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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

02
Dez14

Estratos

800-rita

 

Ao senhor do brinco

 

Pedi à mãe para furar as orelhas. Não sei bem se antes ou depois de ver o senhor do brinco. Foi ali, no Café Sport, quando por lá havia uma parede mais bonita do que as outras.

 

«Mãe, aquele senhor tem um brinco!»

 

Era hora de jantar. Mãe sem mãos que chegassem para os filhos, sem dinheiro, sem chave de casa.

 

«Um homem sem dinheiro é um homem sem palavra.»

 

E a mãe sem mãos para tantos filhos. Trazia comigo mãos, dinheiro e a frase de que não gosto por, talvez, guardar verdade.

 

Dei dinheiro e mostrei mãos. Ninguém as segurou.

 

«Mãe, aquela senhora deu-nos dinheiro!»

 

Desculpe, senhor do brinco. Não há raios que partam o preconceito.

Rita

 

 

02
Dez14

Um breve regresso no tempo

1600-(41319)

Ontem calhou almoçar com um amigo de infância que já não via há alguns longos meses e, é um dos que vou vendo com mais frequência. Com a brevidade de uma conversa de almoço e o olho posto no relógio para o regresso ao trabalho, deu mesmo assim para regressarmos ao nosso antigo bairro, a Casa Azul, aos tempos em que os putos mais putos e os putos mais graúdos povoavam a rua do bairro. Contava-me o meu amigo que uma vez se deram ao trabalho de nos contar e éramos mais de cem, todos naquela sala de convívio que era a rua com ponto de apoio na taberna do bairro, de onde todos os mais velhos, as famílias, eram clientes de caderneta da mercearia, do pão e onde os filhos iam passando o tempo, mais ou menos organizados em pequenos grupos de interesses ou de conversas, de brincadeiras ou passatempos, que transformavam a taberna, num centro social ou de convívio, onde os putos mais putos eram rejeitados das conversas e diversões dos putos maiores, mas que podiam contar com eles, sempre que eles eram necessários para uma emergência de um tombo mal dado com a bicicleta, de um peão que acertou na cabeça dum parceiro, ou de outra qualquer coisa.

 

Para a cidade vinha-se aos bandos, de 10, 15, 20 ou mais, dependia do dia e dos trocos contados ainda em tostões, coroas ou poucos escudos, mas ninguém ficava de fora, havia sempre para todos, para ir ao cinema, às verbenas, tomar um café com direito a fazer sala toda a noite.

1600-(41102)

Recordámos alguns amigos há muito ausentes, lamentámos os que já nos deixaram, relembrámos aventuras de então, algumas bem arrojadas, mas que sempre terminaram em bem e de novo recordar um ou outro amigo que ainda vamos vendo por aí, às vezes, e coincidimos, do fundo do coração e com toda a sinceridade do mundo, que mesmo não nos vendo há 10, 15, 20, 30 ou 40 anos, os anos da nossa juventude foram marcantes e importantes na nossa formação e que mesmo ausentes a tanta distância, mantém-se e manter-se-á a amizade para sempre, pois aquilo que então se vivia era mesmo uma amizade ligada por laços de família, de sangue, mesmo sem sermos nada uns aos outros, a não ser um irmão ou irmã que sempre havia por perto, pois nenhum de nós era filhos único, no tempo ainda não se usavam.

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Coincidimos também em recordar um amigo que anda sempre por aí, igual ao que era há 40 anos atrás, quer fisicamente quer no seu modo de vida. Todos lhe reconheciam a amizade e a loucura saudável que tinha, sempre bem disposto, inteligente mas para quem a vida nunca sorriu, foi a tropa, fugiu da tropa, uma duas, três, quatro, não sei quantas vezes, tantas, que se cansaram de o vir buscar, e todos, os amigos da Casa Azul, reconhecem que poderia ter sido alguém se tivesse estudado, se a família tivesse dinheiro para o estudar, se tivesse família para além dos amigos do bairro, se…, se…, se. Continua a habitar o lado de cá do rio, o lado da veiga, agora a Madalena porque a Casa Azul há muito que morreu, mas conhece toda a cidade, percorre-a sozinho, com um olhar muitas vezes triste mas sempre pronto a dar um sorriso a quem o cumprimenta porque o conhece e, quando os amigos da Casa Azul lhe dão um bocadinho de companhia ou conforto, o seu sorriso é acompanhado de um brilho nos olhos. É o Bino, nunca lhe conheci um apelido e o Avelino, foi companheiro de almoço e deste pequeno regresso ao passado.

 

 

 

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