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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

02
Jun14

Quem conta um ponto...

 

192 - Pérolas e diamantes: em defesa da contradição

 

Há muito de aleatório na maneira como crescemos e nos vamos educando, embora seja pertinente a velha máxima que diz: “Só se encontra aquilo que se procura.”

 

Dei-me conta, tarde demais, mas mais vale tarde do que nunca, que não sou feito para a servidão, nem para a bajulação, que, como todos sabemos, são as passadeiras para o poder.

 

Depois de tantos anos de teimosia política e cultural, acho que sou um sobrevivente. Sou também um terreno de contradição.

 

A política ensinou-me sempre o contrário. No entanto, a cultura demonstrou-me que a vida é múltipla e de que tudo resulta da contradição. A política ficou triste, coitada.

 

São a contradição e a violência o que faz mexer o mundo. Eu sei que é duro de admitir. Mas é mesmo assim.

 

Da violência, mesmo que revolucionária, desisti quando soube dos gulags, dos muros construídos para separarem a verdade da realidade e a realidade da verdade, dos assassínios dos camaradas bolcheviques consumados pelos camaradas bolcheviques, dos massacres, das perseguições e dos fuzilamentos em massa. E da falta de liberdade. “Das mais amplas liberdades”, como gostava de afimar o camarada Cunhal.

 

E da reacionária nem é bom falar. Ainda não consegui entender como é que da sociedade alemã da altura conseguiu emergir um líder como Hitler e todo o “mal” que sempre o acompanhou.

 

Todos sabemos que não foi um problema de estupidez nem de falta de formação o que levou as pessoas, até as mais ilustres (lembremo-nos de Heidegger ou de Ernst Jünger), a aderirem, a suportarem e justificarem tudo aquilo. E nunca é demais lembrar que Hitler chegou ao poder de forma democrática.

 

Salazar, diz o professor Adriano Moreira, era um homem inteligentíssimo, muito atento e com muita graça. Também escrevia muito bem, como o próprio Fernando Pessoa chegou a reconhecer.

 

Como é que uma pessoa com essas capacidades conduziu o país, durante 48 anos, ao atoleiro de ignorância, marasmo e sufoco cultural, é que ainda está por explicar convenientemente.

 

Toda a sua tacanhez e pequenez dão que pensar. Como bom fascista (lembremos Mussolini e Hitler), possuía o tipo de inteligência habilidosa e sorrateira que fazia vir ao de cima o pior do ser humano: a manipulação. Era, como também escreveu Pessoa: “Uma alma sordidamente campestre.”

 

A psicoterapeuta psicanalítica, Clara Pracana, entende que a “grandeza” maléfica de Salazar assentou em dois pontos cruciais da sua governação: a promoção da ignorância do povo e a habilidade em exauri-lo da sua vitalidade criativa.

 

Por isso acha que há qualquer coisa nos portugueses que os faz “tender para o pequenino, para o lamuriento, para o dependente (de messianismos vários), para uma espécie de cinismo trapaceiro, de trazer por casa”. 

 

Provavelmente tivemos o ditador que merecemos. Foi-nos bem feito.

 

Mas voltemos à contradição. Ela, a impertinente, tem o aspeto muito positivo de tender para a problematização. Como adepto da contradição, não tenho ideias fixas sobre nada, à parte algumas convicções sólidas sobre a verdade, a palavra, a honra e a cultura.

 

Inerente à contradição está a ideia de movimento. Que é o princípio da natureza. Desde novo que essa ideia me persegue. Daí o não conseguir manter-me nos partidos políticos, porque são estáticos. Além disso, falta-me o jeito para respeitar as diretivas partidárias, até porque sou incapaz de defender ideias com as quais não concordo. E também porque me sinto confortável a pensar e a refletir sozinho.

 

Isso fez de mim alguém que, por não ter certezas, não consegue aceitar o pensamento unívoco, totalitário.

 

Prezo muito a minha liberdade (ó cultura, estouvada mãe, a quanto obrigas!) e quero mantê-la. Quero continuar aberto ao confronto de ideias com os outros, porque sei que sou incapaz de viver de outra maneira.

 

Temos de ouvir toda a gente. Não podemos ter posições doutrinárias rígidas.

 

Gosto de eu próprio ir percebendo as coisas à medida que as explico. Confio em três características: a capacidade de ler o mundo, a capacidade de negociar as diferenças e de as traduzir e explicar aos outros.

 

João Madureira

 

 

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