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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

18
Jun14

Chá de Urze com Flores de Torga - 40

 

Não sei qual será o futuro de Chaves cidade, se como tal se aguentar. Muitas vezes sinto saudades da cidade de Chaves dos anos 60 em que era apenas uma cidade pequena, bem pequena, de província, em que as novidades eram trazidas até nós tardiamente, por um comboio que então existia, o mesmo que de regresso a Portugal carregava vagões de batatas e outros frutos arrancados do suor das gentes das nossas aldeias mas que lhes dava para se manterem no seu torrão e até estudar os seus filhos na escola da aldeia e depois da tal cidade dos anos 60. Sinto saudades dessa pequena cidade, que embora pequena, tinha a sua digna importância em Trás-os-Montes como a maior cidade comercial e de negócios (mesmo que fossem do contrabando), saudades da cidade dos estudantes e da cidade dos militares. Chaves era então uma cidade pequena mas, sem qualquer dúvida, a cidade mais importante de Trás-os-Montes. Mas não era só pelo comércio, pelos estudantes (recorde-se que a nível de estudantes recebia no secundário e complementar quase todos os estudantes dos Concelhos de Valpaços, de Vinhais, de Mirandela, Boticas, Ribeira de Pena e Montalegre) e pelos militares, mas também pela cultura, pelo cinema, pelo teatro,  então com duas salas de espetáculos, o Cineteatro com 1000 lugares sentados e os Canários (mais pequena e acolhedora), com os seus poetas e escritores, com uma vida noturna de fazer inveja às melhores cidades, com um jardim das Freiras que eram a sala de estar da cidade, com um bom parque hoteleiro e as termas, às quais nunca foi dada a devida importância, e que ainda hoje estão muito aquém das suas potencialidades, onde nunca se apostou com seriedade como uma oportunidade de ser um polo dinamizador da cidade, com as vertentes medicinais reconhecidas que tem mas também as de lazer aliadas ao turísmo, principalmente nestas últimas e principalmente tendo em conta que nos encontramos num verdadeiro paraíso de fontes termais (para além das caldas de Chaves), onde à volta existe um valiosíssimo património cultural, religioso, paisagístico, natural, gastronómico, etc. Onde além de trazer a Chaves o smais idosos para curar as suas maleitas nas termas poderia vir muita juventude a acompanhá-los se as ofertas para eles fossem também um convite para umas férias bem passadas.  Temos de tudo, ainda temos, embora a caminhar para o tínhamos de tudo…

 

Mas o que é que tudo isto tem a ver com Miguel Torga? – Pois tudo e nada. Para melhor me fazer entender deixo aqui algumas palavras de Torga:

 

Fotografia retirada de http://www.asbeiras.pt

 

 

Chaves, 4 de Setembro de 1984

 

Aqui parece-me sempre que em Portugal não há classes, há castas.

 

Miguel Torga, in Diário XIV

 

Chaves, 2 de Setembro de 1984

 

Integrado no ritual terapêutico dos mais anos, desde o amanhecer que sou um devoto em devoção, inteiramente alheado  do resto do mundo. Quando o Outono se aproxima, toda a minha natureza doente me pede esta cura revitalizadora. E bebo religiosamente doses de água como se bebesse  doses de energia. O mito de Anteu, para mim, vai até às entranhas da terra.

 

Miguel Torga, in Diário XIV

 

Chaves, 29 de Agosto de 1987

 

Os habituais quinze dias terapêuticos a ingerir linfas cálidas. Sou médico, mas acredito mais na natureza do que na ciência. E tenho inscrições votivas em todas as fontes de Portugal.

 

Miguel Torga, in Diário XV

 

Bem, claro  que com o tempo algumas coisas se vão alterando e as tais castas de que Torga falava estão em vias de extinção e estamos de regresso às duas classes tradicionais da pobreza, ou seja, a dos muito ricos e a dos muitos pobres, com uma intermédia constituída pelos tais chamados chicos espertos que se dedicam à política que até podem conseguir uns cobres mas continuarão a pertencer à classe dos pobres de espírito, ao contrário de antigamente em que os políticos eram nomeados por entre as castas, mas adiante, voltemos a Torga, pois ainda podemos ir a tempo de salvar qualquer coisinha, e uma delas, é, porque não, aproveitarmo-nos da fama de Miguel Torga como o maior poeta e escritor português que escolhia religiosamente as termas de Chaves para passar cá os seus 15 dias anuais (as palavras são dele), mas que aproveitava esses dias para ir à descoberta do tal património riquíssimo que ainda temos. Os seus diários são um testemunho disso mesmo e podem crer que nesse campo não temos melhor embaixador que o Torga.

 

 

Sei que se está a preparar uma homenagem ao flaviense, um ex-Presidente da República da era democrática, o Marechal Costa Gomes. Tardiamente mas merecida, esperamos para ver se a dita homenagem estará à altura da dignidade que deverá ter. Curiosamente a homenagem parte de quem menos se esperava, mas aqui talvez  as tais “castas” de que Torga falava não estejam isentas de culpa…mas o que interessa é mesmo a homenagem que como disse, só peca por tardia. Sem querer comparar o que não pode ser comparável, Nadir teve a sua homenagem e reconhecimento ainda em vida, foi pena que o Marechal Costa Gomes não a tivesse tido também em Chaves.  Mas vem isto também a propósito de Torga a quem Chaves também deve uma homenagem e nesta, com Chaves a poder tirar dividendos com a promoção das Termas de Chaves mas também de todo o concelho e região, bastando para isso criar o roteiro de Torga na região, e vão ver que nada do que é importante  de todo o nosso património ficará de fora. Claro que para isso Chaves terá de deixar de ter a mentalidade pequena dos pequenos ao insistir em olhar só para o seu umbigo, pois Chaves só terá a lucrar se entender como sua região também os concelhos vizinhos e, claro, que estes também terão de ter o mesmo olhar para com Chaves. Mas uma vez que os nossos autarcas andam entretidos com outras coisas e agora que temos por aí aquele novo organismo (CIM) que foi criado para empregar (ou para garantir tacho como dizem todos) os antigos autarcas, pode ser que alguma coisa de válido saia de lá, das cabecinhas deles.

 

Vamos aguardar.  

 

 

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