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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

07
Ago14

Discursos (emigrantes) Sobre a Cidade

 

 

 

A terrinha

 

 

"O tempo é que manda, ele é que sabe, desliza entre os dedos e os anos, apaga o que é próximo e ressuscita o que ficou longe"

 

Madrugada Suja, Miguel Sousa Tavares

 

 

 

Juro! Juro, que a intenção esteve lá: quis evitar o cliché. Quis evitar que os Discursos Emigrantes do “querido mês de Agosto” regressassem ao saudosismo da terrinha, dos reencontros das famílias, das festas da aldeia, dos comes e bebes, das "minis" e dos tremoços... Mas era este o único regresso possível, já que o verdadeiro ficará para o próximo ano, “se Deus quiser”.

 

Juro! Juro, que a intenção esteve lá: evitar o cliché... Mas não me contive ao pensar que...

 

... não verei as formas geométricas já bem definidas e erguidas do Museu Nadir Afonso, que – li à distância – se aproxima da conclusão, nem os eventos promovidos pela terrinha, pois bem queria assistir à euforia do Chaves Beach Games e confirmar que teimosia + irreverência x 4 = sobrevivência bem-sucedida do festival de música tradicional FlaviaeFest.

 

... não verei o rescaldo pós-eleitoral nem como os novos presidentes defendem com cada vez menos armas as nossas freguesias.

 

... não verei o que é feito do hospital, do tribunal, das verbas para a cultura, educação e empreendedorismo...

 

... não verei porque há cada vez mais transmontanos a sair e cada vez menos a voltar à terrinha, mesmo no querido mês de Agosto.

 

... também não verei, quando sair à rua, as exclamações de surpresa e alegria no rosto dos amigos e conhecidos, ao reverem-me após largos meses, reconfortarem o meu coração (afinal não me esqueceram!).

 

... não vou deambular pelos locais que me fizeram crescer para salpicar as minhas férias de emoções.

 

... não vou matar as saudades dos pratos da minha avó nos almoços de domingo, agora perdidos na emigração (uma das nossas melhores e mais saudosas tradições).

 

... não vou cantar o “toma lá, dá cá” e dançar nas festas populares como se a vida e o mundo fossem simples como a noite que cai e o dia que nasce.

 

 Chaves, Julho 2011 - Fotografia de Sandra Pereira

 

Juro! Juro, perdoem-me, que a intenção esteve lá! Evitar o cliché... Mas este ano não haverá querido mês de Agosto na terrinha, onde sinto que sou a cara metade de toda a gente, onde sou família de todos, pois todos partilhamos valores, formas de estar e ser.

 

Para compensar o saudosismo, dou por mim a ligar ou enviar mensagens a muitos que não verei este Agosto. Na volta, percebo que Portugal continua deprimido, pois todos parecem desculpar – e até encorajar - a minha "falha". Na volta, quando pergunto como vai a vidinha em Portugal, dizem-me que tenho sorte em não voltar.

 

Escreve-me um dos meus amigos...

 

"... e tenho trabalhado muito. Enfim são vidas para ter uma mão cheia de nada! Viva Portugal, viva a banca, viva o BES que todos vamos pagar! É bom saber que não vens a África, os países subdesenvolvidos são um problema para o europeus modernos. Nós em Boticas já perdemos o tribunal, depois perderemos o centro de saúde, depois as finanças, depois a câmara, depois depois, depois, já não há mais para perder!  

 

Uma palavra de apreço para quem conseguiu ver mais além e sair de África, antes de ser completamente queimado pelos fogos florestais do Verão que nunca vão acabar até não haver gente.

 

Viva um Portugal subdesenvolvido! Viva um Portugal pobre! Viva um Portugal sem Serviço Nacional de Saúde! Viva um Portugal deserto do Sara!  Hoje estou numa de patriotismo. Viva a deficiência governativa, viva a impunidade, viva os pagamentos para nada fazer, viva a mediocridade! Por estás a rir? Não é justo! Não esperava essa gargalhada de mau gosto!

 

Bem, mudando de assunto, viva a nossa selecção, viva o Benfica! A rires novamente? Está bem... lá vai! Viva o Ronaldo! Já chega de treta. Tudo de bom para ti. Um grande beijinho."

 

 

E é isto o que Portugal oferece a quem teima resistir e lutar no nosso Interior?!  Coitados é dos meus avós! Mentem mal, ao dizer que entendem – e até desculpam! – “a falha”, fingem mal, ao encolher os ombros perante “a falha”, vivendo num país que parece “voltar” a estar “orgulhosamente só”...

 

Juro! Perdoem-me o cliché! Mas, após tantos “trabalhos” e “canseiras” a favor deste país, o coração deles merecia outra coisa.

 

 

Sandra Pereira

 

 

 

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