De regresso à Cidade

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Hoje as portas do blog abrem-se para Sesmil, umas das aldeias da periferia da cidade de Chaves, nas faldas da Serra do Brunheiro mas que mais parece uma das aldeias do planalto da serra, isto a julgar pela sua ruralidade e por começar a sofrer também dos seus males – despovoamento e envelhecimento da população.

Até já, com o regresso à cidade.

NUMA NOITE DE VERÃO
O calor lembrava-me a brisa que vinha de ti.
Sentia, descendo do Peto, a caminho da cidade, no vale plantada.
A frescura da noite fazia esquecer a desafinação da fadista que na telefonia soava.
O horizonte era um festival feérico de pequenas luzes que iluminavam a cidade linda e, de raios anunciando a trovoada estival ainda distante.

Ela seguia feliz a meu lado, sorria com o momento e o seu sorriso engrandecia-o.
Parcos em palavras, gastas e desnecessárias, bastamo-nos com o deslizar lento pela estrada que ao fundo nos recebia, abraçada ao Tâmega.
Mais longe, altaneira, a Torre de Menagem, pedaço de antigas eras, dava-nos as boas vindas.
À beira rio fomos à procura das caldas, respeitando a tradição.
Impunha-se bebermos um copo da água miraculosa que dá saúde e tem virtude.

Mas também para que o magnetismo (conta a lenda…) prendesse a forasteira à nobre cidade, terra de encanto.
A brisa que aspirávamos e a beleza da noite assim o exigiam.
Despedimo-nos com aquela tristeza que magoa.
Eu na minha cidade, terra de Flávio.
A amiga partiu entretanto com a certeza de que voltaria porque o feitiço iria funcionar.
Passaram muitos anos!...
E o feitiço funcionou.
António Roque

Hoje há apenas oportunidade para duas imagens.


Viva o Verão!
Tenho a impressão de que é nesta época que mais entusiasmo sentimos pelos assuntos coletivos. Dispomo-nos a passear nas ruas da cidade, dispomo-nos a conversar com grupos de amigos e conhecidos durante horas, dispomo-nos a integrar comissões de festas, a organizar churrascos para familiares e amigos, a integrar multidões em romarias e arraiais, a apanhar sol nas praias conjuntamente com outros seres humanos desconhecidos, a partilhar piscinas e outras tantas atividade sempre coletivas. Até é caso para dizer que a fome de convívio invernal deu agora numa grande fartura de interceções humanas agradáveis.
Este ímpeto de movimento e ação que carateriza o Verão na nossa terra, este adensar de pessoas, de troca de experiências, de novidades, de crítica e elogio, são uma resposta, com frequência criativa, aos males que estamos a enfrentar, aos males que se adensam e espreitam voltar no final do Verão.
Como seria bom que esta vitalidade humana se alargasse ao longo do ano e a todos os níveis, desde a cultura à indústria, ou desde o divertimento ao comércio. Por vezes penso no que será necessário para que, tal como noutras sociedades que aparentam ter a mesma soma de recursos ao seu dispor que nós e estão com elevados níveis de riqueza, também nós possamos ter os seus níveis de riqueza.
Nestas conversas de Verão já ouvi afirmar que nessas sociedades “foi a ideologia política que foi mais eficaz, que o sentimento de libertação das restrições impostas pela escassez dos meios ou por instituições sociais e políticas anquilosadas” impulsionou os homens a mudar de rumo.
Admiramos na cidade, por exemplo, a obra dos romanos, obra “de humildes artífices do passado, sabendo quão desproporcionados eram os incentivos económicos. Apenas podemos concluir que fatores intangíveis e não mesuráveis, tais como o ímpeto criador, o amor ao seu trabalho, o orgulho pela sua própria aptidão e o respeito próprio, quando existem, possibilitam milagres; e que a ausência destes fatores degradam a produção, quer quantitativa quer qualitativamente.”
“É preciso compreender uma atmosfera de entusiasmo coletivo, de exaltação e cooperação” para fazer crescer uma sociedade em riqueza e humanidade. Foi isso que, nos últimos treze anos, a gestão PSD não compreendeu ao tentar apoucar a parte da população da cidade que não lhe tecia loas.
O “nisto mandamos nós” ou o “quem paga manda”, paulatinamente se transformou “nisto mandam os credores” e “quem deve obedece”.
Para aqui conduziram a nossa autarquia, daqui já vimos que não sabem sair!
Eu quero para a nossa cidade um Verão que não acabe!
Francisco Chaves de Melo

Sim, nós podemos
A união, a força de expressão e a vontade de mudar o rumo das coisas foi uma das coisas que mais me impressionou nos catalães quando cheguei a Barcelona. E se volto a essa qualidade admirável dessa gente é porque esbarro nela quase diariamente, seja no dia que eles relembram a sua vontade de independência na "Diada nacional" (11 de Setembro), seja na originalidade de elegerem uma cidadã activista para o seu Governo (a Ada Colau), seja nas manifestações regulares para renunciar a uma privatização ou denunciar a brutalidade policial contra os que se expressam e resistem, agora legitimada pela "Lei de la Mordaza" que o Governo de Mariano Rajoy pôs em prática este primeiro de Julho.
Desde o início do ano que se anunciou a privatização do Teatre Liceu, a belíssima ópera de Barcelona. E os seus funcionários bem sabem o que isso significa: despedimentos e contratos precários. Desde então, eles manifestam-se em frente ao edifício uma, duas, três, quatro... vezes sem conta, tanto que eu já não conto e já acho normal haver uma "manif" quando passo em frente ao Teatre Liceu.
Protesto em frente ao Teatre Liceu, Barcelona, Junho 2015 - Fotografia de Sandra Pereira
Também não hesitaram em votar na Ada Colau, que conhecem por estar no "fogo da acção" sempre que os "Mossos de Esquadra" empreendem um despejo, seja de okupas ou pessoas que perderam tudo com a crise. Já eram muitos os que tinham deixado de ir às urnas para votar "sempre nos mesmos" (PP (direita) ou PSOE (esquerda)), mas atreveram-se a dar uma oportunidade a um movimento cidadão (o Podemos de Pablo Iglesias) sem certezas se algo irá mudar. Simplesmente pensam que algo "Pode" mudar.
Campanhas de sensibilização, projecções de documentários, recolha de assinaturas e muito barulho contra situações injustas. Todos os catalães participam em associações e estão nas ruas todos os dias. Mesmo em dias de festa, ao lado da música, da cerveja e das "tapas", os catalães montam sempre um "estaminé" para contestarem medidas do Governo que não consideram adequadas para os seus bairros, geralmente pensadas para impulsionar o já excessivo turismo da cidade. Assim se vê a admirável força dos catalães, um carácter moldado a o longo de anos de repressão à sua língua e singularidade cultural. Uma força admirável que a "Lei de la Mordaza" visa agora conter, pois assusta de tão eficaz. A partir de agora quem se manifestar na rua, seja contra um despejo ou numa praça pública, terá de pagar o preço de... uma multa. Porque até prova do contrário, o dinheiro é o instrumento que sempre acaba por dominar as mentes da sociedade ocidental.
Os rostos da mudança, Ada Colau e Pablo Iglesias, nas ruas de Barcelona, Junho 2015 - Fotografia de Sandra Pereira
Se algum dia sentiremos a alegria de assistir ao conceito de sociedade aberta, preocupada com o bem-estar geral, a justiça e participativa, o exemplo catalão é a semente. E se falo desta semente nos Discursos (Emigrantes) sobre a Cidade é porque ela pode ser plantada e florescer em qualquer lugar, seja em Barcelona, em Atenas ou em Chaves. Os gregos ousaram ser os primeiros a dizer "não" ao FMI, um facto inédito na história desta instituição. Têm a perfeita consciência que vão sofrer consequências duras, mas desta vez, e admiravelmente, preferem exprimir-se e renunciar ao domínio cego do dinheiro e ao egoísmo que sempre encerrou o conceito de FMI e União Europeia.
Eles, catalães e gregos, sim acreditam verdadeiramente na frase feita "quem quer, pode". Pois sim. Quem realmente quer, reúne todas as condições necessárias para que a sua vontade se cumpra. Seja amanhã, no próximo ano ou na próxima geração. As nossas possibilidades como seres humanos neste mundo são infinitas.
Sandra Pereira

Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso - Chaves

Chaves, 18 de Setembro de 1960
Aqui estou, como uma encomenda que viesse por aí acima em pequena velocidade e chegasse à estação sem o rótulo do destinatário. Os poetas não assentam bem em terra nenhuma. Ficam sempre largos demais
Miguel Torga, in Diário IX

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Caro Cid Simões, eu é que agradeço as suas visitas...
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