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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

07
Nov14

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

GIL

 

O GATO TALISCA

 

― Ele há animais que são como gente, e até gatos que são como cães! ― Assim se exprimia Terebentino Maçapão, quando queria contar alguma das peripécias do seu gato Talisca. Um animal que colhia mais mimo do que a sua própria mulher e os filhos.

 

― Ah, mas vossemecês não se fintam? ― Questionava ele no empedrado da taberna do Faustino. ― Pois saibam que o borrão é como um cristão quando tchisca na reca! Aquilo só bisto, inté comobe! E os micos? Dizem que são bitchos marotos, solitários e felinos e que não conhecem o dono. Cais quê! Eu tenho lá em casa um que é como um cão! Não lhe chaldra estar sozinho e quando Deus quer caça no Tabolado como qualquer perdigueiro! Olhaide que o catano do gato é mais guitcho do que muitos burros que conheço!..

 

Já ninguém podia ouvir as histórias do Talisca, repetidas vezes sem conta. Só lhas aturavam os mais pinguços ou algum que lhe desconhecesse a manha. Talvez por isso muitos dos seus sócios se avinhassem, por mor de amaciar aquelas secas que mirravam qualquer renovo!

 

Daquela vez, para além de dois ou três copofónicos, quedou-se a escutá-lo um chauffeur do António Magalhães, que ali fora meter gazoil para fazer a carreira de Braga.

 

O Terebentino era proprietário de uma das muitas lojas de passamanarias da cidade. Nem de propósito, morava na rua dos Gatos, na casa onde nascera e herdara de seus pais. Pouco mais fazia do que mercar botões, carrinhos de linhas, colchetes, agulhas e dedais, brincar com o seu bichano e botar um copito, ao fim da tarde, no Faustino. Mas não lhe chegava muito, para não ter de ouvir a Luísa Faneca, sua mulher, a atezanar-lhe o juízo. Além do mais, o vinho era caro e se alguém lhe pagasse um caneco, ainda vá que não vá, pois era um sovina, ainda pior do que o Chico Santo Cristo. Tinha dois filhos já gargalhotes, o Marcolino e a Rebeca. O rapaz, com cerca de 12 anos, completou a 3ª classe na escola da rua do Correio Velho e foi trabalhar com o pai; a rapariga, um ano e meio mais velha, servia a dias pelas casas dos ricos da cidade.

 

Relevamos que o Terebentino era avaro, e de tal forma que, no ocante a morfes, para os filhos e para a mulher só havia pão e cebola, para ele e para o Talisca pitéus. No tempo das novidades, era por demais. Aos moços, de pêlo na venta, esbugalhavam-se os olhos fixados na gamela do pai. Mas não avezavam para lá das vistas. Mesmo a velha Faneca, consolava-se tão só, com o gosto, amargoso, de ter de lhos preparar e sem prova.

 

Ele era cabrito e leitão, ele era chouriça, alheira e salpicão, ele era palóio, orelheira e focinho de reco, ele era pirúm e galinha caseira, ele era perdiz e coelho bravo, ele era truta do Beça e escalos, bogas e barbos do Tâmega… Sei lá que mais! Então, no tempo em que o sável subia o Douro para a desova e apanhava o comboio para o mercado de Chaves, fresquinho de dois dias, o lambão não poupava a mulher. Mandava-a à praça onde comprava gabelas dele que amanhava em escabeche avinagrado e guardava no mosqueiro para vários dias. O mosqueiro, substituto imperfeito do frigorífico, estava no rés-do-chão da casa, na despensa, por ser mais fresco. A porta, de rede fina, para proteção da varejeira, trancava com uma pequena fechadura cuja chave nunca ficava ausente do bolso do Terebentino.

 

Ai da Faneca que lhe faltasse com aqueles manjares! Gato e dono empanturrarem-se à tripa forra! Claro que o Marcolino e a Rebeca tinham um ódio mortal ao bichano e, em podendo, cegavam-no!

 

De facto, o Talisca, ficava doido quando lhe cheirasse a petisco, sobretudo ao peixe frito! Mal esgrilasse o dono à mesa, sorrateiramente, plantava-se-lhe no colo e comia do bom e do melhor, do mesmo prato. O animal não conhecia ninguém a não ser o dono. Pudera! Dos filhos fugia a sete pés, adivinhando-lhes a intenção, da Faneca levava sape-gato a toda a hora! Praticamente só parava em casa enquanto sentisse o Maçapão, de resto, andava sempre ao cão!

 

Ora, um belo dia, e era esta a história que o Terebentino contava aos amigos naquela ocasião, no mosqueiro guardava-se um alguidar de barro de Nantes com umas boas postas de sável de escabeche. O Terebentino veio almoçar e, emprestando a chave do mosqueiro à Luísa, mandou-a que buscasse o alguidar. Quatro postas: três para si e uma para o gato. A acompanhar, batata canabeque do Brunheiro, pão de centeio de Faiões, pimento do vinagre, uma malga de azeitona verdeal, quartilhada, de Água Revés e uma pitchorra de tinto do de Cova do Ladrão. Para a mulher e para os filhos batatas secas, uma côdea de pão e uma caneca de água lisa. O Terebentino deliciava-se com o manjar e o Talisca lambia as beiças fitando os demais com desdém e ar de gozo. O excomungado parece que percebia a raiva que lhe guardavam!

 

Refeição acabada, o gato foi ronronar para o estrebão e o Terebentino botar um café e um bagaço ao Geraldes, antes de abrir o estaminet.

 

A refeição fora-lhe tão afeiçoada que a chave ficou olvidada na porta do mosqueiro. Pela hora da merenda, quando não sentisse ninguém em casa, o gato costumava cheirar os cantos para ver se lhe tocava alguma coisa esquecida ou que pudesse roubar. Naquela tarde, quando inspecionava a despensa, sentiu e aroma tentador do escabeche e procurou-o. Deu com ele no mosqueiro. Contudo, a porta estava fechada à chave. Tentou abri-la com as garras, mas não conseguiu. Andou de roda, de roda e às tantas formou um pincho, encaixou a unha na argola da chave e rodou-a. A porta abriu-se. O Talisca entrou e só de lá saiu com as duas únicas postas no odre.

 

Claro está que quando o Terebentino deu pela falta do peixe e com a chave na porta, tornou, imediatamente, a culpa aos filhos e moeu-os de cilha. A Luísa não passou, também, sem dois lambefes no focinho! Nem ela, nem os desgraçados, inocentes, teriam ideia do que se passara. Ora, com aquela confusão o alguidar permaneceu esquecido e a chave continuou na porta. No dia seguinte, pela mesma hora, a Faneca topou que o gato andava pela casa muito lampeiro, estranhou! Seguiu-lhes os passos e deu com a ratada!

 

À noite, contou o que observara ao marido. Ele não queria acreditar!..

 

Calou mureta e saiu à procura de uma sandes no bar Avis!

 

Passados dias o gato levou sumiço!..

 

Daí uma semana, já com a estória quase esquecida, o Terebentino trouxe para casa um coelho já esfolado e embrulhado num cartucho de mercearia. Que lho tinha oferecido um caçador amigo. A Luísa que o amanhasse e o comesse com os filhos à ceia. Ele, nessa noite, tinha uma taina com os amigos!

 

Claro que quando a esmola é grande, o pobre desconfia!..

 

Evidentemente, a Faneca não era estúpida e logo cogitou vingança. Foi-lhe à carteira, enquanto ele se aliviava na casa de banho, e fanou-lhe uma nota de vinte mil réis. Com ela comprou um coelho, verdadeiro cabrito, a um criador de Casas do Montes. Fez um belo assado que os três devoraram, merecidamente, para cura da trepa que haviam experimentado dias antes. O outro coelho, o do cartucho, foi guardado no mosqueiro para melhor ocasião.

 

Mãe e filhos, estrategicamente, no dia seguinte, fartaram-se de gabar o coelho que o pai lhes oferecera e agradecer aquela oportunidade tão rara!

 

Passado o episódio voltou-se ao mesmo rama-rame: coelho estufado para o sacripanta, batatas secas para o resto da família…

 

- Ó Luísa, o que é que fizestes a este coelho que parece que sabe ó peixe!

 

- Tu é que sabes ó peixe! Esse coelhinho devia-te saber era ó bravo, pois estufei-o com carqueja e ó mais inda onte comia labrestos na loje do Ti Aniceto de Casa dos Montes!..

 

O Marcelino e a irmã olhavam para o pai com os mesmos olhos com que o gato Talisca os fitava quando enchia o focinho de coisas boas no colo do pai e eles comiam cornos!..

Gil Santos

 

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