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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

08
Mai15

Discursos sobre a cidade - Por António de Souza e Silva


SOUZA

 

MORTOS, A PÉ!

 

 

Vejo Portugal como uma formosa e doce donzela camponesa que,

de costas para a Europa, sentada à beira-mar, com os pés descalços

dentro da água e banhados pela espuma das chorosas ondas,

com os cotovelos fincados nos joelhos e o rosto entre as mãos,

contempla o sol morrendo nas águas infinitas.

Porque, para Portugal, o sol nunca nasce: sempre morre no mar,

que foi palco das suas façanhas, berço e sepultura das suas glórias.

 

Miguel de Unamuno

 

 

Sabemos do apreço que Adolfo Rocha tinha por duas figuras de proa da Ibéria: Miguel de Unamuno e Miguel de Cervantes. Nestes autores, Adolfo Rocha sentia o pulsar de uma Ibéria que, embriagada pelo mar, se esqueceu do árido terrunho donde partiu, feito de terra seca e calhaus, onde, entre outras, medra a torga.

 

Foi neste diálogo, de homens com a natureza donde provinham, que nasceu Miguel Torga. O Torga inteiro. O dos Diários, dos Contos, de Portugal, do Senhor Ventura, de A Vindima, enfim, o dos Poemas Ibéricos. O Torga que preferia o Sancho Pança ao D. Quixote. O Torga que preferia o arado ao mar das quimeras para onde nos levaram as caravelas. O Torga da rudeza das penedias transformadas em Reino Maravilhoso. O Torga áspero, tal como a natureza que o viu nascer, tão exigente consigo próprio, mas cuja sua obra representa uma das chaves para nos encontrarmos como povo tão singular que somos, e tal como a História nos fez. Em suma, um Torga tão atual! A exigir revisitação de leitura. Diríamos mais - de reflexão.

 

Um Torga que é da galáxia de Gutenberg. Cujos seus livros, por si editados, de autor, saiam de suas mão como se fossem seus filhos, sempre atento e insatisfeito, à procura da mais ínfima das imperfeições. Rude, simples, exigente consigo próprio, nunca esquecendo o berço que o viu nascer e onde hoje repousa, a sua obra representa, para todos nós, um apontar do caminho para os presentes e os nossos vindouros. Não morre. Porque é o homem português que fala! É prenhe de sonhos. Tem utopias. Mas não esquece de pensar Portugal e os portugueses com os pés bem assentes no chão.

 

Sem desprimor por todos os homens da cultura portuguesa, gostaríamos de apresentar três, que representam as três facetas, entre outras, do Portugal de fomos e, porventura, ainda, em muitos aspetos, somos: Camões, o que canta e imortaliza o Portugal da epopeia marítima, das glórias passadas, sulcando mares à procura de outras paragens e terras, de tão apertados que nos sentíamos na estreita faixa que nos coubera conquistar; Pessoa, o sonhador de outros impérios, reduzidos que foram a cinzas os que houvéramos conquistado e, finalmente, Torga, apelando à realização e cumprimento de Portugal na estreita faixa que nos foi dada como herança histórica. Cumprir Portugal com trabalho, tenacidade, inteligência, paciência, perseverança. Apelando à preservação da nossa verdadeira identidade, à nossa autenticidade, àquilo que nos faz verdadeiramente «castiços» num mundo tão, e cada vez mais, complexo, e a tender para a homogeneidade.

 

Exige-se um clima de séria reflexão. Da nossa História. Daquilo que queremos, visionamos para o nosso futuro.

 

Mas os tempos por que passamos não são muito dados a reflexão. Saídos da galáxia de Gutenberg e imersos na «rede», tudo nos aparece tão fugaz e passageiro. Agora a imagem é tudo, dizem-nos. E até vale mais que mil palavras! Mesmo que mil palavras não signifiquem ou digam rigorosamente nada, apenas, e tão só, existindo, ou se exibindo, para nosso deleite ou afago do nosso exaltado ego, totalmente transformado em narciso puro.

 

Tudo gira a uma velocidade vertiginosa. O que conta é apenas o mundo do efémero. Do contingente. Do aqui e agora. E, como a sociedade é complexa e o futuro se nos apresenta incerto, não cuidamos de o enfrentar, de o perspetivar, de construir cenários. Vamos na onda... A maioria de nós, que não todos. Porque há os que não «dormem» e tudo dominam. Numa sociedade cada vez mais desigual, com uma injusta e brutal distribuição da riqueza, com cada vez mais pobres, e sem equanimidade no trato de todos os cidadãos. Em que a maioria dos media, e os ditos «fazedores de opinião», trabalha e tudo faz para nos sugerir que não há alternativas. E, alienados pela «rede», não passamos de meros robots ao serviço de certos poderes, que bem sabemos que existem, mas que tudo fazem para se «esconderem», sugerindo que tudo e tão natural, perfeitamente normal!

 

Mas como ir à procura do Portugal, verdadeiramente português, quando todas as forças nos puxam em sentido contrário?

 

Já em julho de 1908, Miguel Unamuno, na sua obra Por terras de Portugal e Espanha, em Espinho, escrevia, citando Teófilo Braga: “«Não se encontram ideias... a não ser a que esses homens beberam nos livros franceses [hoje a vulgata é outra!] mais vulgares e triviais»” Mais adiante, o mesmo Unamuno afirma que os portugueses, tal como os galegos, são homens duros, resistentes, sofridos. São bons seres vivos, com a robusta vitalidade de plantas. Submissos até ao momento em que se revoltam. Mas este sentimento inato de rebeldia não se deve confundir com o de independência. Os portugueses, tal como os galegos, são rebeldes, mas não independentes. E quão atuais as palavras de Unamuno, como de Oliveira Martins, passados que são mais de 100 anos: “Aqui, como na Galiza, pode florescer o anarquismo, mas não o sentimento de liberdade. E a anarquia é servidão. Ao terminar o seu doloroso e triste Portugal Contemporâneo, Oliveira Martins, depois de pintar o estado das classes dirigentes, acrescenta: «E até hoje força é dizer que o povo não descobriu ainda meio de se libertar delas», e conclui, dizendo: «Nem descobriu meio, nem demonstrou a vontade. Dorme e sonha? Ser-lhe-á dado acordar ainda a tempo»?”.

 

E chegados aqui, não me saem da cabeça as palavras de João da Ega, d’«Os Maias», de Eça de Queiroz: “Chamam por ai, em botequins e livros, ‘que o país é uma choldra’. Mas que diabo! Porque não trabalhamos para o refundir, o refazer ao nosso gosto e pelo molde perfeito das nossas ideias?... Vossa excelência não conhece este país, minha senhora. É admirável! É uma pouca de cera inerte de primeira qualidade. A questão está em quem a trabalha. Até aqui a cera tem estado em mãos brutas, banais, toscas, reles, rotineiras... É necessário pô-la em mãos de artistas, nas nossas. Vamos fazer disto um bijou!”.

 

Na verdade, só quando cada português tomar nas suas mãos o seu próprio destino é que Portugal se cumprirá! E sairá, como em 1908 Unamuno dizia, na sua obra referida, do purgatório de águas traiçoeiras, das vãs glórias que lhe deram eternidade na história mas cujo “mar o devorou, o mar o lançou

No gosto de cobiça e na rudeza

De uma austera, apagada e vil tristeza. [...]

Apagada e vil tristeza! É isto o que aqui se vê hoje. E ao vê-lo, ocorre-nos pensar se as almas serão as que descansam debaixo da terra, nas igrejas ou junto delas, e no seio do mar, ou não serão antes as que habitam os corpos das que vemos por aqui a labutar, buscando o pão de cada dia. Portugal é hoje um Purgatório povoado de almas».

 

No período em que comemoramos os 100 anos da Grande Guerra, ocorre-nos citar as palavras de um político republicano, ilustre flaviense, que foi Presidente do Conselho de Ministros na I República, barbaramente assassinado naquela «noite sangrenta», e antigo combatente da Grande Guerra, na Flandres. No final da sua obra, de memórias, A Grande Aventura, António Granjo diz: “Conta-se de um oficial francês que, tendo ficado feridos ou mortos sob um bombardeamento quase todos os seus homens, e tendo os poucos ilesos procurado na fuga um refúgio ao furacão, ao ver a primeira vaga inimiga lançar-se ao assalto, trepara ao parapeito, e, na transfiguração épica que dão as grandes horas, comandara:

 

- Mortos, a pé!

 

E os feridos levantaram-se, as metralhadoras começaram a crepitar e o assalto foi repelido.

 

Parece haver muitos portugueses que trazem dentro de si os corações mortos. A nossa vida parece estar só nos nossos olhos para nos odiarmos, e nos lábios para nos caluniarmos.

 

Aos homens que na África e na Flandres afrontaram a morte compete saltar do parapeito e gritar a esses corações:

 

- Mortos, a pé!”.

 

Para, deste pequeno recanto onde vivemos, que foi palco de tantas glórias passadas que ajudou a erguer o Portugal que somos, sem chicana, quezílias e mediocridades, e munidos de uma séria visão para o futuro que queremos, a partir da nossa cidade e do nosso concelho, possamos cumprir Portugal. Porque é aqui que tudo começa - do lugar onde vivemos. Construindo, cada um, o Portugal vindouro com as nossas próprias mãos!

António de Souza e Silva

 

 

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