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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

11
Jul14

Discursos sobre a cidade - Por António de Souza e Silva

 

QUE OUTRO OLHAR SOBRE NÓS MESMOS?

 

Quando nos debruçamos sobre a história da participação de Portugal na Grande Guerra, e na extrema vontade do partido de Afonso Costa quer ver Portugal ao lado da nossa velha aliada no conflito, muito nos interrogamos porque os republicanos, sobre esta matéria se dividiram tanto. E porque surgiu a guerra, a luta interna, entre os chamados guerristas e anti-guerristas. E é legítimo perguntarmos: porque se aceitava como perfeitamente normal a ida das nossas tropas para Angola e Moçambique, combatendo o mesmo adversário e, por outro lado, se considerava um «crime de lesa pátria» combatermos ao lado dos Aliados? Porventura não era a Alemanha, na sua nova vocação imperialista, em conversações secretas com a nossa cínica e calculista aliada Inglaterra, a mesma interessada nas nossas colónias? Por acaso não estava a nossa vizinha neutral Espanha eventualmente interessada na «anexação» do nosso território ao dela, predispondo-se mesmo a despir o seu manto virginal da inocente neutralidade, com o apadrinhamento da nossa velha aliada, que se estava marimbando-se para tal facto? No meio de um mundo em completa transformação (que nós, teimosamente, estávamos a deixar passar ao lado) e convulsões, em que a nossa integridade como povo e nação porventura estava em jogo, afinal o que essencialmente nos dividia, de um modo especial o lado republicano? Era o nosso atávico atraso e ignorância a ditar as suas leis? Era uma classe dirigente virada sobre si própria e sem consciência plena do Portugal que lhe competia «carregar»? Foi a inabilidade dos republicanos - uma elite urbana - que, ao tentarem «impor» um regime com o seu ideário a um povo atrasado e rural, assente em estruturas e mentalidade de um Portugal ainda quinhentista, de não conseguiram estabelecer as pontes necessárias para, com ele, enveredarem pela senda do desenvolvimento e da democracia? Os dirigentes da nossa Primeira República estavam mais interessados em correr riscos ou na conquista do aparelho do Estado?

 

Para mim esta questão ainda continua a ser um enigma. E, porventura, o seu deciframento esteja na análise e numa reflexão mais cuidada da História - agora volvidos os anos e assente o fervor das paixões - que devemos fazer do regime salazarista que depois sobreveio à queda da República.

 

Enquanto andava entretido nas prateleiras das livrarias, procurando encontrar bibliografia sobre a Grande Guerra, veio-me às mãos, quase sem querer, um livro do nosso insigne ensaísta Eduardo Lourenço - «Do colonialismo como nosso impensado». A maior parte dos textos, da década de 60 e 70 do século passado, são inéditos; outros foram publicados em revistas. E não resisto em citar alguns excertos cuja leitura me suscitaram curiosidade e que aqui partilho com o leitor:

 

“O dado original de «ser português» é ter nascido na dificuldade e aparentemente «contra natureza», isto é, «contra a História». Os estrangeiros que nos ignoram ou superficialmente conhecem a nossa «história» compreendem dificilmente a existência dessa orla de cor diferente na maciça Península. Mas nós compreendemo-la bem e pensamos nela todo o tempo. Nós sabemos de cor esse frágil milagre de uma singularidade de que nos inquieta e nos exalta. Nós amamos a nossa pequenez e nós detestamo-la. Ou antes, detestá-la-íamos, se não tivéssemos outro recurso que medir o nosso ser ideal pelo nosso ser real. Oliveira Martins chamou-lhe «vontade» - que nos permitiu ser quem realisticamente parecia pouco provável que viéssemos a ser. Nós éramos então o que podíamos, e podíamos o que éramos. Mas este equilíbrio era ele mesmo o resultado de uma luta, que, como sempre sucede, só a fuga para diante podia salvar. A nossa foi mesmo assombrosa. Foi mesmo sem exemplo. Chamou-se Descoberta e levava no bojo a Colonização, a primeira dos tempos modernos”.

A nossa gesta descobridora deu-nos colónias, mas não será espantoso verificar nós nos termos entendido melhor com o apodo de «Expansão»?

 

E mais um pouco à frente, continua Eduardo Lourenço, dizendo que há só um documento que resume a nossa empresa expansionista - Os Lusíadas, a nossa pátria celeste, em que Camões expõe a verdade «claramente vista». Os Lusíadas, argumenta Eduardo Lourenço, “exemplificam o espanto, a consciência maravilhada de desproporção entre «a pequena casa lusitana» e os mares abertos, e as terras que ele vai enumerar como para se convencer, por essa litania épica do Canto X, do milagre já inquieto de tanta conquista. A nossa epopeia, essa sim, sendo portuguesa é maior do que Portugal, e isto foi o que sentiu e cantou Camões, dando assim forma definitiva, instaurando-a mesmo, à mitologia nacional, pois a empresa descobridora e colonizadora, ao contrário da dos espanhóis, foi desde o começo, ou quase, identificada com a atividade fundamental da nação. Os Lusíadas representam a hipertrofia da nossa consciência e identidade nacional”. Que se tornou Bíblia. E remata: “O Poema não inventou a nossa realidade de descobridores de mundos e colonizadores, mas converteu um momento privilegiado em Eterno Presente da alma portuguesa”.

 

Talvez esteja aqui a explicação de, nos tempos modernos, termos sido os primeiros povos colonizadores e os últimos a retirarmo-nos dos povos que colonizámos, aliás vivendo numa pátria que na essência era colonizadora, mas de cujo estatuto tirava pouco proveito, chegando ao ponto de chamar àquelas colónias de «províncias». Não será que o português da província do Minho ou de Trás-os-Montes não se sentiria também um colonizado?

 

Portugal foi, na maior parte do tempo ao longo da sua história, um povo e uma nação sem problemas de identidade. Mas, durante os períodos convulsos em que foi ocupado ou tutelado por poderes estranhos à sua história, particularmente no século XIX, com as guerras napoleónicas e a ocupação inglesa, e com a independência do Brasil, começou a «sentir» a sua fragilidade, a perceber que vivia um trauma. Que as crises de identidade também lhe tocavam. Só a partir daí é que começou a entender a sua verdadeira e ontológica realidade, oculta durante séculos pelo seu exorbitado, mas realíssimo papel de velha nação colonizadora.

 

Passados 40 anos sobre o 25 de Abril, e acabado definitivamente o Império, na ressaca visível da nossa crise de identidade, pergunta-se: portas adentro, já descobrimos o sentido do que deveras nos aconteceu e medimos a nossa exata dimensão como povo? Já começámos, citando, por último, Eduardo Lourenço, no dizer “de Sofia, a inversa navegação, o decifrar sem fim daquele Portugal que a Navegação e o resto, hoje terminados, nos encobriram”?

 

 O caminho que hoje trilhamos é mesmo o da inversa navegação? Ou não será o de um país colonizador colonizado cuja esperança, quando se atira na «nova descoberta», só encontra os caminhos da «nova emigração»?

 

António de Souza e Silva

 

 

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