O S.Sebastião do Couto de Dornelas e Alturas do Barroso - 1

Ora vamos lá até ao S.Sebastião, hoje o do Couto de Dornelas, pois não é a única povoação que celebra o 20 de janeiro com uma festa comunitária.
Então para apanhar tudo desta festa convém ir cedo. Para mim se chegar lá por volta das 8h30 ou 9 horas, já está bem, pois ainda se apanham as ruas despidas de gente e podemos apreciar a verdadeira dimensão da mesinha de S.Sebastião ao longo da rua principal da aldeia.

De seguida há a visita obrigatória aos potes e ao pão. A entrada para a zona de trabalho, onde durante toda a noite os potes cozinharam o manjar a servir, não é de visita livre, e compreende-se, pois só incomodam quem trabalha, mas depois de negociar a reportagem com o “porteiro”, a porta abre-se. Claro que depois de tanta foto ao pão e aos potes, o “porteiro” acha por bem que também deve sair em uma e, como o prometido é devido, cá fica ela.

Os potes são muitos, pão ainda mais, mas a gente é tanta que não há outro remédio e depois há que precaver, pois mais vale sobrar do que faltar.

Depois há que esperar pela missa. É tempo de dar uma voltinha pela aldeia, e assistir à chegada dos peregrinos. Uns mais carregados que outros, mais ou menos abrigados, vão marcando lugar à mesa e enchendo a rua principal da aldeia.

Neste tempo livre uma ou mais passagens pelo largo do Cruzeiro são sempre obrigatórias, mesmo porque é por ele que se vai até à igreja, quer se vá a missa ou não.

Entretanto poucas são as ombreiras das portas que ficam livres. Abrigam um pouco do ar de neve e parecendo que não dão sempre um certo descanso ao corpo para além de ser um sítio sempre privilegiado para ver quem passa.

À missa nem todos vão e ainda bem, pois embora a igreja até nem seja das mais pequenas, seria impossível comportar todos os peregrinos, mas há sempre os mais devotos que mesmo que não tenham lugar dentro, ficam à porta ou no adro.

Terminada a missa há que seguir a cruz, o S.Sebastião e o Padre que partem em procissão até à bênção do pão.

Acabada a bênção a cruz e o Padre regressam à igreja mas o S.Sebastião fica. Juntam-se a ele o homem das esmolas, o homem da vara (medida) e os homens das toalhas de linho e começando a desenrolar-se estas em cima da mesa, logo vai a vara medir onde cairá um pão, um caçoilo de arroz e um pedaço de carne , com vossa licença, de porco.

Logo de seguida aí vai mais uma vara para medir onde cairá outro pão, mais um caçoilo de arroz e um pedaço de carne , com vossa licença, também de porco. E assim sucessivamente durante umas centenas de metros quase mil, entre as esmolas que vão caindo na cestinha e o beijar o S.Sebastião.

Passada a procissão da distribuição do comer, há que lançar a mão à navalha, cortar o pão e a carne e bora lá, há que comer, pois o frio e a espera já se tinham encarregue de abrir o apetite e a barriguinha já agradece.

Comida do pote e pão do forno a lenha. A comida não tem pela certa a apresentação ou os enfeites de “la fine cuisine”, então o arroz… mas garanto-vos que é uma iguaria, um autêntico manjar dos deuses.

Se alguém duvidar das minhas palavras que vá lá, este ano já não vai a tempo mas para o ano há mais, ou então perguntem a quem lá foi ou tem promessa de lá ir, mas já se sabe que por mais deliciosas que as palavras sejam, vão-lhe faltar sempre o sabor, o momento, a companhia.

E merenda comida companhia desfeita, mas em festa, sempre em festa, pois embora pareça que a festa acabou e que o S.Sebastião regressou ao seu altar, é pura ilusão. Em Couto de Dornelas é um até para o ano que vem, mas uns quilómetros mais à frente e uns bons metros mais acima, há mais S.Sebastião, mais festa comunitária, mais manjar, é para lá que ruma agora a procissão de peregrinos, mas essa fica para amanhã, hoje o tempo de antena deste blog vai inteirinho para o Couto de Dornelas, sito no concelho de Boticas, em Barroso, Terra Fria de Trás-os-Montes, apenas um cantinho deste Reino Maravilhoso.

Ah!, já ia esquecendo a promessa feita às meninas da Universidade Sénior, aquelas que também queriam sair na televisão. Pois embora por aqui a imagem seja estática não é tão efémera como na TV, e cá ficam.
E quanto ao S.Sebastião do Couto de Dornelas fica um – até para o ano!





