiro») e não esqueço as lágrimas que lhe vieram aos olhos ao discorrer sobre a resistência e a coragem como contraponto da ignomínia que as ditaduras nunca deixam de representar. A coisa vinha a propósito do encontro que tivera, em Paris, com a pessoa real que se transformaria em personagem do romance.

 

Foi assim, também, que descobri um poeta maior, desses que ficam como expoentes da geração a que pertencem, num poema que quase não me deixava respirar: lembro-me de sentir que era como se fôssemos nós, homens, que nos esvaímos quando um porco se esvai na «cascata lenta e descendente» da sua «voz implorativa». Não precisava de ter o livrinho aqui ao lado para deixar a primeira estrofe do poema de A. M. Pires Cabral, porque ela logo me atravessou pelo poder da linguagem e nunca mais deixei de a saber de cor: «Não penses/ que a carne apenas é aquela oca/ lívida carcaça em galope alucinado/ embarrada numa trave da adega.» Neste livrinho, pois, descobri o poeta e prosador de eleição que, tantos, tantos anos depois tive o prazer de convidar a rumar ao Algarve e a escrever um conto sobre Vila Real de Santo António. António Manuel Pires Cabral rumou ao Algarve, escreveu o conto sobre Vila Real de Santo António e o conto foi incluído num livro («O Porco de Emiranto») a que foi atribuído o Grande Prémio de Conto da Associação Portuguesa de Escritores.

 

E foi assim, ainda, que descobri o meu querido António Cabral, o poeta do Douro, com a felicidade de me sair logo na rifa, a abrir, o ritmo alucinante de um belíssimo poema de «Os Homens Cantam a Nordeste». O poema começa assim: «Eh manhã crescendo/ pela verde vinha/, prato de cristal/ de comida fina!/ Mas verde melaço/ para os olhos baços/ dos que olham com olhos,/ suor e cansaço./ Eh manhã de barro,/ prato em estilhaços!/ Quatro homens redram/ que são oito braços./ Canta um melro, canta/ naquela nogueira;/ arde uma fogueira/ pela verde vinha,/ fogueira de sons, de comida fina./ Mas os homens redram,/ videira a videira,/ pegados à enxada,/ comendo poeira./ Prato de melaço!/ Prato de melaço!/ Eh nuvem do céu,/ benta nuvenzinha!/ -- suspira um dos homens/ que redram a vinha.» E por aí fora… Uf!

 

A António Cabral, entre outras coisas e os seus poemas, devo ainda um texto que escreveu no JL sobre um livro meu e a memória de um jantar, em Chaves, de conversa longa e vinho tinto do Douro com direito a prolongamento.

 

8.

«Trás-os-Montes e Alto Douro», editado em 1979, é um exemplo de como, com pouco dinheiro, sem foguetórios, é possível desenvolver belíssimos projectos culturais. É também um exemplo de como projectos criteriosos (ainda que «simples, acessíveis») se podem revelar fundamentais em termos de divulgação dos valores culturais e patrimoniais de uma Região.

 

A crise nunca é desculpa para que se deixe de pensar.

 


 

«Trás-os-Montes e Alto Douro» foi editado pela Subcomissão Regional das Comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas (Vila Real, 1979). A coordenação geral foi de António Cabral e, parcial, de Silva Gonçalves (Artesanato), Vilela Borges (Aspectos Económicos do Distrito de Vila Real), A. M. Pires Cabral e António Cabral (Usos e Costumes e O Trabalho), Manuel Negrão (Monumentos e Artistas) e Ângelo Minhava (Música Popular).

 

 

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