Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

05
Mai14

Quem conta um ponto...

 

Pérolas e diamantes (88): o milagre português

 

 

Eu lembro-me. Sim, eu lembro-me do Portugal onde a autossuficiência era a regra. Uma terra de camponeses que viviam como no tempo de Jesus, o Nazareno. Camponeses que chamavam sua à aldeia isolada onde viviam e cultivavam as suas terras.

 

Era a agricultura que alimentava e sustentava a população.

 

Todos criavam o seu próprio gado. Toda a gente cultivava as suas próprias colheitas: um pouco de centeio, uns pés de milho, batatas, couves, tomates, cebolas e pimentos. E cevavam o porco. O estrume recolhido nas cortes dos animais alimentava a terra que, por sua vez, alimentava os aldeãos, que alimentavam o gado que arava a terra.

 

Lembro-me que na década de setenta, muitos transmontanos, fartos de tanta miséria, decidiram rumar a outras terras.

 

Cerca de 50% dos homens válidos emigraram, dos quais 75% trabalhavam na agricultura. Era nessa altura Trás-os-Montes a região mais pobre do país mais pobre da Europa. Passados quarenta anos voltámos ao mesmo. À pobreza e à emigração.

 

Olhando mais para trás, em cerca de oitocentos anos, podemos constatar que existiu, num momento ou outro, um estadista íntegro, um político honesto, um líder sábio ou um jurista competente e justo. Houve até políticos de valor, homens de largos horizontes, dirigentes lúcidos e generosos.

 

Segundo rezam as crónicas, alguns vice-reis da Índia regressaram de lá mais pobres do que para lá tinham ido. Mas são apenas as raras exceções que justificam a regra.

 

Nada nos seus feitos explica tanta estátua espalhada por aí ao deus dará, em rotundas, praças e jardins, tantas comemorações e tantos discursos bombásticos e vazios.

 

Em oito séculos de História, mais do que as probidades isoladas ou a benfeitoria de um ou outro governante, o que mais avultam são os crimes contra o povo. 

 

Por isso é que as várias mudanças de líderes partidários, de chefes de governo, ou mesmo de regime político, interessam cada vez menos aos portugueses. Ao longo de séculos apenas sobrou para si a pobreza e a repressão. Por isso é que aprendeu a contar apenas consigo mesmo. Por isso é que emigrou. E vai continuar a emigrar. Está farto do desdém a que sempre são votados os pobres e oprimidos.

 

J. Rentes de Carvalho, também ele emigrante, além de um excelente escritor, transcreve no seu livro Portugal – A Flor e a Foice, um excerto de C. R. Boxer, em The Portuguese Seaborne Empire, o seguinte: “Os Portugueses têm demonstrado ao longo dos séculos uma notável capacidade de sobrevivência à má governação, vinda de cima, e à indisciplina vinda de baixo.”

 

E ainda as palavras de um jesuíta italiano que fez a viagem até à Índia com uma leva de emigrantes portugueses: “É pasmoso ver a facilidade e a frequência com que os portugueses saem para a Índia. De Lisboa partem cada ano quatro ou cinco galeões cheios deles, e muitos embarcam como se não fossem muito mais longe que uma légua de Lisboa, levando consigo uma camisa, dois pães, um queijo, um boião de marmelada, e nenhuma outra provisão.”

 

Apesar da enorme distância no tempo, basta ver as fotografias dos anos setenta, ou dar uma espreitadela ao telejornal, para nos inteirarmos de que a emigração recente para os países ricos da Europa pouco difere da que nos foi relatada pelo jesuíta.

 

Mas nós somos assim. Exportamos mão de obra e, como dizia Eça de Queirós, importamos tudo: “Leis, ideias, filosofias, teorias, ciência, modas, pilhérias. Tudo nos vem em caixotes pelos paquetes.” E agora até a novíssima moda da austeridade a todo o custo. “A civilização custa-nos caríssima, com os direitos de alfândega: e é em segunda mão, não foi feita para nós, fica-nos curta nas mangas”.

 

Conta Rentes de Carvalho que nos tempos da rainha que morreu louca, D. Maria I, (“doida ninfomaníaca” minada pela religião), tinham-se projetado estradas “e o primeiro cuidado foi lavrar em Lisboa colunas monumentais para marcar as léguas. Cada marco tinha um relógio de sol; mas como, às vezes, a légua acabava à sombra, debatia-se qual era preferível: errar a medição ou ficar o relógio de sol sem luz. Por se não chegar a um resultado, deixaram de fazer-se as estradas.”

 

Tal como Oliveira Martins (História de Portugal e do Portugal Contemporâneo) e Rentes de Carvalho, também eu me admiro permanentemente com o facto de há tantos séculos serem “diminutas as mudanças de atitude do bom povo português em relação à res publica e aos que a tratam como coisa sua”.

 

João Madureira

 

 

Sobre mim

foto do autor

320-meokanal 895607.jpg

Pesquisar

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

 

 

Links

As minhas páginas e blogs

  •  
  • FOTOGRAFIA

  •  
  • Flavienses Ilustres

  •  
  • Animação Sociocultural

  •  
  • Cidade de Chaves

  •  
  • De interesse

  •  
  • GALEGOS

  •  
  • Imprensa

  •  
  • Aldeias de Barroso

  •  
  • Páginas e Blogs

    A

    B

    C

    D

    E

    F

    G

    H

    I

    J

    L

    M

    N

    O

    P

    Q

    R

    S

    T

    U

    V

    X

    Z

    capa-livro-p-blog blog-logo

    Comentários recentes

    • Anónimo

      Assisti a construção das aldeias de Criande e Alde...

    • Cláudia Luís

      Ola bom dia gostaria de saber a morada e o contato...

    • Amiel Bragança

      Com um Abraço votos de Santa Páscoa.Amiel Bragança

    • Anónimo

      Que bom sabermos particularidades da vida de um gr...

    • Fer.Ribeiro

      Obrigado pelo comentário. Em relação ao Chaves Ant...

    FB