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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

02
Mai14

Discursos sobre a cidade - Por António de Souza e Silva

 

ALGUMAS REFLEXÕES SUSCITADAS

PELOS 40 ANOS DO 25 DE ABRIL

 

I

 

NOTA INTRODUTÓRIA

 

 

A semana passada foi marcada, para mim, por três acontecimentos que, como homem e cidadão, me são muito caros.

 

Dois deles têm a ver, no final de contas, com aquilo que foram os anos da minha vida profissional ativa ligado à educação: a educação de educadores e as questões do desenvolvimento, a partir da perspetiva da animação sociocultural.

 

Por isso, tive muita pena em não estar presente quer no XXVIII Encontro Galego-Português de Educadoras e Educadores pela Paz, realizado aqui em Chaves, nos dias 25, 26 e 27 do corrente mês,

 

 

 

quer no I Congresso Internacional de Animação Sociocultural, subordinado ao tema «Turismo, Património, Cultura e Desenvolvimento Local», realizado na Golegã, nos dias 24, 25 e 26 do corrente mês também.

 

 

Foram seus protagonistas, de responsabilidade cimeira, (organizadores), dois homens, meus amigos, que muito prezo: no primeiro, Américo Peres, uma referência nacional em termos de educação intercultural; no segundo, Marcelino Lopes, um protagonista e referência pelas causas da Animação Sociocultural em Portugal. Não são flavienses de «gema», trazem, contudo, no coração esta terra que adotaram como sua.

 

O terceiro acontecimento foi o aniversário dos 40 anos sobre o 25 de Abril.

 

Por razões que não vêm aqui ao caso, não estive pessoalmente, este ano, em nenhuma das comemorações do 25 de Abril. Contudo, deixei uma pequena mensagem sobre a data na minha página pessoal do Facebook.

 

Tive, à última da hora, ainda oportunidade de estar presente no ato final de encerramento do XXVIII do Encontro das Educadoras e Educadores pela Paz. Ouvi alguns testemunhos daqueles que foram protagonistas, atores e participantes do acontecimento àquela data do 25 de Abril de 74; ouvi críticas quanto à forma como a esperança de Abril nos trouxe até aqui; constatei relatos e incentivos a uma maior participação cidadã, nomeadamente nos mais diversos movimentos associativos; mas, especialmente, senti «desencanto» com a política.

 

Foi a propósito deste desencanto que, olhando para a «gaveta» onde guardo alguns escritos, por mim elaborados, para os diversos «fóruns» em que me foi dado participar, que trago hoje aqui dois excertos, «readaptados» aos momento, para pôr à vossa reflexão.

 

II

 

DO QUE SE TRATA, HOJE EM DIA

 

 

 

De modificar, em profundidade, o nosso modo de conceber a política. Se a teoria clássica da política se preocupou com a ordem, a estabilidade, a integração e a planificação, hoje é mais necessário interessar-se pelo inverosímil, pelas diferenças e pelos processos dinâmicos. A política deve aprender a dar-se bem com um futuro que já não é objeto de adivinhação nem algo planificável, mas uma coisa fundamentalmente incerta que, apesar disso, temos de antecipar.

 

Vivemos, segundo Innerarity, num mundo sem épica ou, pelo menos, no qual as narrativas épicas perderam plausibilidade e capacidade de mobilizar. A política agora situou-se no espaço humano, demasiado humano, sem sublimidade, sem verticalidade, no qual nada está absolutamente protegido da crítica, da erosão do tempo ou da crescente complexidade social.

 

Segundo ainda aquele autor, não estamos perante a necessidade de (re)ideologizar a política, mas de configurar projetos e decisões com base no reconhecimento de que dispomos de um saber limitado e falível. Se as ideologias fechadas pretendiam certezas absolutas, o nosso desafio consiste em estabelecer programas pós-ideológicos que sejam, ao mesmo tempo, normativos e conscientes da sua própria contingência.

 

O único consenso que tem alguma possibilidade de êxito é o reconhecimento da heterogeneidade dos desacordos” (Bauman). A pretensão de transformar a política em responsável pela obtenção de um consenso geral que supere as distinções ideológicas e sistémicas já não é sustentável em sociedades policontextuais, que não se articulam de maneira centralista ou hierárquica.

 

Da política não se deve esperar nem a solução definitiva de todos os problemas nem a salvação das nossas almas, mas qualquer coisa muito mais modesta, mas não menos decisiva do que o que proporcionam outras profissões muito honradas.

 

Na transição de uma sociedade heroica para uma que já o não é, torna-se necessário elaborar uma nova cultura política que ensine tanto a apreciar a política como a não lhe pedir o que ela não pode garantir.

 

Apesar de nunca ter estado tão limitada na sua margem de atuação, a política também nunca foi tão decisiva como hoje.

 

III

 

O QUE SE PEDE AOS CIDADÃOS

 

 

«Poesia, utopia, imaginação e criação»

 

A modernidade, ao fazer-nos acreditar na ideia de progresso social para a humanidade, intimamente ligado ao progresso científico e à razão, veio dar um novo folgo à cidadania, herdada da Grécia clássica, entendida como construção de espaço de felicidade para todos

 

Sabemos, contudo, no que resvalou o projeto da modernidade. E como, a partir desta experiência, de sucessivos desastres patenteados ao logo do século XX, irrompeu a rejeição da tentativa de colonização pela ciência dos demais espaços culturais, levando ao surgimento daquilo que autores apelidam de uma sociedade dita «pós-moderna» – que os meios de comunicação e informação modernos propiciaram -, ou seja, uma sociedade fragmentada, heterárquica, global, policontextual, portadora de uma nova dinâmica, e cada vez mais complexa. Uma sociedade que levou ao aparecimento, cada vez mais acentuado, da individualidade e de uma cultura dita narcisista. Que vive sob as ordens do «presentismo» e do «agorismo», e em que o futuro se nos apresenta apenas como portador de medos e não eivado de projeto(s) de esperança.

 

Temos de criar novos espaços públicos que incluam, necessariamente, um desvio de rota na lógica dos que defendem o desenvolvimento como crescimento indiscriminado e perverso dos recursos naturais. Porque somos natureza e, como tal, ou nos construímos solidariamente, ou nos tornamos agentes privilegiados de desintegração planetária pela implosão da esfera pública, vista como espaço vital de partilha humana.

 

Temos de reinventar uma ética inclusiva a partir da multiplicidade de experiências, cimentada pelo escopo comum de disseminar novos espaços de solidariedade, e não prescindindo de uma comunhão saudável com a natureza. Em que se encare seriamente uma educação ambiental abrangente e aberta, disposta a reconciliar a humanidade com o mundo em que vive, encontrando no pensamento ecológico um novo princípio ético, assumindo pretensões de universalidade.

 

Cabe, portanto, à cidadania, enquanto processo de construção de espaços públicos, formular um novo contrato social, baseado na responsabilidade, individual e coletiva, no governo cooperativo e na cosmopolítica, de cunho fortemente emancipatório, e tendo como princípios fundacionais a ecologia, a solidariedade participativa e a inclusão social.

 

Espaços públicos de vida digna que devem ser construídos paulatinamente por meio de frentes comuns de combatividade solidária, tendo como horizonte de sentido a partilha de espaços sociais de que os cidadãos necessitam para a realização coletiva de suas identidades e diferenças.

 

Se hoje assistimos a uma globalização elitista, em cujos processos as condições materiais de existência são crescentemente apropriadas pelos «novos cidadãos» do mundo, urge lutar politicamente por uma globalização inclusiva, em que desenvolvimento passe a significar mais qualidade de vida, maior partilha do bolo de bens e riquezas, que os agentes privilegiados do sistema de mercado se negam a socializar, em vez de uma acumulação de capital predominantemente privado, conquistado à custa da «descartabilidade» do ser humano-cidadão.

 

Pois, infelizmente, é o que hoje patenteamos!

 

E, se assim for, o que se espera da sociedade que estamos construindo?

 

IV

 

DUAS NOTAS DE FIM DE PÁGINA

 

Nós tivemos um 25 de Abril de 74.

 

Os nossos vizinhos galegos, não; mas foram, paulatinamente, construindo uma sociedade mais aberta e em liberdade.

 

Com certeza que os seus problemas, no mundo globalizado em que vivemos, são comuns aos nossos, com mais ou menos intensidade; mas, com mesmo teor, à mesma escala.

 

Mas, aqui, não é isso que conta. O que conta é a nossa «postura» perante eles...

 

Gostei particularmente da parte final do XXVIII Encontro das Educadoras e Educadoras para a Paz. Particularmente no que concerne à forma encontrada para fazer a avaliação do Encontro e as propostas para o futuro: falando sério,

 

 

 

de uma forma lúdica; à galega, pois então!

 

 

todos ao centro do pano para dizeres «o que de sua justiça sobre o que viveram e presenciaram»

 

Para quando nós, portugueses, deixamos a nossa posição «aristocrática» perante realidades tão comezinhas, embora bem sérias, perdendo o «verniz» e mostrando que somos feitos da mesma «massa», caramba!

 

A segunda nota tem a ver com a largada da «Pomba da Paz». Todos queriam que se dirigisse para Chantada (Galiza), para norte, portanto, onde para o ano será o próximo Encontro.

 

 

Teimosamente a pomba não se virava para norte. E fiquei sem perceber se o cravo vermelho que a pomba leva no bico se dirigia para um sul mais perto - a Praça de Camões, em Chaves - ou outro mais longínquo, também a sul - o Terreiro do Paço, em Lisboa.

 

Cá para mim a intenção era fazer duas paragens, plenas de verdadeiro significado...

 

António de Souza e Silva

 

 

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