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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

03
Abr14

Discursos (emigrantes) Sobre a Cidade

 

Uma Páscoa sem folar

 

- De que mais sentes falta da tua terra?

 

Pergunta difícil de responder assim à primeira, sem pensar muito no assunto, pensa a Maria, o João, o António e a Rita, jovens amigos transmontanos e agora separados pela emigração nos quatro cantos do mundo. Estão bem, não estão? Pois não há que dramatizar, e respondem:

 

- Faltará um pedaço ao emigrante no dia em que houver um Natal sem bacalhau ou uma Páscoa sem folar!

 

Felizmente, pensam eles, tais saudades serão sempre "mortas" pois, mesmo que a madrinha ande a contar tostões para acabar o fim do mês coitada, resta sempre uma mãe e um pai ou uma avó que acende um forno de lenha para mandar umas iguarias.

 

Até que um dia se dão conta que a avó já não acende o forno de lenha, pois já não tem idade para tantos trabalhos, e para quê com tantas feiras de folares e fumeiro, ainda por cima com o sabor caseirinho e característico que bem lhe conhecemos? Nada de preocupações então, pensam eles, a tradição ainda é o que era e é para manter. O folar, o fumeiro e mesmo o bacalhau hão-de chegar à boca da juventude que está à quilómetros de Portugal.

 

Até que um dia, como todos nós, a Maria, o João, o António e a Rita são apanhados pelo tempo que corre. Esse malvado enterrado nas nossas costas como uma erva daninha, apesar das flores continuarem a desabrochar em cada uma das nossas primaveras e das gaivotas sobrevoarem à nossa volta atirando para longe as nossas expectativas e liberdades. Pois este ano, dá-se conta a Maria, sim este ano, será uma Páscoa sem folar.

 

Fotografia de Sandra Pereira

 

- Então e a mãezinha e o paizinho?

 

É verdade... Chegou o dia em que também eles voltaram a pegar nas malas, que pelo menos, desta vez, já não são de cartão. Sim, pensa o João, desta vez já não precisam de "ir a salto", podem levar o carro ou pelo menos o conforto de uma conta bancária mais ou menos recheada para os primeiros tempos. Depois de décadas douradas no seu país e na sua querida terra, em que compraram a própria casa e até mandaram o António para a universidade ser "Doutor", lhe pagaram as primeiras rendas da emigração e o foram visitar nas férias, pensariam eles repetir o violento desconforto da emigração, já passados os 50 anos de idade? E os "velhotes"? Alguma vez a avó que já não acende o forno pensaria, depois de todos os netos, ver também os filhos seguirem-lhe outra vez os passos e abandoná-la ao país no qual quis acreditar e deu a oportunidade do regresso, e que, afinal, acaba por deixá-la de novo mal remediada e só na idade em que mais precisaria de ver os seus sacrifícios de outrora recompensados pelos seus?

 

E à pergunta - De que mais sentes falta da tua terra? -, a Rita responde cada vez mais baixinho. Na verdade, a Rita não sabe que país vai ser este. A Rita não sabe o que lhe vai sobreviver e restar de nosso. E mesmo que a Maria, o João e o António hoje animem os pais à aventura e ainda acreditem na velhice dentro das suas origens, a Rita só sabe que dificilmente se deixará cair de novo na ilusão do regresso e que este ano, sim este ano, será uma Páscoa sem folar.

 

Sandra Pereira

 

02
Abr14

Chá de Urze com Flores de Torga - 30

 

Na continuação dos três últimos artigos do “Chá de urze com flor de Torga” sobre os Poemas Ibéricos, adicionamos mais o artigo de hoje, anteriormente publicado num blog amigo - “Voilá, é Zassu!”, e com a devida autorização do seu autor que é também colaborador do blog Chaves. Poemas Ibéricos versus a Mensagem de Fernando Pessoa – este artigo abre também aqui nesta rubrica do “Chá de urze com flor de Torga” o inevitável “confronto” e abordagem entre os três grandes da literatura portuguesa: Camões – Pessoa – Torga. Mas isso ficará para posts futuros, embora hoje já se aborde Fernando Pessoa, ainda vem no contexto dos “Poemas Ibéricos” de Torga.

 

Fica então aqui reproduzido na íntegra o post de Zassu, cujo original poderá ser visto aqui: http://zassu.blogs.sapo.pt/2521.html

ENTRE OS «POEMAS IBÉRICOS (DE TORGA) E A MENSAGEM (DE PESSOA)

AO ENCONTRO DE UM PORTUGAL COM OS PÉS BEM ASSENTES NA TERRA

 

 

Com certeza que estão recordados do meu último texto postado neste blogue e da conversa tida com o meu tio Nona.

 

Esqueceu-me de referir que, antes de sairmos da Livraria Almedina, do Centro Comercial Arrábida, Gaia, tio Nona recomendou-me vivamente a leitura de um livro, que acabou por mo oferecer, dizendo:

 

- Procura ler atentamente esse conjunto de textos. E, estou certo, se os leres com atenção, levar-te-ão a conhecer, mais em profundidade, a obra de um dos «nossos», um dos nossos maiores, e, a partir dele, conheceres melhor o nosso Portugal.

 

 

A obra em questão – “Dar mundo ao coração – Estudos sobre Miguel Torga”, organizada por Carlos Mendes de Sousa, com prefácio de Eduardo Lourenço, foi editada pela Fundação Calouste Gulbenkian e Texto Editores, em 2009, e contém as intervenções, contributos de uma série de especialistas da obra torguiana constantes de um colóquio internacional organizado pelo Centro Cultural Calouste Gulbenkian, de Paris, por ocasião do centenário do nascimento de Miguel Torga.

 

Dos textos que li atentamente houve um que me despertou particular curiosidade e me chamou mais a atenção.

Trata-se do texto de Teresa Rita Lopes, da Universidade Nova de Lisboa, com o seguinte título: “A Ibéria, de Torga e «Nós, Portugal e poder ser», de Pessoa” (Mensagem).

 

Em síntese, esta autora, a partir destes dois textos – Poemas Ibéricos, de Torga e Mensagem, de Pessoa – procura-nos dar a visão que, cada um deles, tinha de Portugal.

 

E falando de Torga, afirma: a Ibéria é um corpo magro, pobre, «saibroso e franciscano», mas materno, a que esses filhos que mamaram nas suas tetas de pedra devem fidelidade eterna (…)

 

Tudo o que pareça remeter para uma qualquer transcendência, céu ou mar, em que os seres da Criação não consigam fincar pé ou raiz, é repudiado por Torga (…)

 

Face à permanente oposição corpo-alma, a que dá presença na sua obra, Torga é sempre pelo corpo (…)

Torga não exalta as Descobertas. Vejamos o que, a partir do poema Mar, ele pensa:

 

Mar!

Tinhas um nome que ninguém temia:

Era um campo macio de lavrar

Ou qualquer sugestão que apetecia…

 

[…]

 

Mar!

Fomos então a ti cheios de amor!

E o fingido lameiro, a soluçar,

Afogava o arado e o lavrador!

 

Mar!

Enganosa sereia rouca e triste!

Foste tu quem nos veio namorar

E foste tu depois que nos traíste!

 

Por outro lado, as referências às Índias são sempre negativas em Poemas Ibéricos.

 

Através da voz de Afonso de Albuquerque temos a impressão de ouvir os negros presságios de Sá de Miranda: «Por isso a Índia há-de acabar em fumo/nesses doirados Paços de Lisboa».

 

O último poema de Poemas Ibéricos termina assim:

 

Venha o Sancho da lança e do arado,

E a Dulcineia terá, vivo a seu lado,

O senhor D. Quixote verdadeiro!

 

Para Torga esta mensagem é clara: o verdadeiro herói é o Sancho, o humilde herói coletivo da luta quotidiana da vida contra a morte, não D. Quixote de la Mancha.

 

E como podemos ler a Mensagem de Pessoa?

 

Para Pessoa, pelo contrário, o país não é corpo: «um país é uma alma».

 

Torga exalta Nun’Álvares Pereira mas destrói, literalmente, D. Sebastião.

 

Pessoa, embora entregue a Nun’Álvares a espada do Rei Artur, l’Excalibur, e lhe chame o São Portugal, privilegia D. Sebastião: dedica-lhe na Mensagem sete poemas e numerosas referências, enquanto a Nun’Álvares Pereira só lhe inspira uma.

 

Torga consagra apenas um poema a D. Sebastião – dir-se-ia – para o castigar.

 

Enquanto Pessoa enaltece a sua loucura, o seu desejo de «grandeza» («Louco, sim, louco, porque quis grandeza/Qual a sorte a não dá?/(…) Sem a loucura que é o homem/Mais que a besta sadia/Cadáver adiado que procria?»

 

 

Por seu lado Torga, a D. Sebastião, inflige-lhe o ultraje, a suprema punição de ser apenas, no meio de um deserto, um cadáver que ninguém enterrou – que a terra, útero primordial, não recuperou no seu seio regenerador. E foi a sua loucura e a sua mania de grandezas que a isso o conduziu.

 

Para Torga, D. Sebastião e D. Quixote, ambos voltam as costas à realidade e partem loucamente em busca do que só existe na insensatez dos seus sonhos.

 

Para Pessoa as Descobertas representaram uma procura de identidade: «a busca de quem somos/Na distância de nós».

 

Mas, para Torga, partir é sempre perder-se de si próprio, optar pelo barco é ser infiel à raiz.

 

Pessoa é sempre pelo barco, contra a raiz. Num poema de Mensagem, «O Quinto Império», o que chama «a lição da raiz» é negativa:

 

“Triste de quem é feliz!

Vive porque a vida dura.

Nada na alma lhe diz

Mais que a lição da raiz –

Ter por vida a sepultura”.

 

Para Torga, somos humildes filhos de uma mãe rude e pobre, a Ibéria, mas dotada de uma grandeza de que nos devemos de orgulhar. É ao seu apelo que devemos acudir, não ao do mar, a tal sereia traiçoeira. Por isso é que ele exorta Sancho a que regresse ao seu arado.

 

Para Pessoa, nesse áureo período em que nos revelámos aos nossos próprios olhos, fomos «navegadores e criadores de impérios». A mensagem da Mensagem é o contrário da dos Poemas Ibéricos.

 

Com a sua mensagem na Mensagem – explicou depois em prosa – pretendia que os Portugueses se afirmassem no presente de uma forma que fosse equivalente das Descobertas do passado, mas apenas no domínio do ser, não do ter, como então. Por isso incita os seus concidadãos a reencontrarem-se «Nós, Portugal, o poder ser».

 

Apesar de tudo, torga insiste: «Olha esta Ibéria que te foi roubada e que só terá paz quando for tua». Porque é preciso que Sancho a recupere, de arado em punho, rejeitando traiçoeiros sonhos de grandeza e volte a cultivar os seus campos e a travar a tal quotidiana «batalha de ser fiel à vida». Para Torga Terra e Vida se equivalem.

 

***

 

Estas foram as palavras que citei de Torga e Pessoa e as que pedi emprestadas a Teresa Rita Lopes para, tal como ela, concluir que «o imaginário português balança sempre não apenas entre a terra e o mar (entre a raiz e o barco), mas também entre dois heróis: Nun’Álvares Pereira, o herói vencedor, solar, simbolizando a raça portuguesa ainda de boa saúde, antes do delírio das Descobertas e D. Sebastião, o herói vencido, crepuscular, representante da derrota dos sonhos e dos impérios».

 

Perdidos os impérios, e não aprendendo a lição da história, continuámos a pensar que a nossa integração na União Europeia acabaria por nos dar o ter que havíamos perdido nos longínquos mares…

 

Na miragem do cravo e da canela de outras índias e no oiro dos brasis, que os euros que a Europa nos «cedia» para nós representavam, fomo-nos esquecendo da lição dos dois grandes mestres da nossa portugalidade, de ser português: sonhar com os pés bem assentes na terra, no nosso terrunho, recuperando, «com o arado em punho» a terra que, pelo nosso descuido, incúria e negligência, «nos está sendo roubada» e desenvolvendo, todos, toda – do mar à planície, da planície ao planalto, do planalto à montanha, do norte a sul, do litoral para o interior – numa nova gesta que nos faça, de novo, dignos do nobre nome que, ao longo dos tempos, nossos antepassados tão bem souberem erguer e preservar – Portugal.

 

Zassu

 

 

 

02
Abr14

Ontem foi 1 de abril

 

Para os mais distraídos lembro que ontem foi um de abril. Manda a tradição que seja o dia das mentiras. Pois este blog rende-se sempre à tradição do 1 de abril, e como tal lá metemos a nossa peta, que pela certa já compreenderam, foi a dos chineses comparem o nosso parque empresarial de Outeiro Seco. Pois fica o devido desmentido e a oferta de mais uma imagem de Chaves, do Jardim Público, isto, enquanto não vem por aí mais um post do “Chá de Urze com Flores de Torga”.

 

 

01
Abr14

Vistos Gold para chineses investirem em Chaves

 

A notícia é da edição da tarde de ontem da edição online das notícias ao minuto, só não avança é quanto aos locais e quais os investimentos que os chineses se propõem fazer em Portugal, pois se aprofundassem a notícia, a cidade de Chaves lá estaria como um dos locais de investimento escolhidos pelos candidatos chineses ao visto gold, pois aquilo que eram uns zunzuns que por aí circulavam, já se começam a confirmar com o acelerar das negociações para indeminizações, que o vereador independente da autarquia flaviense está a levar a cabo com os industriais instalados no novo parque empresarial de Outeiro Seco, para que estes abandonem o local e deixem todo o espaço livre para um mega investimento por parte dos chineses em toda aquela área, pois os chineses querem tudo ou nada. Ao que os zunzuns dizem, e vem de pessoas próximas do vereador independente, é para montarem o maior entreposto chines na europa, só não se sabe ainda muito bem qual vai ser a mercadoria.

 

 

Segundo apuramos a preferência por Chaves deve-se ao preço do parque empresarial, mas também à sua localização geográfica, próxima dos portos de Matosinhos e Vigo, pela proximidade da autoestrada com ligação quase direta a esses mesmos portos, pela via rápida ferroviária (uma espécie de TGV) que a Galiza está a construir e que passa a escassos 20 quilómetros do parque empresarial, mas espante-se, o que parece que pesou mesmo na decisão, foi a proximidade do Casino Chaves e o clima flaviense, um pouco parecido ao clima de origem dos chinocas que querem vir para cá. Quanto ao casino, dizem que é no Hotel Casino que os chineses se pretendem instalar enquanto remodelam o Solar dos Montalvões, que também faz parte do negócio.

 

 

Segundo nos disseram, o mesmo vereador que está à frente das negociações já se prepara para deixar a Câmara Municipal, pois tudo indica que será um dos braços direitos dos chinocas.

 

Fico sem, mais,  palavras!

 

 

01
Abr14

Estratos

 

Do ler

 

Ler. A Professora Judite ensinou-me a ler, naquele quadro de ardósia e com o giz branco que fazia espirrar.

 

Antes, a mãe já me tinha ensinado a juntar as letras do nome. Grandes, como as do jornal.

 

Nenhuma me ensinou a ler pessoas. Não fazia parte do programa.

 

As letras que juntei nos livros não me ensinaram a ler pessoas. E os sons das vossas histórias também não.

 

Vejo-a construir mundos com casca de laranja, flores com miolo de pão. E dos sabores nasce tudo.

Há os desenhos, as fotografias, os poemas. Tanto por ler. Ler é a arte.

 

Só queria saber ler.

 

Rita

 

 

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