Intermitências

O Maravilhoso
E por um breve instante sentiu-se ele próprio.
Sentiu a sua própria presença e assustou-se. Primeiro, com o brilho, a intensidade e a vivacidade de todas as coisas que o rodeavam. Depois, ao ver como o quotidiano o impedia de desenhar-se e definir-se. Parecia que acabava de nascer, de ver-se pela primeira vez. O Maravilhoso.
E voltou à realidade.
Sentiu falta do Maravilhoso. Como regressar? Onde o encontrar? Então começou a mergulhar dentro dele próprio com mais regularidade. Desde então, custava-lhe cada vez mais distinguir o que era real e o que não o era.
E pensou que enlouquecia.
Mais o tempo avançava, mais sentia que a só a sua própria presença era maravilhosa. Queria ficar aí, nesse espaço, nesse preciso momento, prolongar esse sentir até ao Infinito. Chorou ao pensar que seria impossível. Quem consegue agarrar o Tempo? Quem consegue segurar o Espaço? Ninguém, ninguém...
Ilha Grande, Brasil, Dezembro de 2014 - Fotografia de Sandra Pereira
E viu um estranho a atravessar o seu caminho. Sorriu-lhe.
Apareceu-lhe do nada, assim, uma “dádiva do Céu”, um daqueles acasos da vida que fazem sentido apenas e só naquele momento da vida, como um sinal a apontar para a direcçao ou para a resposta que se andava à procura, aqueles acasos que fazem sentido e que são, ao mesmo tempo, inexplicáveis. Do nada, sim do nada, e apenas lhe disse para não se apressar ao ceder-lhe a passagem: “O tempo é respiração”, disse.
Estranhou-o. Estranhou-se. E através da presença dele, sentiu de novo a sua própria presença. O Maravilhoso. Não só lhe cedeu passagem, como continuou a caminhar ao lado dele. Que lhe podia contar aquele estranho sobre o Tempo e o Espaço?
O estranho confessou-lhe que nada mais sabia. Que ia continuar a caminhar. Em direcção ao Maravilhoso. Até quando, perguntou ele, até quando...“O que não faz nada, nada recebe”, respondeu o estranho, afastando-se.
Sandra Pereira



