Chá de Urze com Flores de Torga - 105

Chaves, 7 de Setembro de 1981
Falava-se do oitavo centenário da morte de S.Francisco de Assis, o meu santo. E louvei-o mais uma vez como pude. Chamei-lhe o Cristo da bem-aventurança terrena. Um Cristo poeta, sem o dramatismo árido do deserto e da expiação, a pregar transparências num centenário de branduras idílicas. Um Cristo que integrou o próprio demónio na fraternidade cósmica. Um Cristo humilde, sem a vocação do mando, alérgico à propriedade privada, fundador do sufrágio universal, por voto secreto, anarquista, processo de alegria da vida. Um Cristo a abrir o caminho do Renascimento só por acreditar no homem e na natureza. Um Cristo do mundo à medida do mundo.
Miguel Torga, in Diário XIII

Cidadella, Espanha, 9 de Setembro de 1981
Por uma estrada que margina a fronteira, vim olhando Portugal de coração apertado. Agora, dum miradoiro hospitaleiro, quase a tocá-lo com a mão, acalmo o patriotismo mais pensadamente. Lá está, pobre na condição territorial, nos projectos e nos empreendimentos, sem dar a nenhum filho qualquer garantia de futuro temporal ou intemporal. Mete aflição! Deste lado, a fartura, o vestuário condigno, a arte sumptuosa, o convívio, a alegria. Do outro, a miséria, o andrajo, a rusticidade santeira, a insociabilidade, a tristeza. Mas é precisamente por ter renunciado a todas as tentações de comungar no lauto banquete peninsular, numa teimosia instintiva de independência e de liberdade, que tanto lhe quero. É bonito ver um pequeno povo riscar voluntariamente no mapa do mundo uma linha de solidão absurda e assumir a responsabilidade histórica de a defender como se tivesse sido traçada pela régua da fatalidade.
Miguel Torga, in Diário XIII


