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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

22
Abr14

Homenagem ao Professor Doutor Américo Peres

Ainda ontem referia aqui no blog os professores que eu retinha para todo o sempre na memória. Américo Peres é um desses professores, pelos seus ensinamentos, pela amizade, pelo seu ser flaviense (embora beirão) em prol do ensino superior em Chaves e desde sempre um dos rostos da UTAD em Chaves, pelo ser cidadão, vai ser justamente homenageado no próximo dia 30 de abril em Chaves. Homenagem aberta a todos os seus ex-alunos e amigos. Esta é uma das homenagens à qual não poderia faltar.

 

22
Abr14

Workshop de Fotografia - Chaves 10 e 11 de maio

 

Com o surgimento da era digital, assistimos a uma das maiores e mais complexas revoluções da história da fotografia. Hoje, para além da sensibilidade artística, torna-se necessário conhecer minimamente os menus das máquinas, a forma como o sensor reage às diferentes condições de luz e aprender a dominar algum software de tratamento e edição das imagens. Infelizmente, estes aspetos deixam muitos fotógrafos perdidos num interminável labirinto tecnológico, onde os resultados teimam em ficar muito aquém do esperado.

 

Partindo da premissa de que não é o excelente domínio da tecnologia que garante as melhores imagens, este workshop procura recuperar as noções essenciais da fotografia enquanto forma de expressão artística: a importância da luz, a originalidade do ponto de vista e da composição, a criatividade associada às diferentes temáticas. São estes alguns dos ingredientes que, através de projeções, análise de obras fotográficas e a indispensável prática, podem ajudar os fotógrafos de hoje a entender a simplicidade da receita de sempre.

 

PROGRAMA

 

Sábado, 10 de maio

 

9h30 AS REGRAS DE SEMPRE

- a importância da luz

- o rigor da composição

- originalidade do ponto de vista

 

11h00 coffee break

 

11h15 TÉCNICA FOTOGRÁFICA

Os parâmetros da câmara que fazem a diferença

 

12h15 A INFLUÊNCIA DO EQUIPAMENTO

 

13h00 almoço

 

14h30 O PROCESSO CRIATIVO

 

- como surgem as histórias fotográficas

- análise crítica de obras de diferentes autores

 

16h30 intervalo

 

16h45 PÓS-PROCESSAMENTO BÁSICO DE IMAGENS DIGITAIS

 

18h30 final da parte teórica

 

Domingo, 11 de maio

 

8h30 AULA PRÁTICA - fotografia em espaço rural/natural

 

13h00 almoço

 

14h30 AULA PRÁTICA - fotografia em espaço rural/natural (continuação)

 

17h30 final do workshop

 

 

Destinatários

 

Fotógrafos amadores que queiram recordar aspetos técnicos relevantes e evoluir nos aspectos estéticos e criativos da fotografia, bem como aprender a fazer o tratamento digital básico das imagens.

 

Número de Participantes

Com vista a assegurar o apoio individual, estabelece-se em 15 o número máximo de inscrições.

 

Material do participante

Os participantes deverão trazer o equipamento que utilizam habitualmente (câmara e objetivas, bem como cartões de memória e baterias extra), não havendo qualquer limitação em relação ao tipo: poderão ser câmaras compactas ou reflex, digitais ou de película.

 

Preço

Contactar Associação Lumbudus (lumbudus@gmail.com)

 

Local

CHAVES

 

Informações e inscrições

 

Associação Lumbudus

Fernando Ribeiro

lumbudus@gmail.com / 919 141 059

 

António Sá

tel.: info@antoniosa.com / 273 326 290

 

ANTÓNIO SÁ

 

Nascido em Espinho em 1968, António Sá iniciou-se na fotografia aos 11 anos de idade. Em 1995, com 26 anos e após várias profissões, começa o percurso como fotógrafo profissional e jornalista, realizando reportagens para diversas revistas europeias, incluindo a edição portuguesa da National Geographic. Explorando ideias próprias ou em assignments para clientes específicos, a vida como freelance leva-o a destinos como Bornéu, Turquia, Brasil, China, Alasca, Mongólia, Islândia, Namíbia ou Cabo Verde, entre muitos outros.

 

Em 2001 participa nos Santa Fe Workshops, Novo México, E.U.A., integrando o curso “The Lyrical Moment”, de David Alan Harvey (fotógrafo da Magnum e da National Geographic).

Entre as várias exposições individuais que realizou, destacam-se “Outro Tempo Noutros Lugares”, que esteve patente nas galerias foto da FNAC em Lisboa e no Porto, “Two Moons”, no Centro Cultural de Belém, e “Portugal: Um Outro Olhar”, no Mosteiro dos Jerónimos.

 

Em 2007 e 2008 foi convidado para orientar a disciplina de Projeto Fotográfico do Curso de Tecnologia da Comunicação Audiovisual, do Instituto Politécnico do Porto.

 

Ainda em 2007, foi o fotógrafo escolhido para o projeto do National Geographic Channel sobre os sítios portugueses classificados pela UNESCO como Património Mundial. O documentário resultante, Portugal: Um Outro Olhar, foi emitido por este canal na Alemanha, Espanha, Portugal e Reino Unido, e o seu trabalho fotográfico esteve presente em Berlim, Lisboa, Londres e na cidade turca de Eskisehir.

 

Em Maio de 2012, a recolha fotográfica que realizou para a Fundação Rei Afonso Henriques, sobre os 11 sítios Património da Humanidade na bacia do Douro culmina com uma exposição inaugurada pelos chefes de governo de Espanha e Portugal, durante a XXV Cimeira Ibérica, realizada no Porto.

 

Como instrutor, António Sá tem realizado workshops para várias entidades, entre as quais a Fundação de Serralves (Porto), e conduzido passeios fotográficos em Portugal, Espanha, Islândia e Marrocos. A par destas iniciativas, participa regularmente em conferências e seminários a convite de estabelecimentos de ensino e empresas da área da fotografia.

 

 

21
Abr14

Quem conta um ponto...

 

Pérolas e diamantes (85): em defesa da democracia participativa

 

Por muito que nos custe, os velhos anátemas continuam vivos em Portugal. E são eles quem nos diminui a capacidade de procurar uma saída de qualidade para a grave crise que atravessamos.

 

Os velhos mitos provincianos persistem revelando o quanto somos ainda paroquiais em termos políticos.

 

O arcaísmo mais persistente, e resistente, qual vírus infecioso, está associado às lideranças partidárias, que, apesar de se pretenderem hodiernas e desenvolvidas, interditam o debate aberto, limitando a discussão política ao espaço estritamente interno, disciplinado e obediente, quando não subserviente.

 

Tudo deriva da falta de consistência política e ideológica dos partidos, circunstância que os converte cada vez mais em coletividades de acesso ao poder e às suas benesses.

 

Por isso é que a diferença é vista como uma quebra de eficácia na aproximação ao poder e nunca como a manifestação de uma opinião legítima.

 

Quer isto dizer que o aparelhismo trinfou em toda a linha. Os partidos apenas refletem a escassa mobilidade social existente em Portugal. Quem governa conserva.

 

O sistema político português, quer queiramos, quer não, favorece os carreiristas e os bajuladores. Todos sabemos que são as direções partidárias que fazem as escolhas principais de acesso aos lugares elegíveis.

 

O debate livre, tanto dentro como fora dos partidos, que é a norma principal das democracias desenvolvidas, obrigaria, necessariamente, a uma elevação do nível, tanto das propostas, como das lideranças. Afastando as pessoas da conspiração, da intriga, do clubismo e do amiguismo, aproximando-as das regras exigentes e clarificadoras do espaço público.

 

Mas isto é o que todos os aparelhos partidários temem e abominam, dado que necessitam de manter as velhas regras de acesso ao poder e fechar as estruturas à influência libertadora da opinião livre e democrática.

 

Atualmente, todos os partidos do apelidado arco da governação são clubes oligárquicos sem visão de futuro. São estruturas reacionárias e persecutórias.

 

Por isso é que na maioria das vezes, para não dizer sempre, no momento de votar não podemos escolher entre o que é melhor, mas sim entre o menos mau.

 

E isto é válido para todos os partidos representados na Assembleia da República. Convém não esquecer, aquando do PEC 4, que a sua reprovação provocou a chamada da troika. E isso não é só responsabilidade de Passos Coelho e Paulo Portas. Francisco Louça e Jerónimo de Sousa são igualmente culpados.

 

Por alguma coisa é que a velha direita, agora liderada pelo atual primeiro-ministro, é tão desapiedada e vingativa.

 

Todos nos lembramos que Pedro Passos Coelho rejeitou o PEC 4 com o peregrino argumento de que ele trazia atrás de si mais austeridade.

 

Há, de facto, um grave problema na nossa democracia proveniente da forma como os partidos violam as suas obrigações políticas perante os eleitores.

 

Os deputados eleitos não assumem nenhum compromisso com os eleitores, apenas o fazem com as direções partidárias que os preferiram como candidatos e não com os cidadãos que os elegeram. Por isso é que alguns, ou algumas, votam contra os interesses dos cidadãos da sua região, quer eles sejam relativos à Saúde, à Educação ou à Justiça, pretextando a “sagrada” disciplina partidária. Isto é um vício grave da nossa democracia que tem de acabar.

 

Os partidos não definem como sua principal prioridade a defesa dos interesses dos portugueses. E não há forma de os punir.

 

É habitual, durante a campanha eleitoral, travarem guerras entre si, fazerem um enorme teatro sobre as suas diferenças, chegando mesmo a insultar-se uns aos outros. No dia seguinte às eleições lá estão eles em bonitas coligações, esquecendo os reais problemas de quem os elegeu.

 

Por isso é que a democracia portuguesa está como está, moribunda. A atuação dos principais partidos a isso a conduziram.

 

Em Portugal há pessoas que enquanto ministros negociaram com empresas, em nome do Estado. A seguir vemo-los como administradores dessas mesmas empresas. A maioria deles sem possuírem qualquer tipo de experiência em gestão nas áreas para que foram contratados. Afinal qual foi o interesse que eles defenderam? Qual a razão que levou as tais empresas a contratá-los? Para lhes pagar o quê?

 

Também não é de admirar. Foram os jotas aqueles que triunfaram. São os jotas que fazem carreira. São os ex-jotas que estão no governo a aquecer as cadeiras para que os jotinhas de hoje sejam os ineptos governantes de amanhã.

 

Foi nessa escola de virtudes que aprenderam a dar facadas nas costas, a chegarem aos lugares de topo através de artimanhas e manigâncias, através de malabarismos, maquinações, intrigas e traições.

 

Por isso é que os nossos dirigentes partidários não têm cultura. Acham isso até despiciendo. Um luxo. Quiçá, uma mania. Ou, o que é ainda mais grave, um óbice à arte de governar.

 

Temos de passar, como defende Marinho Pinto, da democracia representativa para a democracia participativa. Está na hora dos partidos políticos deixarem de ter o monopólio da luta política. Está na altura dos cidadãos independentes poderem concorrer à Assembleia da República.

 

João Madureira

 

 

21
Abr14

De regresso à cidade, depois de mais uma Páscoa

 

E já lá vai mais uma Páscoa, bem diferente das severas Páscoas de antigamente em que a igreja impunha um rigoroso jejum à carne e diversão, pelo menos na quinta e sexta-feira santa. Penso que ainda hoje a igreja tenta repor o rigor de antigamente, mas hoje, a Páscoa é mais a festa de umas miniférias ou a possibilidade de as famílias se juntarem em mais um dia à volta do cordeiro e do folar.

 

 

E tanto assim é, que, comerciantes e algumas autarquias aproveitam estes dias para o negócio. A autarquia de Chaves, por exemplo, aproveita para fazer a feira do folar. É, a moda das feiras pegou neste nosso Portugal,  e agora vão-se fazendo feiras disto e daquilo (do pastel, do fumeiro, do folar, dos medievais ou romanos, etc.) o curioso é que em cada uma delas, os produtos e comerciantes que desfilam nestas feiras são quase sempre os mesmos, mas, enfim, se elas continuam a acontecer, pela certa algum proveito vão tirando delas, digo eu, bá, que dessas coisas não percebo nada.

 

 

Pois eu também lá fui, não para comprar folares, pastéis, licores ou o que quer que seja, não é por nada mas prefiro continuar a comer os folares caseiros da sogra e das tias, os pastéis do sítio do costume e continuar a beber licores das provas dos amigos, e as compotas, meu Deus, as compotas caseiras, uhhhhhh! De pêssego, cereja, cabaça, jerimum, uhhhhhhhh!, uhhhhhhhh!, pcheu! E dispenso o queijo… e uma cerejinha da aguardente!? - Bem, mas fui lá, não pelas barracas mas pelo meu velho liceu, onde, posso dizê-lo, passei os melhores anos da minha juventude e os loucos anos do pós 25 de abril, mas onde também ia estudando e formando-me, principalmente com a ajuda de alguns bons professores dos quais reterei para sempre o seu nome e ensinamentos na memória.

 

 

Pois graças à feira do folar o antigo liceu (hoje Escola Secundária Fernão de Magalhães) abre as suas portas à população e eu aproveito sempre para ir por lá, percorrer os corredores e o jardim para refrescar a memória ou repescar uma ou outra história vivida que já estava quase esquecida, relembrada por outros como eu,  antigos colegas do liceu, que suponho pelas mesmas razões, também vão à feira do folar nos claustros do velho liceu, só falta mesmo o esqueleto na esquina a rir-se…

 

 

19
Abr14

As coisas boas da vida

 

As prendas... em qualquer altura do ano

 

Quem é que não gosta de receber prendas? Quem é que não gosta da sensação de suspense que percorre o corpo e a alma enquanto se desembrulha um presente recebido? Certamente que todos gostam. No entanto, para a maioria das pessoas a oferta de prendas é um acto esporádico, normalmente associado a determinados períodos do ano. Primeiro, a época das prendas por excelência - o Natal. Nessa altura fazem listas e andam numa verdadeira azáfama, de loja em loja, à procura da prenda ideal para cada pessoa. Depois, passada a euforia do mês de Dezembro, apenas se voltam a lembrar de prendas na véspera das datas importantes, normalmente aniversários, nascimento de um familiar ou amigo, namoro, casamento... E assim passam o restante do ano sem se lembrarem de que as prendas não têm período definido no calendário. Na verdade, a oferta de uma prenda não precisa de qualquer motivo ou data. Uma prenda é um simples sinal de reconhecimento ou agradecimento a alguém por algo que essa pessoa fez por nós. E tanto pode ser por nos ter dado uma grande ajuda numa altura difícil da nossa vida ou nos ter feito um grande favor, como pode ser pelo simples facto de estar connosco, de nos ouvir, de existir e nos dar o privilégio da sua companhia...

 

E se é verdade que as prendas não têm época, também é verdade que não precisam de ser grandes nem dispendiosas para serem especiais. Um simples ramo de flores, comprado na florista da esquina, no regresso a casa, pode significar mais do que um anel de brilhantes comprado na ourivesaria mais chique. O que mais conta é o gesto, a intenção...

 

Aceite o meu conselho... não espere só pelos momentos óbvios para dar prendas. Faça-o em qualquer altura, quando as pessoas menos esperam, e verá que a admiração e alegria de quem recebe serão ainda maiores.

 

Experimente... e depois diga-me qualquer coisa.

 

Luís dos Anjos

 

 

18
Abr14

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

 

O RACIONAMENTO

 

O Marcelino Pão e Vinho andava lazarado!

 

Ele bem escancarava a gaveta do meio da mesa de castanho da cozinha, mas do pão que antes guardara nem migalhas! Restava a faca do Palaçoulo, gastinha de o cortar.

 

A barriga andava colada às costas. Deixara há muito de roncar com a fome. Valia-lhe a pena, o Marcelino não tinha como a forrar!..

 

A única coisa que lhe ia valendo era o caldo que sofregamente engolia alapado no escano da cozinha. Um caldo sem unto, bem entendido, feito de cardos apanhados nos lameiros ou nas bordas húmidas dos caminhos.

 

Na primeira metade da década de 40 a tísica tinha arrasado meia nação não fora isso, mais o que se surripiava aos ricos, o que se subtraía ao controlo dos fiscais e outros expedientes que justificam a fama lusa do desenrascanço!

 

Bem razão tinha o velho (filho de Santa Comba Dão) quando, paternalmente, afirmava:

 

― Portugueses, livro-vos da guerra, mas não vos livro da fome!...

 

A guerra mundial estoirara em 39, o mesmo ano em que tivera fim a civil de nuestros hermanos que lhes impôs o generalíssimo e os colocou em agonia!

 

Perante tais factos e não estando ameaçada como em catorze - pelo menos diretamente - a posse do império colonial e nem tão pouco a independência nacional pela ganância dos castelhanos, Salazar acamaleou! Ora arreganhava os dentes aos camones, nossos parceiros seculares (interesseiros), ora piscava o olho ao Adolfo e ao Benito, já para não falar das relações, quase intimas, que estabeleceu com Bahamonde. E assim levou a água ao seu moinho. Encheu o bornal da nação de barras de ouro, algum de proveniência duvidosa, e os cofres da finança de notas paridas pela exportação de conservas e de volfrâmio. Ao Zé Povinho castigou-o de fome e de miséria, coisa a que, a bem dizer, já estava afeito!

 

No que respeita à guerra, formalmente e a bem da nação, Portugal declarou a neutralidade a 1 de Setembro de 1939, tendo assinado com Espanha o Tratado de Amizade e Não Agressão a 17 desse mesmo ano. Desta forma permitia manter-se a Ibéria ausente da guerra. Contudo,

 

“no Foreign Office começam a surgir duas leituras sobre a neutralidade portuguesa, decidindo-se o reexame das relações com Portugal e estudando-se medidas de retaliação económica, algumas das quais, como a suspensão de venda de carvão sob pretexto da falta de tonelagem portuguesa para o transporte, são postas em prática. É neste contexto que se insere a chegada a Lisboa de David Eccles, enviado por Londres para tentar ultrapassar as dificuldades existentes e para negociar uma nova e mais drástica versão do acordo comercial de guerra. A 13 de Julho de 1940, sob proposta do ministro de guerra Hugh Dalton, o gabinete britânico aprova a aplicação do sistema de racionamento aos dois países ibéricos. A 31 de Julho é publicado o Decreto de Represálias que institucionaliza o bloqueio do continente Europeu e o controle na fonte. Estas medidas tomadas pelos ingleses e mais tarde seguidas pelos norte-americanos inserem-se numa vasta política de guerra económica que através do bloqueio económico visava a intercepção das linhas de abastecimento ou de exportação das potências continentais sem tal suserania marítima que por sua vez provocavam a asfixia económica e derrocada do esforço militar do inimigo. Do outro lado as potências do Eixo em vez de imporem um contra-bloqueio anti-britânico precupavam-se sobretudo em furar e interceptar as linhas vitais de abastecimento das Américas para a Grã-Bretanha. (sublinhado nosso)[1]

 

Ora, este quadro forjou alguns anos de forte controlo sobre a produção agrícola, a produção industrial e o comércio. Os agricultores tinham de dar a sua colheita ao manifesto. Alguns para não a terem rezistada, escondiam-na, ou enterravam parte dela, para depois a consumir, trocar, vender ou até mesmo oferecer. Escapando ao controlo da autoridade, este uso, para grande risco de quem o praticava, alimentava o contrabando, permitindo que alguns comessem e outros enriquecessem à tripa forra. Para além do mais, nas cidades, vilas e aldeias, cada pessoa tinha direito a umas tantas senhas por mês que lhe permitiam levantar o sustento mínimo nos postos, criados para o efeito, ou mesmo nos comércios.

 

Muita gente ainda recorda bem esses tempos passados de madrugada nas intermináveis filas das quais, o mais das vezes, se regressava de mãos a abanar. Mas as necessidades eram de tal ordem que valia a pena arriscar e sofrer em ordem à sobrevivência. Muitas vezes, sobretudo nas cidades, de que a capital era particular exemplo, as famílias com muitos filhos matavam a fome com a Sopa dos Pobres, vulgo Sopa do Sidónio. Este caldo era feito sobretudo de massa, feijão ou grão e um cheirinho de carne, evidentemente da mais reles. A Sopa do Sidónio constitui-se como a tábua de salvação dos mais pobres. Muitas vezes eram as próprias crianças que a recolhiam, carregando-a em baldes como a lavadura para os recos!

 

Porém, mesmo perante tanta penúria, o povo não perdia o humor e, como se a música enchesse barriga, ouvia-se esta cantiga pelas vielas da Ribeira:

 

Saudades tenho saudades

Em ver o azeite a brilhar

O bacalhau com as batatas

Que fugiu para não voltar

 

Saudades tenho saudades

Desses tempos em que eu ia

Por uma quarta de açúcar

Gritar à mercearia

 

Saudades tenho saudades

Desses tempos que lá vão

Que eu passava o dia inteiro

Lá na bicha do carvão

 

Saudades tenho saudades

Em ver os rapazes novos

Com uma cara de parvos

Por comerem trouxas d’ovos

 

 

Claro que a Princesa do Tâmega e das águas caldas não fugia à regra. Contudo, estou que de uma forma menos severa, uma vez que sendo uma terra com marcas muitos fortes de ruralidade e uma veiga fertilíssima, sempre ia tendo pão!

 

Na rua do Sol havia uma padaria cuja proprietária também tinha forno de cozer. Mas apenas estava autorizada a fazê-lo duas vezes por dia, uma de manhã e outra à tarde. Por isso constituíam-se longas filas à sua porta até que o pão se esgotasse. Raro era o dia em que não havia zaragata e um ou dois esmoucados! Mas o forno também cozia à socapa, desde que houvesse farinha! Depois, pela porta do cavalo e à calada serviam-se duas espécies de pessoas: as muito pobres por caridade, e as muito ricas por ganância! Daí que na sua casa ao Postigo, a Marquinhas da Mó tivesse, sob o sobrado, numa espécie de cave secreta com reservas clandestinas de farinha para cozer fora da mãe!

 

Perante tanta penúria, conseguia a farinha através de um esquema, bem urdido, que o marido Carlão cozinhou. Carlão, um emigrado que tomou o nome do lugar de berço, era um homem bom e honesto, dado a boas e mui úteis relações com os agricultores da veiga e da montanha. Eles dependiam da sua forja nas Longras para aguçar as relhas dos arados, as ceitouras e os gadanhos, bem como as sacholas do arranque. Assim, nos dias de feira com as encomendas deixavam coleiros de centeio ou de trigo para a paga do serviço. Esse cereal, escapado ao controlo dos fiscais, era rilhado a desoras nas mós do moinho do Agapito e alimentava a masseira e o forno da Marquinhas.

 

O negócio andava de vento em popa até que o Zé da Pinta, um sacripanta de maus fígados a quem Marquinhas teria negado um casqueiro, deu com a língua nos dentes. Não demorou uma semana que o casal não tivesse os fiscais à perna. Foram-se à residência e meteram o focinho nos mais recônditos cantos. Felizmente não toparam o alçapão que dava acesso à cave e que se encontrava sob os seus pés quando entraram pela porta principal. O dito cujo estava tão perfeito que nem às tábuas se encontrava emenda! Também foram cheirar à padaria. Mas aí toparam apenas rapaduras de massa e alguns alguidares de Nantes com fermento para a levedura da próxima fornada! Porém, esta ação de fiscalização teve os seus efeitos. Carlão temeu pela sua liberdade e deixou de arriscar tanto, pelo menos nos moldes em que o fazia.

 

 

A uma das famílias pobres que o casal ajudava, pertencia o tal Marcelino Pão e Vinho. Ele era conhecido pelo acrescento não porque tivesse a ver com o filme que os espanhóis haviam de rodar em 1955, baseado na obra de José María Sánchez, mas porque o moço, com os seus dezasseis anos, se gabava de sobreviver tão-somente com uma côdea de pão e um caneco de tintol. Carlão tratou de o empregar para engendrar uma outra maneira, mais segura, de continuar o tal negócio. Falou com seus pais. O que Marcelino teria de fazer era andar, de noite pelas aldeias, recolhendo o cereal negociado por baixo de mão com os lavradores nos dias de feira. A única condição que lhe impunha era a de que nunca dissesse, caso fosse apanhado, para quem trabalhava. Como paga encher-lhe-ia a casa de de pão cozido e oferecia-lhe a montada no fim da campanha.

 

Aceitaram!

 

Ao lusco-fusco seguia para as aldeias e os clientes que o patrão lhe indicasse. Chovesse que nevasse, pela madrugada regressava com os alforges cheios. Durante o dia ajudava na panificadora e em casa. Peneirava, amassava, tendia, aquecia o forno, enfornava e até debulhava as batatas se preciso fosse.

 

Andava como um sino o Marcelino! Papo cheio, d’acavalo para aqui e para acolá. Que mais queria?! A mula fartava-a nas bordas do Tabolado. Depois do serviço acomodava-a nos fundos da oficina de mestre Carlão. A coisa estava a correr bem para ambos os lados. O forno da Marquinhas da Mó fumegava noite e dia. Saia tanto pão pelas senhas do racionamento como pela tal porta do cavalo. Mas, como não há bem que sempre dure, um dia a coisa deu no olho!..

 

 

Anoitecia com a promessa de chuva grossa. Assim anunciavam nuvens negras trazidas pelo vento galego. Corria o mês de março de 43. O Tâmega ia grosso pelo inverno chuvoso daquele ano. O Marcelino aparelhou a mula. Nessa noite tinha muito caminho para calcar e ingreme. Mestre Carlão havia negociado cinco arrobas de trigo com o senhor Antoninho Moreiras do Carregal. Dezassete quilómetros Brunheiro acima e outro tanto ó p’ra baixo esperavam o coiro do Marcelino e os cascos do muar. Para o caminho botou ao bornal um carolo de centeio e pendurou às costas uma bota de viño do de Anelhe. Para riba foi montado na besta, para baixo à pata. Chegou pela meia-noite a casa do Ti Moreiras. Ajeitou o saco de serapilheira sobre a albarda da mula e à pressa mastigou uma lisca de presunto. Botou abaixo uma pichorra do de Cova do Ladrão e ala que se faz tarde, Brunheiro abaixo!

 

Chegou à cidade pela aurora. Fez-se à ponte de Trajano. Estava deserta. Quando ia a meio do tabuleiro aproximaram-se a galope, desde o Arrabalde, dois Guardas da Nacional Republicana. Cercaram-no perguntando-lhe:

 

 Que leva bocência em cima da albarda dessa mula?!

 

O Marcelino, habituado às curvas da vida, não se intimidou e respondeu com ar de desprezo:

 

― São rosas senhores, são rosas!

 

Os Republicanos não gostando da brincadeira preparavam-se para apear de cassetete em punho para umas arrochadas. A mula do Marcelino, imobilizada junto às grades da ponte, derriçava nas ervas da borda do passeio. Antes que os guardas se arreassem dos cavalos, o Marcelino, vendo a sua boa, vai-se à mula e espeta-lhe a ponta da navalha antre coxas. A coitada, quando sentiu a naifada, protestou num arraial de cracóvios de zurros e de parelhas! E tinha razão! As montadas dos Guardas assustadas, levantaram-se nas patas da frente e espetaram os ditos cujos com os cornos no rio. Livres do contrapeso, fugiram daquela alma do diabo, à toda, para os lados da Madalena!

 

Dos guardas nunca se avezou qualquer notícia! A última vez que Marcelino os viu arfavam como sapos à tona da corrente do Tâmega, agarrados aos ramos dos amieiros das bordas do Jardim Público. Estou que para além da molha e do cagaço, nada de mal lhes teria acontecido!..

 

Sei é que o saco do trigo foi parar, direitinho e intacto, à cave do Carlão!

 

Sei também que o Marcelino, montado na mula, pôs-se ao fresco para Tamaguelos, ainda nessa manhã. Por lá se quedou até que o incidente foi esquecido.

 

 

Regressou já muito depois do fim da guerra para nos contar a sua estória!

 

Gil Santos



[1] http://neh.no.sapo.pt/documentos/portugal_na_II%20guerra%20mundial.htm

 

 

17
Abr14

O Barroso aqui tão perto... Histórias da Vermelhinha

 

HISTÓRIAS DE PADRES

 

História de Gatos

 

Menos prudente foi o outro a quem o P.e Cosme inquiriu:

 

- Facadas na castidade?

 

- Facadas em quem?

 

- Se já tiraste o virgo a alguma rapariga?

 

- À minha namorada.

 

- Quando?

 

- Pelo tempo das castanhas.

 

- E continuas a dar nele?

 

- Todas as noites.

 

- Aonde?

 

- Na cama.

 

- Na tua?

 

- Na dela.

 

- Quem é?

 

- A Zulmira Toutinegra.

 

P.e Cosme deu um pulo no assento. A Zulmira era o melhor virgo da freguesia. P.e Cosme fizera dela catequista das crianças e zeladora do altar-mor, na mira de a apanhar a sós na igreja e iniciá-la, a bem ou a mal, no culto de Vénus. Fizera já uma tentativa séria, mas fora repelido a unha e dente. Dente na beiçola, quando tentava beijá-la; unha no pau, quando, levantando de repelão a batina, lhe mostrava o aríete de cabeça ameaçadora apontada ao alvo… Atribuíra tamanha ferocidade à inexperiência da cachopa… E vinha agora este labroste dizer-lhe que a montava todas as noites… P.e Cosme sentiu ganas de lhe apertar o gasganete. Mas dissimulou  a raiva numa voz melíflua:

 

- E como é que tu fazes para ir ter com ela, meu filho?

 

- Vou pela eira, finjo que sou um gato: Miau! Miau!, e ela abre-me a porta.

 

- Ai, que grande pecado meu filho! Duplo e imperdoável pecado! Violação de domicílio alheio e da pureza de menina tão prendada! Só vejo um castigo digno de tal pecado: o inferno! Nem te posso absolver…

 

 

O rapaz ficou apavorado.

 

- A não ser – volveu o confessor – que me prometas uma coisa.

 

- O que Vossa reverência quiser.

 

- Me prometas solenemente que nunca mais lá voltas.

 

O rapaz hesitava.

 

- Lembra-te do fogo do inferno! – insistia o padre. – Prometes ou não?

 

- Prometo.

 

- Eu te absolvo. Vai em paz e não voltes a pecar.

 

O rapaz deixou a igreja e pau murcho.

 

Nos primeiros oito dias fugia da namorada como o diabo da cruz. Ao fim de quinze, espicaçado pela carne e pelas saudades, atirou o cinto às malvas: « Se tiver de ir para o inferno, paciência…»

 

Horas mortas, foi pela soleira da jovem amante fingir de gato: Miau! Miau! Miau!

 

Começaram de dentro: Buf! Buuf! Fff!

 

- Ah! Filho da puta! Que se eu te não tivesse ensinado a miar, já agora tu não me bufavas…

 

Bento da Cruz, In Histórias da Vermelhinha

 

 

16
Abr14

Chá de Urze com Flores de Torga - 32

 

 

Destinos  

 

Foram uns amores singulares, aqueles. No Junho, as cerdeiras punham por toda a veiga uma nota viva, fresca e sorridente. As praganas aloiravam, as cigarras zumbiam, as águas de regadio corriam docemente nas caleiras, e dos verdes maciços de folhas leves e ondulantes, emoldurados no céu, espreitavam a primavera, curiosos, milhares de olhos túmidos e vermelhos. Era domingo. E ele subira por desfastio à velha bical dos Louvados a matar saudades de menino.

 

- Não dás um ramo, ó Coiso? - perguntou do caminho a rapariga.

 

- Dou, dou! Anda cá buscá-lo.

 

Pela voz, pareceu-lhe logo a Natália. Mas só depois de arredar a cabeça de uma pernada é que se confirmou.

 

- Não estás de caçoada?

 

- Falo a sério!

 

Era bonita como só ela. Delgada, maneirinha, branca, e de olhos esverdeados, fazia um homem mudar de cor.

 

- Olha que aceito! 

 

 

- E eu que estimo... 

 

Tinha já no chapéu algumas cerejas colhidas, reluzentes, a dizer comei-me.

 

- Não teimes muito...

 

- Valha-me Deus!... 

 

A rapariga atravessou então o valado, entrou na leira e chegou-se, risonha.

 

 

- Segura lá na abada...

 

Encandearam os olhos um no outro, ela de avental aberto, ele de rosto afogueado, deram sinal, e a dádiva desceu, generosa e doce.

 

Vista de cima, a Natália ainda cegava mais a gente. O queixo erguido dava-lhe um ar de criança grande; os seios, repuxados, pareciam outeiros de virgindade; e o resto do corpo, fino, limpo, tinha uma pureza de coisa inteira e guardada.

 

- Terão bicho?

 

- Têm agora bicho!Ia-te mesmo dar cerejas com bicho!

 

Sem querer, a resposta saíra-lhe expressiva demais. O coração agitou-se um pouco, o instinto, acordado, estremeceu, e os olhos, culpados, fugiram-lhe do rosto da moça e fixaram-se sonhadoramente no céu.

 

- Bota cá mais meia dúzia. Já que comecei...

 

À medida que se enfarruscava de sumo, a Natália ia-se tomando também num fruto que apetecia colher. Mas recusou-se a vê-la com pensamentos desejosos e atrevidos.

 

- Segura lá esta pinhoca...

 

Era um lindo ramo que fora buscar à coroa quase inacessível da árvore. As cerejas, libertas da sombra protectora das folhas, tinham-se dado inteiramente ao sol, deixando-se amadurecer por igual, num abandono quente e ditoso.

 

- Que lindo!

 

- É para que saibas...

 

Concentraram a atenção um no outro, e de tal modo ficaram fascinados, que se ela não dá um grito de aviso, com a oferta vinha o doador também ao chão.

 

- Cautela!

 

- Não há perigo.

 

No enlevo em que ficara, o desgraçado até se esqueceu do sítio onde estava.

 

- Queres mais?

 

- Não, bem hajas...

 

Pôs-se logo a descer, um pouco atarantado por lhe faltarem já as palavras que lhe havia de dizer cá na terra. Ela é que entretanto se escapulira.

 

- Adeus!...

 

O namoro, contudo, tinha começado. Sem nunca falarem daquela tarde, sabiam ambos que se amavam e que fora a velha cerdeira bical que lhes aproximara os corações. Pena elo ser o que era: uma natureza tímida, incapaz de um acto rasgado e levado ao fim.

 

Falavam ao cair da tarde, quando a fresca do anoitecer aligeirava o cansaço das cavas, sem que ninguém reparasse, pois a povoação aceitara já aquela união como um facto natural e acertado - e o rapaz ainda a meio do caminho, atarantado e reticente.

 

- Que diz vossemecê? - perguntava ele à mãe, à pobre Teodósia, que não via outra coisa na vida senão a felicidade do filho.

 

- A mim agrada-me... É boa rapariga, e limpa, é jeitosa...

 

- Lá isso... 

 

Dizia, e ficava-se calado, indeciso entre o sonho e a realidade.

 

- Fala à gente!

 

Era sempre a Natália a começar, como no dia das cerejas. Por mais que fizesse, nunca ele se atreveria a dar o primeiro passo. Só quando a rapariga quebrava a distância é que o coitado se abria num contentamento sem medida., tonto e novo como um cabrito. Mas nunca passava de coisas vagas e enternecidas. As palavras concretas magoavam-lhe a boca.

 

- Ainda não lhe falaste em nada? - Indagava a Teodósia, insofrida.

 

- Não. Mas amanhã...

 

- Ou quererás tu antes que eu lhe diga... ?

 

- Melhor fora! Valha-a Deus! Isso até era uma vergonha!

 

Lá conhecer os pontos de honra de um homem, conhecia-os ele. A coragem é que não chegava à altura do entendimento.

 

Infelizmente, a vida não podia parar naquela lírica indecisão. Os meses passavam, as folhas caíam, e outros renovos vinham povoar a terra.

 

- O João Neca esperou-me ontem à entrada do povo... - começou a Natália, à saída da missa.

 

- Ah, sim? E depois? - perguntou ele, a sentir o sangue subir-lhe à cara.

 

- Pediu-me namoro... - deixou ela cair com melancolia.

 

Era justamente altura de lhe dizer tudo, que a não podia tirar do pensamento, que só quando a levasse ao altar teria paz, que não seria nada no mundo sem os seus olhos verdes ao lado. Mas ainda desta vez o ânimo lhe faltou.

 

- Bem, tu é que vês... Ele não é mau rapaz...

 

Rasgava-lhe conscientemente o coração com semelhante aquiescência, porque tinha a certeza que desde a primeira hora o amava também. A coragem é que não era capaz doutra coisa.

 

- Eu queria lá um farsola daqueles! Estou muito bem assim...

 

Puras palavras de desespero. Tanto ela, que despeitada as dizia, como ele, que culpado as provocara, sabiam que eram o fruto de uma revolta impotente e destinada a morrer.

 

A pobre Teodósia é que lutava às claras. E dias depois já estava a picar o filho:

 

- Sabes o que me disseram hoje na fonte?

 

- Que a Natália tem namoro com o João Neca... - respondeu, vencido.

 

- Nem mais.

 

- Pois tem...

 

- Já sabias?! Então... e tu? Não a queres? Ou foi ela que te deixou ?

 

- Eu sei lá o que foi... 

 

Dali em diante parecia viver de alma viúva. E a alegria do rosto da rapariga cobriu-se também de um negro véu de desilusão. Passavam um pelo outro e comiam-se com os olhos. Mas nem ele lhe falava no seu amor, nem ela rasgava já a frágil teia de separação.

 

- Casam-se para a semana... - ia esclarecendo a Teodósia, como um remorso.

 

- Já sei.

 

- O padre leu hoje os banhos...

 

- Pois leu...

 

Era uma resignação que quebrava a gente, e desarmava. E a velha não encontrava outro alivio senão chorar.

 

- Morria por ti! - disse-lhe numa manhã, que podia ser de felicidade para os três., e se transformara num pesadelo.

 

Os sinos tocavam festivamente, ia por toda a aldeia um alvoroço de noivado, e só naquela casa a tristeza se aninhava sombria e desamparada a um canto.

 

- Também eu gostava dela...

 

Era outra vez Junho, as searas aloiravam já, e nas cerdeiras, polpudas, rijas, as cerejas tomavam uma cor avermelhada e levemente escarninha.

 

Miguel Torga, In Novos Contos da Montanha

 

 

16
Abr14

Duas Imagens dos nossos dias

 

Ainda hoje teremos mais um “Chá de Urze com Flores do Torga”, mas para já ficam duas imagens. Uma, com o que resta do inverno, algures numa árvore junto à buvete das termas de Chaves. A segunda é mais uma imagem de câmara de telemóvel, da Rua do Sal, também de Chaves, ali conforme se entra (ou sai) da Praça do Duque de Bragança.

 

Até mais logo!

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