Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

23
Dez14

Pedra de Toque - A Ceia

pedra de toque copy

 

A ceia

 

Só se chamava assim na consoada.

 

Na minha família prezava-se muito essa reunião, abrilhantada pelo calor da lareira e das braseiras, pelo repasto farto e pela ansiedade da gente jovem pelas prendas com que o Menino Jesus nos brindava depois da meia-noite.

 

À boa maneira transmontana, nessa noite comia-se muito e bem.

 

As mulheres passavam o dia a preparar o polvo, o bacalhau e por vezes a pescada, tudo cozido com as ótimas couves quase todas provenientes da nossa fértil veiga. Depois fritavam-se os filetes de polvo, de bacalhau e os bolos do dito, que elas confeccionavam primorosamente.

 

Por fim os doces, tais como as rabanadas, as deliciosas filhoses de jerimum e as normais, o arroz doce, a aletria e a tapioca que minha mãe não dispensava.

 

A refeição bem regada pelos adultos, terminava no pão-de-ló e no bolo rei acompanhados pelo doce vinho do Porto.

 

Na nossa mesa éramos muitos todos os anos e chegamos a ser mais de vinte quando uma tia e família vinham do Brasil passar a quadra.

 

O meu avô materno (já não conheci o paterno…) era o patriarca que comandava as operações dando início à comezaina das iguarias sabiamente preparadas sobretudo por minha mãe, cozinheira exímia.

 

A boa disposição reinava.

 

Contavam-se estórias, cantarolava-se e enquanto os mais velhos jogavam a bisca e a sueca os mais novo entretinham-se à volta do rapa tentando ganhar pinhões. Era o jogo do tira, rapa, põe ou deixa que eu vou tentar ensinar aos meus netos (se conseguir desencantar um rapa) porque era um passatempo engraçado que entretinha a miudagem.

 

Quando o repasto se aproximava do fim, a criançada ficava irrequieta com a chegada esperada do Menino Jesus que acompanhado de anjinhos descia as chaminés a altas horas da noite, para colocar as prendas no sapatinho.

 

O sono tardava a aparecer mas ao raiar da manhã as crianças saltavam da cama em busca dos presentes encomendados que lá estavam coloridamente embrulhados no sapato, junto à chaminé.

 

Vou fazer um curto parenteses para vos contar uma estória mágica e verdadeira.

 

Tinha eu uns 6/7 anos e ainda dormia com a minha saudosa avó.

 

Às 2 ou 3 da manhã de um dia de Natal, fui acordado de sopetão por ela que me disse que ouvira o barulho do Menino Jesus que, no momento, deveria estar a pôr-me a prenda no sapatinho.

 

Saltei da cama, corri para a cozinha, ouvi um barulho já pouco nítido e vi, claramente visto, uma réstia do pequeno vulto, subindo a chaminé!

 

Juro-vos que durante muitos, muitos anos acreditei piamente que tinha “ouvido e visto” nessa noite fascinante de um Natal inesquecível, o belo Menino.

 

Foi o primeiro e único milagre em que acreditei.

 

 

Já adolescente o fim da ceia de consoada terminava nas Caldas bebendo um pouco da milagrosa água bicarbonatada, que ajudava a digerir a jantarada.

 

Depois corríamos para o Largo do Pelourinho, junto à Matriz, para assistirmos ao Santo Sacrifício da entrada e saída da missa do Galo, o que nos dava a oportunidade de uma troca de olhares com o nosso primeiro amor.

 

A neblina e o frio arrefeciam o nariz e acicatavam as frieiras.

 

Recolhíamos então a penates, levando connosco o sorriso tímido da nossa amada e ansiando pelo próximo Natal.

 

António Roque

 

Sobre mim

foto do autor

320-meokanal 895607.jpg

Pesquisar

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

 

 

Links

As minhas páginas e blogs

  •  
  • FOTOGRAFIA

  •  
  • Flavienses Ilustres

  •  
  • Animação Sociocultural

  •  
  • Cidade de Chaves

  •  
  • De interesse

  •  
  • GALEGOS

  •  
  • Imprensa

  •  
  • Aldeias de Barroso

  •  
  • Páginas e Blogs

    A

    B

    C

    D

    E

    F

    G

    H

    I

    J

    L

    M

    N

    O

    P

    Q

    R

    S

    T

    U

    V

    X

    Z

    capa-livro-p-blog blog-logo

    Comentários recentes

    • Anónimo

      Assisti a construção das aldeias de Criande e Alde...

    • Cláudia Luís

      Ola bom dia gostaria de saber a morada e o contato...

    • Amiel Bragança

      Com um Abraço votos de Santa Páscoa.Amiel Bragança

    • Anónimo

      Que bom sabermos particularidades da vida de um gr...

    • Fer.Ribeiro

      Obrigado pelo comentário. Em relação ao Chaves Ant...

    FB