Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

22
Dez14

Quem conta um ponto...

avatar-1ponto

 

Três continhos para o Natal + 1 de bónus

 

1 - Estrelinha imaginária

 

Alguém saltou o muro da escola e ficou a olhar para o céu, estupefacto. Uma estrelinha imaginária começou a crescer na testa da menina. Um pouco mais atrás uma criatura alada cantarolou um cântico litúrgico. Soprava uma ligeira brisa quando a águia se lançou voraz sobre o coelho companheiro da Alice no País das Maravilhas. O Gato das Botas começou a tocar a flauta do Flautista de Hamelin e levou todos os ratos para a sua herdade. Agora engorda-os e vende-os já mortos para uma cadeia de supermercados devidamente embalados e congelados. Branca de Neve divorciou-se do Príncipe Desencantado e voltou para os seus anões. Afinal, tirando a altura, os anões são homens como os outros. Têm tudo o que é necessário e no devido sítio. Desculpem o desabafo. A menina das trancinhas de prata transformou-se em Catwoman e foi passear pelos céus de Lisboa. O Malhadinhas voltou à sua terra natal, comprou um carro desportivo e joga videogames. O Cantiflas aceitou o papel de super-homem e fez uma revolução em Cuba. Fidel Castro chorou de riso. Soprava uma ligeira brisa no Malecón quando um anjo bom levou a alma do ditador cubano para o céu. Logo de seguida, Charlie Brown anunciou ao povo cubano que era livre. Decididamente, o Snoopy anda a tomar alguma substância alucinogénia.

 

2 -Foda-se Pai Natal

Foda-se, Pai Natal, repito, e restante família. Acabaram-se os postais de Boas-Festas. Essa era já a minha vontade desde há muito tempo, mas não a podia exprimir assim tão abertamente. Eu já tenho tudo aquilo o que posso ter. Até tenho um blog. Só não tenho o que mais quero. Que são as estrelas no meu bolso para as dar à Luzia. E foi isso sempre o que eu mais quis. Dar-lhe estrelas. E também dar as estrelas e os planetas ao Vasco e ao Axel. E oferecer, desembrulhadas, as constelações mais longínquas ao meu pai e à minha mãe, que já não posso ver, mas de quem sinto imensa falta. E recompensar os cantos de trigo e os rebuçados que a minha avó me deu pondo-se no teu lugar quando a abandonaste num Natal longínquo de 1966. Foda-se Pai Natal. Desculpa Pai Natal. Eu sempre pensei que não existias, mas agora sei que existes e que és uma grande merda. Simbolicamente, claro. E isso é muito pior do que se verdadeiramente não existisses. Transformaram-te em realidade, uma dura, crua e sinistra realidade. Uma obsessão. Uma conspiração contra os sentimentos, contra a beleza, contra a fraternidade. Contra a simplicidade das sensações mais íntimas e mais puras. Tu és só presentes. Tu és só presente. E os ausentes? Hã? E os ausentes? Onde estão os ausentes? Só cintilas com dinheiro. Só sorris no meio do desperdício e da futilidade. Só ajudas os que têm. Só iludes os que não são capazes de sonhar. E os ausentes, que tanta falta me fazem, onde estão? Foda-se, Pai Natal, deixaste que te transformassem num velho de barbas branquinhas todo vestido de vermelho. E, ainda por cima, gordo. Muito gordo. E que se ri como um comentarista de rádio que dá peidos sonoros, roucos, untuosos e vernáculos. Foda-se, Pai Natal, dás pena. Apetece mesmo dar-te com o pinheirinho artificial nas trombas e depois pôr-te à geada, enrolado em luzinhas intermitentes. Sempre a piscar. Sempre a piscar. Sempre a piscar. Sempre a piscar. Sempre a piscar. Sempre a piscar. Sempre a piscar. Sempre a piscar. Sempre a piscar. Sempre a piscar. Sempre a piscar. Sempre a piscar.

 

3 - Fugir

Meia-noite e há silêncio nas ruas. A festa é só amanhã, mas eu prefiro ir-me embora já hoje. Eu não gosto de festas. São manifestações pouco adequadas à minha maneira de ser. O convívio dá-me urticária e também me provoca tonturas e espasmos maniqueístas. Nas festas, ao contrário das outras pessoas, fico irascível, mal disposto, nervoso e começam-me a piscar os olhos sem sentido. Mas é sobretudo o barulho, aquilo que mais me perturba. E não há festa sem barulho. E eu não posso com o barulho. Assusta-me. Portanto, quando há festa no meu bairro fujo para a minha aldeia e ali passo dois dias desprezíveis mas sem dores de cabeça. E isso basta-me. Lá estabilizo as minhas preocupações existenciais. Sobretudo vivo de pequenas, mas preciosas, recordações. O olhar da minha avó. O cantar da minha tia. O choro da minha irmã. O vento assobiando nos ramos das árvores. O sol iluminando a igreja. A chuva regando os campos. A sombra deslizando na tarde. O paciente correr do rio. Os animais regressando dos lameiros ou do trabalho. Os homens e as mulheres cantando enquanto regam o jericó. O lento crepitar da lareira. O subtil e paciente ferver do caldo. O cozer das batatas no pote. O estrugir do arroz de tomate na panela. O simpático bater dos vizinhos na porta da cozinha. O vinho bebido pela caneca. No fim do dia adormeço sonhando com o impossível regresso ao passado.

 

Bonús – Tudo me lembra

Tenho saudades infinitas do som da chuva quando batia no zinco da parede de minha casa em noites frias e turbulentas de Inverno. Tenho infinitas saudades desse período mágico em que aprendia a sonhar com o lento cinzelar do tempo na cara da minha avó.


Tenho ainda infinitas saudades da luz clara do amanhecer em alvoradas inundadas de neve e frio. Tenho eternas saudades de pisar a neve dos caminhos pela primeira vez.


Tudo me lembra: os sons do vento, o gemido dos gatos, o ladrar monótono dos cães, o cantar das almas do purgatório, a conversa dos gigantes do Larouco, a agitação frenética das folhas mortas dos carvalhos, o tilintar das moedas no bolso do meu pai, o fumo a sair das chaminés tristes, o chorar das crianças desalentadas, o piar dos mochos, o brilho das geadas, a lareira a arder, a agitação do vento gelado fustigando as ovelhas, as palavras repetidas das missas de domingo, as brincadeiras em torno de um banco ou em cima de uma árvore, as nuvens a fugir no céu, o brilho das estrelas cadentes, o cheiro do feno, o cantar dos grilos nas tocas, os voos noturnos das bruxas, o grito aflitivo dos dementes, o sorriso discreto das vacas, o rastejar das cobras e dos lagartos, a água a correr nas pedras do castelo, o colher do musgo para o presépio, o corte picante dos ramos de azevinho, a água a ferver nos potes, o torrar do pão ao lume, a matança do porco, a leitura de histórias nas manhãs gloriosas de domingo, o sorriso apaziguador de minha mãe, o meu pai, o meu pai, o meu pai, e as minhas irmãs, e os meus amigos.

João Madureira

 

 

22
Dez14

De regresso à cidade

1600-presepio-14 (31)

De volta à cidade mas também de volta ao Natal, com um presépio, e com ele de volta também ao imaginário de criança em que o presépio era obrigatório em todas as casas, ao lado do pinheirinho natural carregado de bolinhas, luzinhas e chocolates com formato de peixinhos, moedas, coelhos, entre outras figuras, embrulhados em prata com os respetivos desenhos, pelo menos no início era assim, pois chegado o Natal só restavam as pratas e, claro, as bolinhas e luzinhas.

 

A imagem de hoje é de um dos presépios da Casa de Santa Marta em Chaves, mais propriamente o da enfermaria, quanto ao presépio principal esse também lá está, mas o melhor, é mesmo ir lá vê-lo pessoalmente, vai ver que vale a pena.

 

Sobre mim

foto do autor

320-meokanal 895607.jpg

Pesquisar

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

 

 

Links

As minhas páginas e blogs

  •  
  • FOTOGRAFIA

  •  
  • Flavienses Ilustres

  •  
  • Animação Sociocultural

  •  
  • Cidade de Chaves

  •  
  • De interesse

  •  
  • GALEGOS

  •  
  • Imprensa

  •  
  • Aldeias de Barroso

  •  
  • Páginas e Blogs

    A

    B

    C

    D

    E

    F

    G

    H

    I

    J

    L

    M

    N

    O

    P

    Q

    R

    S

    T

    U

    V

    X

    Z

    capa-livro-p-blog blog-logo

    Comentários recentes

    • Anónimo

      Assisti a construção das aldeias de Criande e Alde...

    • Cláudia Luís

      Ola bom dia gostaria de saber a morada e o contato...

    • Amiel Bragança

      Com um Abraço votos de Santa Páscoa.Amiel Bragança

    • Anónimo

      Que bom sabermos particularidades da vida de um gr...

    • Fer.Ribeiro

      Obrigado pelo comentário. Em relação ao Chaves Ant...

    FB