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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

05
Abr15

Pedra de Toque - O Folar


pedra de toque copy

 

O Folar

 

 

                  Na altura da Páscoa era manjar em todas as moradias de Chaves e do Concelho.

                  Também penso que se fazia nas vilas vizinhas mas, sem falsa modéstia, sublinho que o folar da minha cidade era o mais apreciado.

                  A minha mãe, todos os anos, nesta época, não esquecia de confecionar os folares para nós e familiares, bem como para amigos que residiam fora.

                  A massa muito batida na velha masseira (trabalho braçal muito cansativo), ficava deveras macia e fofa.

                  O recheio compunha-se de carnes várias como presunto, entremeada e de boa linguiça e de delicioso salpicão, fumeiro caseirinho, recheio de deuses.

                  Com o decorrer dos anos e as forças a faltarem, minha mãe socorria-se da velha amiga e ainda parente Almerinda, também já falecida, natural de Loivos, terra do meu avô paterno, mas aqui moradora, igualmente exímia na feitura dos folares.

                  O meu pai adorava folar sem ovos, de que me habituei também a gostar e ainda hoje é o meu preferido.

                  Minha mãe incumbia-se sempre de ser ela a fazer essa bola, um folar igual aos outros só que sem ovos, para o marido.

                  Atafulhava-o das tradicionais carnes, a que acrescentava por vezes coelho estufado que lhe dava um sabor muito especial.

                  Juro-vos que era um petisco delicioso que ainda procuro descobrir nos tempos que correm, mas que já não encontro com a qualidade com que saía das mãos fadadas da minha saudosa e querida mãe.

                  Este dito folar sem ovos, como referíamos lá em casa, os que dele mais gostávamos, não era tão forte e, necessariamente, empanturrava um pouco menos.

                  Os homens por norma, comiam o folar acompanhado de vinho ou cerveja e as senhoras e a miudagem optavam por café ou chá onde, por vezes, o molhavam.

                  Quando os folares se faziam a azáfama nas casas era grande porque era necessário não só bater a massa, como partir cuidadosamente todas as carnes.

                  E a “canseira” só terminava quando as empregadas os levavam em tabuleiros na cabeça para os fornos que existiam cá na terra.

                  Registo com agrado que a tradição se mantém já que, em tempos de Páscoa, o folar continua a ser petisco de que não se prescinde à mesa dos Flavienses.

                  Com jubilo congratulo-me com a recente distinção de ouro, por quem de direito, para o folar de Chaves, o melhor folar salgado do nosso país.

                  Ao lembrar-me de tempos idos vou por ora deixar-vos e, enquanto como um cibo de folar, aproveito, para vos deixar votos sinceros de uma PÁSCOA FELIZ!...

 

António Roque

03
Abr15

Discursos sobre a cidade - Por António de Souza e Silva


SOUZA

 

NOTAS SOBRE A LEITURA DO «SOLDADO-SAUDADE» E À SUA MARGEM

 

I

 

Assumidamente sou de alma duriense. Temperada por gerações de «escravos da terra» - que já não têm certeza que seja sua - mas que a trataram (e ainda tratam, embora com outros meios) como um jardim e que, por isso mesmo, tudo quanto pensam e sentem sai-lhes naturalmente do coração. Os durienses têm um coração enorme. Do tamanho deste mundo.

 

Mas o Douro é Trás-os-Montes. E Trás-os-Montes sem o Douro não se completa.

 

Mas se Trás-os-Montes e esse tal Reino Maravilhoso que nos apresenta (e canta) o nosso escritor e poeta maior, Miguel Torga, ele é também, traz consigo, aquilo que é consubstancial ao próprio homem - a sua contradição.

 

Há cinquenta anos que vivemos nestas paragens norte de Trás-os-Montes. Aqui nos fizemos homem. Aqui fizemos a nossa vida. Nossa alma continua a ser a de um humilde cavador duriense.

 

Mas, Trás-os-Montes, de que tanto nos orgulhamos, e que é tão cantado e desejado pelos nossos maiores, cumpriu-se?

 

Infelizmente, creio que não!

 

Abril trouxe uma lufada não só de Liberdade como de Abertura e Desenvolvimento a este pequeno «país». O poder autárquico, nos primeiros tempos, trouxe progresso, desenvolvimento e qualidade de vida. Mas foi incapaz de evitar a «sangria» das suas gentes para o grande «oceano» das quatro paragens do mundo.

 

Os portugueses persistiram - e quantos transmontanos se contam entre eles! - num modelo de desenvolvimento que privilegia um litoral (sem qualidade de vida), onde se concentra a grande massa de votantes. Por cá, cada autarca foi transformando o território que era suposto desenvolver, como se fosse uma sua coutada. Em vez de pensarmos em Trás-os-Montes num território como um todo, cada um de nós, tendo à cabeça o «cacique» que elegemos, simplesmente olhamos para o nosso próprio umbigo, a nossa própria sombra, esquecendo-nos do território que fica ao nosso lado, e que nos é complementar para nos podermos desenvolver a uma escala que nos dê uma certa autonomia, desenvolvimento, projeção e dignidade. Dizem os técnicos, escala. No uso de uma estratégia comum. Sem competições, que apenas não só delapidam os nossos parcos recursos financeiros, como nos empobrecem cada vez mais!

 

[Imagem 1 - Mapa de Trás-os-Montes e Alto Douro].

 

Desde Bragança a Vila Real, cada concelho promove e desenvolve as mesmíssimas coisas sem qualquer visão de conjunto. Isto, para já não falar na estratégia suicida e «antropofágica» das capitais de distrito, que tudo querem à custa dos outros concelhos que são a razão da sua artificial existência. Porque se circunscreve a razões de índole puramente administrativas. Tão só. Temos uma mentalidade pequena. Somos muito pequeninos, incapazes de ver um pouco mais além. É, naturalmente, uma questão cultural. Advinda de um individualismo que chega a atingir as malhas do patológico: só o que é nosso, da nossa terra é que é bom; o resto, não presta! Quando, afinal, só nos completamos com o outro, a outra nossa metade!

 

II

 

Mas não era disto que hoje queríamos falar. Foi o folar, os pastéis, o fumeiro, os sabores (da terra e dos céus) que me trouxeram até aqui, quando simplesmente queriamos falar da alma e da vida transmontana (duriense), plasmada na escrita dos nossos maiores. Dos nossos contistas. Que os temos do melhor que há. Desde Domingos Monteiro, João Pina de Morais, João de Araújo Correia e Miguel Torga.

 

Na comemoração do Centenário da Grande Guerra, ao tentar conhecer a participação dos portugueses no conflito, em especial dos militares do RI 19 e do Alto Tâmega, fui ao encontro de duas obras de Pina de Morais, natural de Valdigem, Lamego: Ao Parapeito e Soldado-Saudade.

 

Não peço ao leitor (a) que conheça a fundo e se especialize sobre o que foi este conflito. Tão-somente que o conheça, conhecendo um pouco do que foi a história dos seus antanhos. E que comece pela pena e alma de um antigo combatente, que foi Pina de Morais. Tomando conta dos «horrores» da guerra e «vibre», como ser humano, ao ler cada capítulo deste extraordinário testemunho que ó o Soldado-Saudade.

 

Deixamos aqui ligeiras impressões suscitadas pela leitura dos seus capítulos.

 

Lendo os nossos melhores contistas, sinto-me, cada vez mais, duriense, mais transmontano, mais português, apesar de saber e (re)conhecer que, hoje em dia, a nossa pátria é o Mundo. Mundo esse que, para o ser verdadeiramente, humano, naturalmente, se constrói no meio e com as diversas diferenças, entre as quais a da alma portuguesa cuja essência é a sua constante diáspora.

 

Mas, contemos o que vertemos em escrita logo após a leitura do Soldado-Saudade:

 

III

 

Soldado-Saudade, de João Pina de Morais, misto de memórias e diário, tão a jeito do grande contista duriense e transmontano, relata-nos cenas vividas por um tenente, militar de profissão, na Grande Guerra.

 

A sua leitura, na qual se descobre, com grande pendor, um homem que escolheu a guerra como cenário integrante da sua profissão, toca-nos pela humanidade prenhe, nos seus capítulos, de memórias vívidas da guerra por que passou.

 

A dedicatória que faz no livro emociona, ao dedicá-lo «às mães dos combatentes da Grande Guerra - um filho como os vossos - pede carinho da vossa lembrança».

 

Recorde-se que, quando Pina de Morais chega a casa, vindo da Flandres, sua mãe havia morrido!

 

Li-o em pouco menos de um dia. Não despeguei o olhar dele enquanto não acabei de ler a sua última palavra.

 

Idêntico entusiasmo já me tinha causado Sangue Plebeu, uma outra obra de Pina de Morais, lido há uns anos. Sangue Plebeu toca-nos pelos lugares e pessoas da nossa infância; Soldado-Saudade pela profunda humanidade que dele se respiga em tempos de guerra.

[Imagem 2 - Trincheiras França Grande Guerra.jpg

 

Expressemos algumas notas, muito sucintas, sobre os capítulos que mais nos despertaram a atenção.

 

«Cauchemar», «Maçonaria de Trincheiras», «O Capitão dosSouvenirs’», «’O Ganga’ bom soldado», «A Melhor Esmola» são capítulos onde melhor podemos observar a enorme e prodigiosa capacidade de adaptação do homem-soldado português a situações extremas de dor e sofrimento, vividas num mundo onde a morte é o cenário perene, permanente, mas assumidas com singularidade, estoicismo, coragem, com verdadeira humanidade e, não raras vezes, com bonomia e recortes de certa ironia.

 

Mas, de todos os capítulos desta magistral obra, gostaria de destacar «A Morte do Pierrot»: um dos capítulos mais emocionantes do Soldado-Saudade passado na terra-de-ninguém!

 

Em ambiente e teatro de guerra ainda há tempo para se viver com intensidade a festa da vida. A história d’«OLisboa’» e da sua belga; da somítica «Madame la Fermière» e da sua infidelidade com o oficial português são prova cabal de que nem a guerra mata a atração e o amor que os seres humanos têm uns pelos outros. Nas proximidades do cenário permanente da morte, são verdadeiros cânticos e hinos à vida.

 

Só uma alma pura transmontana é que pode dar vida e nos fazer vibrar com a linda história da «La Petite Viève» com a sua constante expressão: «Alemanes bombardent - nô bonne

 

«O Último Natal da Guerra» (1917). Não é só a verve que fala. É toda uma alma que transborda, mexendo com as mais ínfimas recordações da nossa infância. Como Pina de Morais nos faz lembrar os natais da nossa meninice, vividos nas noites frias das faldas do Marão! Que humanidade sentida em cima do parapeito, em plena guerra, num desejo universal de tréguas, sossego e paz! E que revolta, que mexe e nos remexe em todo o nosso ser como homens de paz, quando vem a ordem de bombardear um pacato e sossegado boche que, na Paz do Senhor, também quer viver a sua Ceia do Natal, dentro das condições misérrimas de toupeira, em paz e tranquilamente! E como a falta de respeito para com um dia sagrado, atiça ódios que, na volta do Ano Novo, se repercutem em lançamentos de «gás cruz amarelo e mostarda».

 

Pina de Morais ainda tem tempo para expandir os seus sentimentos quantos aos nossos «amigos e fieis aliados», os ingleses, quando nos fala da insipidez do viver britânico não comparável com o descarado, atrevido e apaixonado latino-luso.

 

«Os Médicos». Em tempo de guerra, como esta foi, não faltou o elogio sentido pelos colegas médicos combatentes, portadores de outras armas - não das que fazem a morte, mas que teimosamente lutam pela vida.

 

«O Medo». Os bravos também têm medo. E não é nenhuma vergonha confessá-lo. O medo é consubstancial ao herói. O herói tece-se no meio do medo da situação excecional. Tudo o resto é simplesmente banal!

 

«Ingleses e Americano»s. Na guerra, as culturas também contam e definem carateres. Carateres que dão conteúdo às relações entre as pessoas. Em que se discute a guerra e o modo como ela é - ou deveria ser- conduzida.

 

«Uma francesa famosa». Corações apaixonados; amores vadios e errantes e os seus ardis e artimanhas.

 

«Últimas páginas d’um diário» são as últimas palavras de um diálogo último, pressentido, de um filho perante uma mãe que, à sua chegada, já tinha morrido pelo filho na guerra!...

 

[Imagem 3 - A Guerra - Horror e Desolação].jpg

Livro a não perder. Não só porque nos relata episódios de uma guerra em que os nossos «maiores» nela estiveram implicados. Em que lhe sofreram os horrores. Em que lhes ficaram as sequelas. Que fez parte da vida deles. E também das nossas, seus filhos. Porque sempre atual. Toda ela cheia de cenas e episódios de vida, vivida intensamente. No fio da navalha em que se entretece a vida e a morte. Plena humanidade.

 

[Imagem 4 - Perce-neige  - Flor singela e virginal

 

IV

 

E, por último, lida esta obra, este trecho poético de Affonso Romano de Sant’Anna, que não nos sai da mente. E nos obriga a refletir em tempo de Páscoa - entre a Vida e a Morte - na construção de um outro Mundo - numa «Ressurreição»:

 

[...] Os homens amam a guerra

E mal suportam a paz.

 

Os homens amam a guerra,

portanto,

não há perigo de paz.

 

Os homens amam a guerra, profana

ou santa, tanto faz.

 

Os homens têm a guerra como amante,

embora esposem a paz.

 

[...] Durante séculos pensei

que a guerra fosse o desvio

e a paz a rota. Enganei-me. São paralelas

margens de um mesmo rio, a mão e a luva,

o pé e a bota. Mais que gêmeas

são xifópagas, par e impar, sorte e azar

são o ouroboro - cobra circular

eternamente a nos devorar.

[...] Acabará a espécie humana sobre a Terra?

Não. Hão-de sobrar um novo Adão e Eva

a refazer o amor, e dois irmãos:

Caim e Abel

- a reinventar a guerra.

 

António de Souza e Silva

 

02
Abr15

Discursos (emigrantes) Sobre a Cidade


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Simplicidade

 

"... Agora, tu e eu, estamos aqui e em milhões de sítios ao mesmo tempo, e este segundo que está a passar, na realidade não está a passar, ou está a passar vezes infinitas vezes, no universo... "

Clara Sanchis Mira, actriz, in jornal "La Vanguardia" a 23 de Maio de 2007

 

Não sabemos muito bem que espaço ou que função ocupamos no universo, como bem ilustra a citação acima. Até hoje, ainda ninguém conseguiu definir realmente o que é a realidade. Na nossa mente e imaginação, podemos deixar-nos levar para muitos sítios e tempos surreais, mas no sítio onde pensamos estar realmente agora, pouco ou nada nos deixamos levar.

 

Hoje, a habitar um sítio bem longe das minhas raízes, bem longe do que era a minha realidade, penso em onde me poderia deixar levar se voltasse, nem que fosse por um segundo, para ver mais uma Primavera a florescer. Sentir na pele o Sol da tarde numa esplanada ou num pedaço de relva, dar um passeio nos repousantes parques e montes do Alto Tâmega, pendurar em casa as folhas de oliveira benzidas do Domingo de Ramos, cheirar o Folar pascal acabado de sair do forno e degustá-lo, sentar-me à volta de uma mesa cheia de família e amigos, falar alto e "transmontano" sem receber olhares de estranheza... e bem mais poderia aproveitar deste Sol primaveril que parece "ressuscitar" as nossas terras e as nossas gentes.

Discursos_19.jpgAllariz, Espanha, Julho de 2010 - Fotografia de Sandra Pereira

Há, pois, que deixar-se levar, "sentir tudo de todas as maneiras" como o nosso Pessoa, e valorizar as nossas tradições que se quedam totalmente esquecidas e varidas a um canto quando se opta pela vida de emigrante, já que sem o contexto em que sempre foram vividas, elas perdem o sentido. E na nossa terra, quando a chegada da Primavera coincide com a tranquilidade da época pascal só pode ser uma dádiva divinal! A quietude, o silêncio, o Sol, a natureza, a simplicidade de tudo o que nos rodeia, um sorriso...

 

Obrigado por me permitirem este breve momento de saudosismo, pois esse é também uma das permissões dos Discursos (Emigrantes) sobre a Cidade. A rematar, no meio desta realidade irreal, não posso deixar de recorrer a uma última citação, a de Herman Hesse, como nota final, como que a lembrar que, estejamos onde estivermos, e mesmo que seja incompleta, "a única realidade é a que está dentro de nós".

 

Os meus votos de uma boa Páscoa a todos os colaboradores e leitores do Blogue Chaves!

Sandra Pereira

 

02
Abr15

Fotografia de Ana Maria Borges em exposição no Faustino


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A Lumbudus leva a efeito mais uma exposição de Fotografia na Galeria da Adega do Faustino, em Chaves.

A exposição inaugura hoje, dia 2 de abril, às 18 horas, intitula-se "A Magia do Olhar" e é de autoria de Ana Maria Borges.

convite.jpg

Para os que não tiverem oportunidade de ir à inauguração, terão todo o mês de abril para visitar a exposição, excepto aos domingos em que a Adega do Faustino encerra para descanso do pessoal.

 

 

 

02
Abr15

Desmentido do 1 de abril - As poldras do Tâmega continuam lá


DESMENTIDO DO 1 DE ABRIL

Peço desculpas aos que acreditaram piamente na minha mentira de ontem e agradeço aos que alinharam nela. Sou um dos que gosta de cumprir as tradições e nunca resisto a inventar uma mentira no dia 1 de abril, mas passado este dia há que repor a verdade.  As poldras do rio Tâmega em Chaves continuam lá, precisam de um arranjo, é certo, e já lá houve alguns acidentes, dos tais que dão mais para rir e aplaudir,  embora um, que eu recorde, se lamente, mas tanto quanto sei a culpa nem foi das poldras. Assim, fiquem descansados que continuamos a ter poldras para uns verem, para outros apreciarem , para outros fotografarem e para outros atravessarem. Eu sou um dos que desde miúdo as atravessa e nunca malhei ao rio e também sou dos que não resisto a passar por elas sem as registar em imagem, e, podem crer que todos os seus momentos são únicos. Temos então as poldras de volta ao local de onde nunca sairam. Desculpem a brincadeira.

 

Quanto ao folar e ao pastel, notícia que vinha à mistura com as poldras, aí não há nenhuma mentira, pois temos mesmo o melhor folar de Portugal (também sou testemunha disso), agora premiado e, quanto ao pastel, esse, é único e como o nosso não há nenhum além de vos garantir que continua bom e a recomendar-se.

01
Abr15

Chaves, duas notícias, uma boa e a outra nem por isso...


Hoje temos um dois em um, ou seja, num único post duas notícias sobre a vida de Chaves, uma boa e a outra nem por isso. Comecemos pela boa notícia:

 

FOLAR E PASTEL DE CHAVES PREMIADOS COM OURO

Folar o melhor de Portugal

 

Ontem a meio da manhã caía no meu mail uma nota de imprensa com a notícia, que deixo tal como chegou até mim, com a respetiva fotografia que a acompanhava. Uma boa noticia para o nosso orgulho flaviense, pois quanto ao sabermos que temos o melhor folar já há muito que o sabíamos e então do pastel, nem se fala. Mas fica a nota de imprensa.

*******************************

 

Nota de Imprensa

31 de março de 2015

 

Produtos regionais da empresa flaviense Prazeres da Terra conquistam reconhecimento nacional

 

Folar e pastel de Chaves premiados com ouro

 

O folar de Chaves da empresa Prazeres da Terra é o melhor pão da páscoa salgado de Portugal. Uma distinção a dobrar, em dois concursos nacionais, e que inclui ainda uma medalha de ouro para outra das estrelas da gastronomia da região transmontana: o pastel de chaves.

 

O folar de Chaves produzido pela Prazeres da Terra foi distinguido com duas medalhas de ouro, uma no âmbito do concurso nacional “O Melhor Folar e Pão de Ló de Portugal”, promovido pela Associação do Comércio e da Indústria de Panificação, Pastelaria e Similares (ACIP), e outra do “Concurso Nacional de Pão, Broas, Folares e Bolas Tradicionais Portuguesas”, dinamizado pelo Centro Nacional de Exposições de Santarém e pela Qualifica. Integrado neste último concurso, foi também premiado com ouro o pastel de Chaves produzido pela empesa flaviense.

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 “A excelência deste folar salgado acabou por criar um mercado que exige fornecimento durante todo o ano. Em consequência, este produto deixou de ser um fenómeno sazonal e assumiu o papel de um produto regional de reconhecida reputação e qualidade que concentra em si pormenores históricos e culturais que vale a pena identificar e proteger”, comenta Jorge Santos, o proprietário da empresa com sede e produção em Chaves e loja em Lisboa, na qual vende diversos produtos transmontanos.

 

Jorge Santos lembra ainda que o folar representa o pão tradicional da Páscoa portuguesa e é um “símbolo de partilha, solidariedade e confraternização, carregado de significado religioso. A sua ancestralidade perde-se completamente no tempo”.

 

Deste facto é exemplo um artigo publicado no “Flaviense – Semanário Republicano Independente”, de 11 de Abril de 1915, onde o autor, J. Sotto Maior, de forma um pouco burlesca, compara a antiguidade do folar ao da própria digestão.

 

“A importância económica do folar de Chaves obriga-nos a ser responsáveis no sentido da preservação da receita e dos métodos tradicionais de modo a evitar usurpações da designação folar de Chaves”, refere ainda o empresário.

 

*******************************

E agora a má notícia

 

ERA UMA VEZ… AS POLDRAS DO TÂMEGA!

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Imagem como esta já não é mais possível, pois as poldras de Chaves foram à vida.

 

Mas adiante com a história.

 

Há uns anos atrás quando um grupo de jovens tentou atravessar as poldras de noite, um deles caiu ao rio e morreu. Logo aí houve vozes que se insurgiram contra as poldras e sua utilidade, dizendo que não tinham qualquer valor histórico e que não passavam de umas pedras traiçoeiras que já tinha provocado alguns acidades. O caso no entanto ficou por aí e não mais foi falado até há um mês atrás em que duas adolescentes, numa tentativa de as atravessar, caíram ao rio e tiveram de ser socorridas por populares que estavam nas proximidades. As adolescentes em estado de hipotermia acabaram de ser socorridas pelo 112 e por ingressar no hospital. Felizmente saíram passadas umas horas sem qualquer mazela, ficou o susto.

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 Imagem de arquivo - As poldras para memória futura

 Mas este não foi o primeiro acidente que aconteceu este ano, pelo menos tive conhecimento de mais três ou quatro pessoas que caíram ao rio no mesmo local onde as adolescentes caíram. Acontece que as poldras não estão completas, a meio do percurso uma das poldras já há uns bons meses atrás que tombou com a corrente da água. O facto é que atravessar as poldras com essa falha é uma verdadeira aventura e se muitos há que ousam e as conseguem atravessar, outros não têm a mesma sorte, e se os que têm lá caído, malharam ao rio, até tem provocado risadas e aplausos em quem os vê cair, já o caso das adolescentes foi preocupante, tanto mais que é o prato do dia ver adolescentes e mesmo crianças a tentar atravessá-las. E tudo correria bem se as poldras estivessem completas e bem fixas.

 

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Rio Tâmega - Desde ontem é assim...

Claro que à vozes da desgraça vieram de novo à baila e a solução foi drástica – Retirem-se as poldras, acabem-se com elas duma vez. Alias tem sido esta a solução da Câmara Municipal para calar as vozes do diz-que-diz, tal como aconteceu com a estatueta do jardim Maria Rita – Aí que qualquer dia roubam-na, ai isto, ai aquilo… - Solução: Retire-se a estatueta. O mesmo aconteceu com os aloquetes do amor da Ponte Romana – Ai que qualquer dia a ponte cai com o peso… ai que aquilo é um insulto à história, ai isto e aquilo – Ai é, então cortem os aloquetes e la foram eles à vida. Enfim, mas as poldras são outra coisa e outras soluções bem aceitáveis havia, como por exemplo, bastava isso, retirar as cinco ou seis primeiras poldras de cada margem, criando assim um vazio entre as margens e as poldras. Mas não – abatam-se, e ontem em poucas horas foram abatidas e, eram uma vez umas poldras.

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Imagem de arquivo -  As poses podem continuar, mas sem poldras

 

Ainda houve que se insurgisse contra e chamasse a história baila, mas a Câmara Municipal estava munida dos pareceres dos técnicos, de alguns historiadores locais (os mesmos que defendiam o trânsito na ponte romana) e do IGSPAR , todos em coro a dizer que as poldras não tinham valor histórico nem qualquer interesse que justificasse a sua continuidade. Houve ainda que acrescentasse que não passavam de um monte de pedras mal amanhadas que há muito deveriam ter sido retiradas.

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 Desde onte que falta qualquer coisa... Adeus poldras!

 

Quer se concorde ou não, o facto é que as poldras foram à vida e de pouco interessa o significado e mesmo interesse HISTÓRICO, mesmo que os outros digam que não, pois fazem parte do passado de Chaves e eram uma imagem de marca do nosso Rio Tâmega, com todo o romantismo bem patente em dezenas ou centenas de fotografias que circulam na NET e nas redes sociais. Mas em Chaves, pelos vistos, não há espaço para romantismos e muito menos para o passado. Aconteceu o mesmo com as Freiras e pela certa que vai continuar a acontecer, mas ao nosso bom povinho também lhes é bem-feito, pois toda a gente assiste as estas coisas e ninguém diz nada e depois, claro, quem vence são os do costume, aqueles que por não terem nada que fazer se dedicam a levar recados à santa casa, os mesmo que tal como diz o povo, facilmente – emprenham pelos ouvidos – e fazem emprenhar os outros, os que acreditam neles.

1600-(25397)

Um requíem pelas poldras!

Chaves sem as poldras ficou mais pobre. Valha-nos o folar e o pastel.

 

Até amanhã!

 

 

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