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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

19
Mai14

Quem conta um ponto...

 

 

Pérolas e diamantes (90): o medo dos espelhos

 

 

A História, por muito que afirmem o contrário, não é urdida por mãos inocentes.

 

Mas hoje não quero pensar nisso. Afundo-me no sofá, troco de óculos, acendo o candeeiro, leio. Depois dormito. Sento-me seguidamente junto à janela de onde vejo o sol a pôr-se. Dou-me por contente por ainda não ter de pagar imposto por isso.

 

Sinto-me a desaparecer.

 

A minha cidade também perde a pouca luz que lhe resta. Está velha e acabada. Em ruínas. Escangalhada. Fecho os olhos e sinto-a a perder ainda mais luz. Talvez para sempre.

 

Afinal as cidades também morrem. As cidades também se abatem.

 

Esta altura do dia é boa para aprender a rendição. A música, tal como a luz e como a cidade, também minga, até se extinguir.

 

Os silêncios, por estes lados, são suficientemente amplos, para absorverem qualquer tipo de comportamento. Qualquer tipo de resistência.

 

Por aqui, aldrabão e aldrabado dão as mãos e põem-se a atravessar a realidade assobiando para o lado. Como se nada fosse. Como se nada valesse a pena.

 

Descobri que as avenidas rectilíneas construídas para se poder marchar nelas se transformaram em sinuosos carreiros que, como formas orgânicas, obedecem, tal como os caminhos de cabras, às leis do menor desconforto.

 

Então onde mora a verdade? Sim, onde mora? E a honestidade? Onde para ela? O melhor é esquecer ambas. Já nem a realidade existe. Só escombros. Só vacuidade. Só silêncio e desistência.

 

Ouvi dizer, quando era criança, que não devíamos olhar para o espelho porque podíamos ver o Diabo por detrás do vidro.

 

Agora temos medo. De tudo. Até da nossa cara refletida no espelho.

 

Vejo nos rostos das pessoas aquele tipo de expressão amigavelmente canina. Presentemente já não vale a pena chorar pelo futuro. Este é um tempo desesperado. Um tempo de gente aflita.

 

Sejam quais forem as lisonjas que prestemos à razão, à moderação e ao compromisso, permanecemos ou leões ou cordeiros. Os cordeiros serão mortos. Os leões, quase todos eles, serão domados.

 

As conveniências e os procedimentos corporativos pesam demasiado.

 

Existem no mundo maquinarias dedicadas à injustiça. Esse é o maior empreendimento da atualidade. Antigamente também existiam algumas forças ativas que visavam equilibrar as coisas. Hoje não sei onde elas param. Se é que ainda existem.

 

O tempo da modernidade transformou-se em ópera bufa. A prontidão com que os políticos aparecem nos programas de entretenimento para se exibirem e assumirem o papel de palhaços, constitui a única forma de redenção democrática.

 

O povo, na sua poltrona, observa os políticos no papel de bobos da corte.

 

A ironia, quando não a deixamos morrer, mata.

 

Dizem que as boas histórias nunca falam das vitórias mas das derrotas estrondosas. Nenhuma vitória de Napoleão é tão célebre quanto a sua derrota em Waterloo.

 

Veja-se também Jesus. Se ressuscitou, o seu símbolo devia ser o de um homem feliz, fora do seu túmulo, a acenar a todos os crentes. E não crentes. Mas não foi essa a imagem escolhida. Os seus seguidores preferiram retratá-lo no momento da sua derrota, no momento em que estava a agonizar pregado na cruz. Prestes a desistir.

 

E isto porque o ser humano apenas se impressiona com a derrota. Apenas a derrota é eterna. A vitória é transitória.

 

Afinal a sorte é o fator mais importante para alcançar o êxito. O talento conta para muito pouco.

 

A generalização da incompetência e da ociosidade garantem que a mediocridade triunfe em Portugal.

 

João Madureira

 

 

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