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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

21
Nov14

Discursos sobre a cidade - Por António de Souza e Silva

SOUZA

 

HOMENAGEM AOS NOSSOS VIRIATOS CENTENÁRIOS

 

Quando nos debruçamos um pouco, e refletimos, sobre a Grande Guerra - o acontecimento mais marcante à entrada do século XX - vemo-la como um enorme terramoto, que abalou e transfigurou, de uma forma profunda e determinante, a Europa, continente dominante e hegemónico em todos os setores da atividade humana - social, cultural, científico, técnico, económico e financeiro.

Era uma Europa aristocrática, arrogante, imperialista, ciosa do seu poder, orgulhosa do Progresso, que julgava sempre incessante e ilimitado, e que dominaria tudo quanto à face da terra existisse.

À superfície, na placidez desse mundo, fervilhava uma sociedade que, cuidando de viver no melhor dos mundos, gozava a «sua» Belle Époque.

Tudo isto simplesmente se passava à superfície.

As principais «placas» em que aquele mundo assentava (império inglês, alemão, francês, austro húngaro e russo e o moribundo otomano) começavam a movimentar-se. E seus movimentos pressagiavam um «fin de siècle» em que tudo poderia deixar de ser como dantes.

A era da Razão e do Progresso, científico e tecnológico, sem limites, iria dar lugar à ubris, à loucura e catástrofe.

Bastava agora apenas um simples movimento em qualquer ponto mais sensível de uma das «placas» para tudo começar a desmoronar-se.

E, inopinadamente, num remansoso verão em que as classes possidentes e dirigentes vão de férias, a banhos, um outro banho, de sangue, começa a acontecer!

Sarajevo foi o epicentro desse enorme terramoto que, em longas e profundas ondas de choque, se alastrou por toda a Europa e pelas áreas desse mundo por ela dominado.

Uma Europa ébria, incontida, cega às consequências das sucessivas decisões que se iam tomando, lançando, em massa, toda uma geração de uma juventude promissora, na fornalha de aço que a metralha, que veio com o Progresso, gerou.

Era o princípio do fim de uma civilização a quem faltou o bom senso e a lucidez para pugnar pela construção de uma sociedade outra, numa convivência pacífica de povos.

Um pequeno país, «à beira mar plantado», nesse extremo ocidente da Europa, prenhe de orgulho da sua gesta histórica, de sulcador de mares, e que deu a conhecer novos mundo ao Mundo, dormia numa letargia de séculos, sonhando com um passado áureo, mas, inconsciente ou anestesiado, mergulhado no mais puro dos obscurantismos, vivendo de «esmolas» de outros impérios que prosperaram à sua sombra, porque, do seu, nenhuma riqueza consistente e duradoura tirara grande proveito e conseguira construir, a não ser o fausto, que classes ociosas amplamente desperdiçavam.

Cheio de grandezas passadas, mas carente de vontade, engenho e arte, firmeza e determinação para, arregaçando mangas, «botar novos barcos» ao mar, sulcando-o com novos navios em novas águas, ficou presa fácil das aves de rapina apostadas a nem lhe deixarem os brincos das orelhas ou as alianças dos dedos e, quiçá, sem o seu próprio e humilde casebre.

Uma geração nova, aguerrida, inconformada e radical, ao contrário das gerações anteriores que a precederam - tão brilhantes de pensamento, mas Vencidos da Vida, incapazes de dar corpo às suas generosas ideias - toma as rédeas do leme do barco e tenta levar por diante o sonho, tão acalentado, de um novo navegar, em ordem a uma nova «regeneração».

Mas - o tempo veio a prová-lo - ainda não estava suficientemente madura, preparada, para enfrentar os novos e grande embates que tinha pela frente.

Na construção desse novo remar, cada cabeça, sua sentença. Era a babilónia de ideias, programas, projetos e de personalidades que, à partida unida, cedo veio a provar que estava completamente dividida, sem um projeto matricial que os unisse, a não ser a sua radical oposição a tudo quanto cheirasse «ao do antigamente».

Perante a grandeza da missão a que se propuseram levar a cabo, foram incapazes de encontrar um mínimo traço de união. E, assim, ao primeiro obstáculo ou problema, a dissensão e a discórdia.

Embora determinados na construção de um novo porvir, esqueceram-se daqueles - e eram muitos - para quem esse porvir deveria ser dirigido. E, a um autoritarismo de duas cores e uma bandeira, outro surgiu, de duas cores diferentes, com outra bandeira também diferente. De matriz bem diferente, a I República, pese embora os seus profundos ideais generosos de mudança, na essência prática, pouco mudou. Foi o estertor final do liberalismo novecentista. No meio, um povo servo, analfabeto, à espera de condutores que o entendessem, escutassem e, com ele, com um novo processo, construir um «novo mundo», um novo porvir.

Infelizmente também o mundo que o rodeava, na aparência tão desejável de um bom viver, estava, nas suas profundas entranhas, com enormes contradições, conflitos e convulsões, em profunda mudança.

Poucos, fracos estrategas, e tão distantes do povo - pois só a «rua» não bastava! - facilmente se deixaram corromper por processos e métodos herdados dos tempo da outra «velha senhora».

E o povo novamente se sentiu servo - se é que algum dia o deixou de ser - e continuou presa fácil daqueles que, durante décadas ou séculos, o subjugou e dominou, com o beneplácito e a ajuda militante de uma «santa madre igreja» que todos os dias martelava que o paraíso não está aqui na terra, que este lugar era uma simples passagem.

Sem que os seus grandes protagonistas o desejassem, inconscientemente, levaram-nos para um mundo que não desejam viver, reproduzindo uma sociedade de «escuridão» e «servos» pelos quais tanto se havia lutado para a abandonar...

Aos problemas que internamente se viviam, as ondas de choque que o terramoto da Grande Guerra provocou veio ainda mais agravá-los. Mas, para alguns, aquela catástrofe que se estava desenrolando, alimentou a esperança de, na sua destruição, poder vir a transformar-se numa solução redentora.

Massas enormes de serranos, lãzudos, incitados para terem alma de novos Nun’Álvares, entraram naquela fornalha para defenderem as sobras, mal aproveitadas, daquilo que era nosso, de um império que outrora fora grande, gerado por um povo tão pequeno e uma terra tão estrita, que até parecia um milagre. Naquela altura, a alma era bem grande. Mas agora, não! E a nossa vizinha, e rival, agora sem o império das américas, espreitava pela oportunidade de ganhar o terreno perdido nos longínquos tempos da mourama.

Urgia, pois, entrar naquela fornalha de aço e, num esforço de sobrevivência (colonial, nacional, de defesa do berço pátrio e de reconquista de um lugar no concerto das nações) estar ao lado dos nossos, nem sempre impolutos, honestos e fiéis, aliados de sempre.

E quantas amarguras este esforço global e brutal nos trouxe! Por nossa culpa e por demasiada cobiça alheia.

Uma singela região e vila, encarnando nas suas gentes, e na sua guarnição militar, o espirito do dever, porque imbuída dos ideais dessa «nova era», desse novo sonho, que ajudou ativamente a criar, dando a machadada final naquele regime que não nos queriam deixar sonhar por um novo mundo, contribuiu com a sua quota-parte para a nossa sobrevivência como povo.

Gentes habituadas já à diáspora sabiam quanto de valor afetivo e simbólico tinham aquelas paragens africanas; paredes meias com um ávido estado vizinho - mas vivendo em boa paz e harmonia com as gentes, suas iguais, que apenas as separavam um traço legal de fronteira, partilhando a mesma terra e a mesma veiga fértil - não estavam, contudo, dispostas a «servir» outro amo senão aquele que, ao longo dos séculos, por sua livre vontade escolheram.

Por isso, quando lhes dizem da ameaça que sob o solo pátrio pendia, não hesitaram dar os seus filhos, os seus maridos, os seus noivos ou namorados aos diferentes campos de batalha onde Portugal - lhes diziam - se decidia.

Olhos rasos de lágrimas, corações partidos, e repletos já de saudades à partida, acompanharam os seus homens, que tanta falta faziam ao lavor da terra, até ao último adeus na parada da vila, na marcha pelas povoações por onde passavam, ou no arrancar dos comboios que, em 1915 e 1917, de Vidago, partiram para terras longínquas.

Saíram simples, analfabetos a maioria deles, rudes e humildes trabalhadores da terra e pastores dos montes, para serem transformados em bravos, heróis de uma guerra que não lhe conheciam o jeito, que nem em sonhos ou fantasia adivinhavam o seu poder destruidor.

Alguns por lá ficaram; outros vieram doentes; alguns estropiados; muitos conheceram o cativeiro e, os que vieram, vinham diferentes. Tinham uma história para contar e partilhar. Mas não com todos, pois não a compreenderiam. Apenas com seus camaradas-irmãos, que tiveram a mesma feliz sorte de sobreviver aquele inferno. Foram esses os seus confidentes privilegiados, com quem partilhavam aqueles dias de dor, sofrimento, horror e carnificina. Os familiares e amigos respeitaram o recato íntimo das suas memórias.

Sabemos que não foi uma história de glória e de conquista. Foi uma história triste, sofrida, muito sofrida e, sabe Deus com que mágoa, por tantos tão incompreendida e tão depressa esquecida.

Mas não é só de vitórias que se faz um povo. É também na suprema dor da derrota que mais nos sentimos próximos e irmanados. Porque o que conta é a luta por um ideal em que acreditamos. E a Vida dos nossos antigos combatentes de há cem anos foi dada por esse ideal e pelo dever de o cumprir. E é por ele, pelo Portugal que hoje somos, que a nossa História, e parcelas da mesma, deve ser relembrada. Para sabermos donde vimos e como aqui chegámos. História que, tal como a vida, tem tristezas e alegrias, dor e sofrimento, festa e dias de luto, comemorações, vitórias. E também derrotas.

As nossas lutas em África e na Europa, ao contrário do que muito dizem, não foi um segundo Alcácer-Quibir. Em Alcácer-Quibir perdemos um rei e a nossa independência. Nos tórridos areais e savanas africanas e na gélida planície da Flandres, perdemos parte da flor da nossa juventude, mas restou Portugal inteiro, incólume.

Aos bravos que há cem anos se bateram pelo Portugal que hoje somos devemo-nos curvar em respeito pelo seu sacrifício, conhecendo e respeitando a sua memória. E honraremos a sua memória, como cidadãos, lutando militantemente pela paz contra a guerra, e com o dever ingente de, cada vez, mais e melhor, pugnarmos por um Portugal mais moderno, desenvolvido, e mais justo para todos.

António de Souza e Silva

 

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