Quem conta um ponto...

249 - Pérolas e diamantes: a ver vamos
Sobretudo nos tempos de crise como os que estamos a viver, tanto em Portugal como na Europa, temos de concordar com Miguel Esteves Cardoso de que para se ser feliz é necessário ser-se um bocado parvo.
E depois existem aqueles que, afirmando-se daquela esquerda defensora das minorias e de tudo o que é exótico, pouco mais são do que estúpidos, chegando a insinuar que Laura Ferreira, a esposa do primeiro-ministro, se deixou fotografar numa visita oficial sem peruca ou lenço, para esconder os efeitos da quimioterapia a que tem sido sujeita, para ajudar o marido a ganhar votos.
Parece no mínimo bizarro que os profetas da igualdade e da fraternidade apenas vejam aproveitamento político numa atitude que tem tudo de corajoso e frontal.
Mas avancemos, que é para isso que aqui estamos. António Costa já apresentou os nomes que escolheu para liderar os 22 círculos eleitorais nas eleições legislativas de outubro. A renovação é quase total. Repete apenas um, José António Vieira da Silva que lidera novamente a lista por Santarém. Existem também alguns regressos, nomeadamente Ascenso Simões, por Vila Real. Mas a maior surpresa tem a ver com a inclusão do cientista Alexandre Quintanilha, um independente, a liderar a lista no Porto.
Falta saber se esta estratégia tem a ver com mudar alguma coisa para que tudo fique na mesma, se é mais uma renovação na continuidade, ou se é indício de que algo se está a alterar na abertura e na postura dos políticos mais tradicionais. Pois tradicionais são todos. Só que existem políticos que são mais tradicionais do que outros. A ver vamos, como diz o cego.
E por falar em políticos tradicionais…
Pelos vistos, José Sócrates muito dificilmente escapará a uma acusação séria e fundamentada de, pelo menos, fraude fiscal e branqueamento de capitais, pois os fluxos financeiros são de tal ordem e cadência que conferem grande confiança à acusação. Isto para não falar que tanto dinheiro a transitar de conta em conta é moral e politicamente inexplicável.
Mas como se a lista de suspeitos fosse pequena, eis que o antigo ministro do último governo de António Guterres, e amigo próximo de José Sócrates, Armando Vara, foi detido por suspeitas de corrupção, fraude fiscal e branqueamento de capitais, alegadamente por atos praticados quando era administrador da Caixa Geral de Depósitos. Isto a juntar a uma pena de prisão de cinco anos, que, depois de recurso, aguarda a respetiva apreciação.
Estes são o mesmo tipo de crimes imputados ao ex-primeiro-ministro, ao empresário Carlos Santos Silva e a um dos donos do Grupo Lena, Joaquim Barroca Rodrigues.
Cada vez é mais clara a tese da acusação de que existiu uma teia de cumplicidades, tráfico de influências e fluxos de dinheiro entre vários indivíduos durante a vigência do último governo do PS, liderado por Sócrates.
Armando Vara teve a seu cargo o pelouro das participações financeiras da CGD em empresas do setor privado.
Segundo o Expresso, em 2006 teve um papel importante na viabilização do negócio de compra do maior resort de luxo em Portugal, envolvendo vários nomes sonantes da alta finança nacional.
O insólito do contrato está no facto da CGD ter entrado com 25% no capital da empresa, decisão acompanhada por um empréstimo de 200 milhões de euros do banco público para que os restantes acionistas pudessem ter dinheiro para comprar o resort.
O Ministério Público suspeita, aparentemente, que o grupo de acionistas poderá ter sido beneficiado com o papel desenvolvido por Armando Vara na participação da CGD no negócio.
Negócio que se revelou ruinoso, com dívidas acumuladas ao banco de mais de 360 milhões de euros, em 2014.
Para o MP, tal benesse terá tido como contrapartida seis transferências bancárias no valor global de 12 milhões de euros, feitas por um dos beneficiados, entre 2008 e 2009, para uma conta na Suíça em nome de Joaquim Barroca, o tal dono do Grupo Lena, e daí ter transitado para outra conta, a do amigo de José Sócrates, Carlos Santos Silva, que os procuradores alegam ter funcionado ao longo de anos como testa de ferro do ex-primeiro-ministro.
E hoje termino com o desabafo repleto de sentido de um dentista grego: “Um povo que deixou de sorrir não tem muitas razões para arranjar os dentes.”
João Madureira



