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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

10
Out14

Discursos Sobre a Cidade - Por António Tâmara Júnior

 

DIVAGAÇÕES IMPREVISTAS … MAS PREVISÍVEIS

 

De vez em quando, o proprietário deste blog pede-me uma pequena colaboração nesta rubrica, o que, diga-se de passagem, faço-a com muito gosto.

 

Mas, confesso, que não sou dado a grandes escritas: não sendo escritor, jornalista ou sequer amante da pena, sofro, igualmente – salvo as devidas proporções -, como o escritor quando fica perante uma folha em branco. Meu sofrimento, aqui é de outra escala, e tem, essencialmente, a ver com o teor da comunicação. Gostaria de escrever algo que, por um lado, fosse interessante, mas, por outro, que fosse útil, pedagógico. Vai aqui, contudo, o que, de momento, se pode arranjar.

 

I

Para levar a cabo este meu escrito, como sempre em momentos de aflição deste teor, é o tio Nona que vem em meu auxílio. Este velho socialista, republicano e laico, continua a ser para mim não só uma boa companhia mas também uma fonte de informação e inspiração. Como sempre, vou dar com ele entre as quatro paredes da sua casa, entretido nas suas leituras. As suas preferências de leitura, atuais, viraram-se para a história pátria. E sua curiosidade vai no sentido de perceber o apogeu e queda de Portugal.

 

Mas este tema será objecto doutra escrita.

 

A obra que acabou de ler, diz, foi «Der Untergang des Abendlands» (A Decadência do Ocidente), de Oswald Spengler. E, ao contrário da ideia ou conceção da história como progresso, como uma marcha incessante para o desenvolvimento e aperfeiçoamento cultural, técnico e moral, cuja influência radica no cristianismo, com o fim dos tempos e o cumprimento das profecias da Segunda Vinda, [o que, segundo Jaime Nogueira Pinto, na sua obra «Portugal: Ascensão e Queda», tem continuidade pela laicização com o Iluminismo europeu e os Enciclopedistas até Hegel], a história, e particularmente a história do Ocidente, não é a marcha incessante, nem tão pouco o Ocidente possui o monopólio da civilização: as civilizações são múltiplas e plurais e, cada uma delas, tem a sua especificidade e grandeza. Mas todas, segundo Oswald Spengler, que foi contemporâneo atento das duas Guerras Mundiais, atingem o apogeu, iniciam a sua queda e, depois, morrem.

 

Assim aconteceu com o Império Romano, o mais paradigmático de todos.

 

A natureza humana não segue uma marcha imparável para o seu absoluto aperfeiçoamento. Possui altos e baixos, avanços e retrocessos. E desses altos e baixos, desses avanços e retrocessos temos inúmeros exemplos ao longo da História. É o próprio Edgar Morin, na sua clássica obra «A Natureza Humana - Paradigma Perdido», quem nos recorda que o ser humano, o homo sapiens, tem tanto de sapiens como de demens (sábio e demente, simultaneamente): nem sempre a racionalidade é apanágio das ações humanas; muitas vezes as emoções mais virulentas sobrepõem-se à razão. Para exemplificar tal facto não precisamos ir muito longe: é ver os conflitos regionais que campeiam, nos nossos dias, e «envenenam» as relações de convivência humana, desde o Médio Oriente até à Ucrânia – já para não falar de outros -, e, principalmente, nos dois primeiros quartéis do século XX, o que foi o «holocausto» das duas Guerras Mundiais.

 

II

Tio Nona, pegando no livro referido de Jaime Nogueira Pinto, começou a ler-me:

 

Depois da queda [que já tem mais de 200 anos], Portugal vive num limbo virtual, espécie de purgatório pós-moderno, entre a mediana sobrevivência numa União Europeia que não sabe para onde vai (e se vai…) e as vagas memórias de uma grandeza passada, para alguns, quase vergonhosa; um Portugal com o qual todos se preocupam, mas que poucos se ocupam”. (Sublinhado nosso).

 

E, pegando na Visão da semana passada diz-me, apontando-me a página 11, do seu número 1126, que este ano fazem 143 anos depois das Conferências do Casino. E continuou. No passado dia 2 de outubro corrente, na Universidade de Coimbra, deu-se início às Novas Conferências do Casino que, “tal como as originais, têm como ponto de partida um manifesto e se propõem repensar Portugal”. O grande ensaísta Eduardo Lourenço versou no passado dia 2 o tema «Vamos repensar Portugal». Espero, disse, não só o maior sucesso, mas, sobretudo, a mais viva participação cidadã nestes Debates.

 

Portugal precisa, seriamente, de ser não só pensado, como também regenerado. Há tanto tempo que falamos da regeneração de Portugal! Mas a regeneração só é possível com cidadãos ativos e intervenientes.

 

Debalde falarmos em sociedades democráticas enquanto não nos compenetrarmos que a democracia só é possível entre seres iguais; que o planeta Terra não pode ser coutada apenas de uns poucos, mas de todos, por igual, e assumirmos, e trabalharmos, com a diferença que é consubstancial a cada ser humano, individualmente considerado ou visto em sociedades específicas, diferenciadas. A democracia, que se carateriza pelo diálogo entre os seres humanos, considerados cidadãos, jamais será possível sem a assunção das diferenças e na busca incessante dos melhores meios de convivência pacífica entre todos os seres da Humanidade. Daqui até lá, o ser humano tem ainda um longo e árduo caminho a percorrer, caminho que, mesmo assim, mas não devemos, por isso, esmorecer por ele.

 

A democracia, e a sua vitalidade, reside exatamente aqui. Numa sociedade tão complexa, como a que hoje em que vivemos, e heterogénea, já não é possível a existência de políticos heróis. Devemos erradicar o mito do político salvador, do Encoberto, de um novo D. Sebastião. A política, digna desse nome, só é compaginável em sociedades abertas, verdadeiramente democráticas. Que aceitam o conflito e a diferença como conatural à vida e ao género humano. E que, apostando no diálogo construtivo, encontram nele a única via estratégica de perspetivarem uma visão de futuro e para o futuro, suscetível de galvanizar, dinamizar e construir, com todos os cidadãos, uma sociedade mais justa, equilibrada, representadora de todo o ser humano que vive à face do berço – o planeta Terra - do qual nasceu, respeitando-o, porque é o húmus onde sua existência prosperará e será o regaço que o acolherá no final dos seus dias.

 

III

Das eleições primárias do Partido Socialista, que contaram com um novo e mais participativo processo, que fez subir António Costa à liderança do PS, apoiado por toda a “artilharia pesada” do partido, devemos retirar, fundamentalmente, as seguintes lições:

  • Que não há razão alguma para que «razões de estado partidário» se sobreponha à ética e aos princípios;
  • Que nunca se deva encarar uma eleição, qualquer que ela seja, como uma guerra – com vencedores e vencidos -, mas como o culminar de um profundo debate em que, de uma forma leal e solidária, pomos ao escrutínio, dos demais, as nossas melhores opções, que temos não só para as instituições (mesmo partidárias) como para o país;
  • Que a construção de um país, hoje em dia, já não é compaginável com heróis ou políticos providenciais: é feita com líderes que tenham a humildade e a lucidez de, só com a participação ativa e profícua de todos os cidadãos, é que se encontrará a melhor visão para uma sociedade e um país;
  • Que para a prossecução dessa visão é necessário o empenhamento dos mais competentes, honestos e «justos», que saibam dar alma e corpo, um sentido querido e partilhado por todos.

Um «ilustre» comentador da nossa praça portuguesa disse que a vida partidária é fria e implacável; às vezes, cruel e desumana. Mas é o que é.

 

Não acredito em fatalismos. O diálogo, até ao limite, é sempre possível, desde que estejamos, sempre, animados de boa-fé.

 

E não posso deixar de reiterar aqui a posição de José Carlos Vasconcelos, no seu Comentário, na revista Visão da semana passada, referindo-se às eleições primárias para a indigitação do candidato a primeiro-ministro do PS:

 

Um dos perigos de um processo como este é personalizar excessivamente, dar demasiado poder ao líder, diminuindo uma democraticidade partidária já de si muito pequena. Testá-lo, e ao invés, aumentar essa democraticidade, apresentando projetos para que se venha a alargar a todo o sistema político, deve ser uma das suas apostas [- as de António Costa]”.

 

A era do «canibalismo político», na mordaz expressão de Miguel Real, deve dar lugar à assunção das diferenças e, com elas, encetarmos o que deve ser essencial para a nossa regeneração, numa sociedade justa, equilibrada e solidária do século XXI. Só desta forma se cumprirá Portugal, dando corpo ao Portugal de que tanto sonhamos.

 

Está na hora de um novo remar. Mesmo que o tenhamos de fazer «ao revés»!

 

E, mutatis mutandis, rematava tio Nona dizendo que outra coisa ou postura não se pode esperar dos flavienses e seus eleitos: repensar Chaves, encontrar uma nova visão para a sua cidade e concelho e nela partilharem os seus munícipes, verdadeiramente empenhados numa sociedade outra, que não esta «podre» em que vivemos.

 

Magister dixit.

 

Muito obrigado, tio Nona, por me valer nesta aflição. Pena se confinar tanto a essa clausura que tão obstinadamente se impôs. Se todos somos poucos para a construção de «um novo Portugal!?»...

 

António Tâmara Júnior

 

 

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