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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

03
Mai14

Pedra de Toque - Da varanda da minha avó...

 

Da varanda da casa da minha avó…

 

Da varanda da casa da minha avó eu via o mundo.

 

Um mundo pequenino que cabia inteiro nos meus 5 a 8 anos de idade.

 

Começava na Rua de Santo António, estendia-se ao Arrabalde e ao início da Rua Direita e centrava-se nos Quadradinhos, junto ao quiosque.

 

Como eu gostava da varanda da casa da minha avó, onde permanecia horas a fio sobretudo na primavera e no verão.

 

Não era fácil, in illo tempore, a miudagem sair à rua depois da janta.

 

Daí gozar a brisa e a cidade da varanda da velha casa, espreitando os homens grandes que entravam no café Geraldes ou que por vezes se sentavam na diminuta esplanada.

 

 

Aqui durante as tardes estivais os conhecidos “trabalhadores” Kok Young e Kok Yak, assentavam arraiais, normalmente de preto vestidos e de cabelo abrilhantado, urdindo planos para, como se engenheiros fossem, visitarem as aldeias próximas.

 

O movimento da cidade pequena era apreciado da varanda onde uma cadeira apetecível servia de trono à senhora Marquinhas, minha adorada avó.

 

Uma tia, muito querida também, não dispensava o espetáculo do bulício.

 

Falávamos, conversávamos e o tempo remansoso ia correndo.

 

Quando ouvia foguetes a estoirar e as bandas a subir a rua 28 de Maio (os Pardais) e a sair da rua do Correio Velho (os Canários), a primeira dirigida por Carlos Pereira e a segunda por Manuel Jorge, descia apressado as escadas, autorizada pela patriarca, que reclamava cuidado.

 

 

O mestre seguia ao lado ou à frente da banda. Mas quem comandava era o Mindo que tirava o chapéu da cabeça, repetida e respeitosamente, para saudar o povo que vinha aos passeios para ver a banda passar.

 

O bom do Mindo assustava os miúdos que se metiam com ele mas nunca perdia a pose e a compostura e continuava marcando o passo ao desfile.

 

Mal os instrumentos se calassem e os tambores e caixas começassem a rufar, as bandas mantinham a marcha a caminho da verbena ou da festa e a criançada regressava a suas casas.

 

As varandas, pra além de balcão e palanque, enfeitavam-se com as mais bonitas colchas quando a procissão passava ou noutras festividades.

 

 

Eram também um espaço de agradável convívio entre a vizinhança amiga.

 

Quando faltava um ramo de salsa ou o que quer que fosse, a vizinha do lado, sempre disponível, encetava conversa sobre as novidades, de varanda a varanda, e as senhoras davam um pouco à língua, como era uso dizer-se.

 

A cidade era maneirinha e aprazível.

 

Da televisão só se ouvia falar ao Mestre Castelo Branco.

 

Nas rádios escutavam-se os folhetins após o almoço. O “Simplesmente Maria” foi um sucesso que levou muitas lágrimas aos olhos das donzelas.

 

Os jornais para muitos eram de leitura obrigatória. O quiosque central era na época o único posto de venda que se apoiava, no entanto, em ardinas que faziam a distribuição porta a porta.

 

A maior parte dos homens que, de saco a tiracolo, levavam as notícias pelas moradias e estabelecimentos, eram engraxadores com banca montada nos quadradinhos ao redor do velho quiosque.

 

Aliás, a cidade gravitava nesse pequeno largo, onde as notícias normalmente chegavam em primeira mão.

 

Ainda existem no tempo que corre, muitas e bonitas varandas na nossa terra. Várias exibem floridos canteiros que embelezam os prédios e as ruas.

 

Infelizmente, contudo, são demasiado poucas as visitadas pelos moradores como acontecia no passado.

 

Para muitos, esta cidade de antanho, está demasiado distante.

 

Eu preservo-a e recordo-a.

 

Nela está a minha meninice, a minha adolescência.

 

Nela está a varanda de casa da minha avó donde me debrucei sobre o mundo e donde, pela primeira vez, me deslumbrei com o arco-íris em cálidos fins de tarde.

 

Está-me a chegar o nó à garganta…

 

Desculpem.

 

Será da velhice?...

 

António Roque

 

 

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