Intermitências

A vida de Carmen
Hoje, Carmen cumpre 50 anos. Reconhece que nunca lhe faltou nada para ser feliz. Teve saúde, teve dinheiro o quanto bastasse para ter uma vida confortável, conheceu vários "cantos" bonitos deste mundo, teve uma família que a amou e um grande amor. Teve também consciência suficiente para conseguir viver em paz consigo mesma.
Hoje, Carmen cumpre 50 anos e, por vezes, passa na rua pelos vizinhos e baixa a cabeça. Que mulher estranha, pensam eles, pois ela tantas vezes ri e fala alto com eles na escadaria do prédio, ela bate à porta deles para lhes oferecer ajuda, ela trata dos assuntos comunitários e do condomínio, ela recebe todos os recados e encomendas quando eles vão trabalhar. Talvez seja um pouco louca, pensam eles, melhor deixá-la na sua loucura e aproveitar a sua bondade...
Hoje, Carmen cumpre 50 anos e veste-se de negro. Que mulher estranha, pensam os vizinhos, pois ela não é viúva nem nunca casou. Quantas vezes lhe disseram para frequentar bailaricos e eventos sociais para ver se deixava de estar tão só, mas ela nunca aceitou, pois sempre acreditou que "a pior solidão é a da falsa companhia". Talvez seja um pouco "encalhada", pensam eles, melhor deixá-la na sua solidão e aproveitar a sua bondade...
Hoje, Carmen cumpre 50 anos, está magra e fuma muito. Que mulher estranha, pensam os vizinhos, como é que ela não percebe que o cheiro a tabaco na escadaria do prédio incomoda toda a gente e ninguém consegue conversar perto dela por não conseguir aguentar o seu mau hálito, pensam eles, enquanto pegam no carro todos os dias para ir trabalhar e não percebem que incomodam toda a gente ao poluir o ar da cidade, que tem um cheiro cada vez mais insuportável. Talvez seja um pouco inconveniente, pensam eles, melhor deixá-la "matar-se aos poucos" e aproveitar a sua bondade...
East Side Gallery, Berlim, Alemanha, Abril 2015 - Fotografia de Sandra Pereira
Hoje, Carmen cumpre 50 anos, ainda ri, mas não vive. Reconhece que nunca lhe faltou nada para ser feliz na vida, apenas a presença dos que mais amou. A mãe morreu-lhe aos 18 anos e o amor da sua vida, com quem passou os seus anos mais felizes na Itália, morreu-lhe aos 28 anos. Em toda a vida que se seguiu a esse trágico acontecimento, muitas vezes repetiu que só se casaria se encontrasse alguém que amasse tanto como o italiano. Nunca encontrou.
Hoje, Carmen cumpre 50 anos, não vive, mas agradece o que teve. Sem mãe, nem companheiro, foi a razão de viver do seu irmão, que ficou gravemente doente. Junto com o seu cão e gato, o seu irmão também foi a razão do seu viver. Morreram-lhe todos aos 48 anos. Em todo o tempo que se segue a esse trágico acontecimento, ela repete que a vida acabou para ela, mas só fica na Terra porque acredita em Deus, mesmo não entendendo porque Ele sempre lhe deu tudo e apenas lhe tirou o mais importante.
Hoje, Carmen cumpre 50 anos. Se alguém tivesse o condão de devolver-lhe a juventude dos 25 anos, ela aceitaria. Não para ter menos rugas, para voltar a ser bonita ou reviver momentos felizes. Apenas "para voltar a ter ilusões..."
Hoje, Carmen cumpre 50 anos e não é uma mulher convencional. Na vida, teve duas opções de escolha: o Amor ou o Medo. Ela sempre escolheu o Amor, ainda que fugaz e duro, e nunca teve Medo de assumir as suas próprias escolhas e a sua liberdade de pensar. E se os vizinhos escolhessem também o Amor?
Sandra Pereira




